cartaz fora temer

Mané Garrincha foi palco de manifestações políticas e homofóbicas neste início de Rio-2016 (Foto: Reprodução)

Lucas Faraldo
10/08/2016
06:45
São Paulo (SP)

Dois pesos duas medidas. O ditado popular sintetiza o comportamento do Comitê Olímpico Internacional em relação a manifestações de cunho político e homofóbico vindas das arquibancadas ao longo dos Jogos Rio-2016.

Embasado no artigo 28 da Lei Olímpica (Lei nº 13.284), que não fala abertamente em veto a manifestações políticas, o COI se vê no direito de coibir protestos políticos de torcedores durante os eventos da Rio-2016. O mesmo texto, que proíbe explicitamente "entoar cânticos discriminatórios", não é levado a sério pelos responsáveis da Rio-2016 quando o assunto é homofobia.

Diz um trecho do dito artigo ser proibido durante eventos esportivos da Rio-2016: "portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, de caráter racista ou xenófobo ou que estimulem outras formas de discriminação" e "entoar xingamentos ou cânticos discriminatórios, racistas ou xenófobos".

No último fim de semana, um torcedor que portava um cartaz com os dizeres "Fora Temer" foi retirado do Sambódromo, durante as finais do tiro, por agentes da Força Nacional de Segurança. Um grupo de homens e mulheres que também protestavam pacificamente contra o presidente interino da República – vestiam camisetas com letras estampadas que, lado a lado, formavam a expressão "Fora Temer" – foi retirado das arquibancadas do Mineirão durante jogo de futebol.

A mesma intervenção policial não foi vista em nenhuma das situações em que torcedores de ao menos três estádios olímpicos (Arena Corinthians, em São Paulo, Mané Garrincha, em Brasília, e Mineirão, em Belo Horizonte) entoaram cânticos homofóbicos contra jogadores e jogadoras de diversas seleções de futebol. O coro de "ôôô... bicha!" quando goleiros e goleiras batiam tiro de meta se destacou em meio às ofensas.

– É pessoalmente nocivo. Acho que é um tipo de mentalidade baixa que extrapola um pouco os limites – disse a meia Megan Rapinoe, dos Estados Unidos, conforme reproduzido pelo jornal Los Angeles Times.

– Acredito que a maioria desses torcedores não falaria isso na minha cara –prosseguiu Rapine, que é assumidamente homossexual.

Em contato com a reportagem do LANCE!, a assessoria de imprensa da seleção masculina de futebol da África do Sul, que foi o primeiro time a ouvir em grande escala os gritos homofóbicos por ter estreado nos Jogos justamente contra o Brasil, se posicionou sobre o tema.

– Nós nem sabíamos o que eles estavam cantando. Não temos problemas com pessoas gays. Esse é um problema deles (torcedores), não nosso. E especificamente sobre Khune (goleiro), ele não é gay. Então realmente não há sentido algum (os gritos) – disse Namhla Mphelo, porta-voz dos sul-africanos. 

O L! também tentou buscar um posicionamento do COI e da Fifa – esta última se posicionou, em 2015, contrária a qualquer forma de discriminação e chegou a multar algumas federações sul-americanas por cânticos homofóbicos durante jogos das Eliminatórias da Copa-2018. O órgão responsável pela Rio-2016, ignorando a questão dos gritos homofóbicos, disse "acreditar que todos entendem e apreciam o espírito dos Jogos e as razões pelas quais os Jogos não podem se tornar politizados. É por isso que o COI tem uma regra de longa data que estabelece que o ambiente dos Jogos Olímpicos não é um lugar para protestos e manifestações". A entidade máxima do futebol mundial não respondeu as indagações da reportagem.