Jonas Moura
14/03/2018
06:00
Rio de Janeiro (RJ)

Responsável por levar o tênis de mesa brasileiro mais uma vez às manchetes dos sites esportivos pelo mundo na última semana, Hugo Calderano vive uma fase de amadurecimento técnico e mudança de hábitos no dia a dia.

No sábado, ele faturou uma medalha de prata histórica no Aberto do Qatar, etapa Platinum do Circuito Mundial, que tem o mesmo status de um Grand Slam de tênis. Na disputa, venceu ninguém menos que o número um do mundo, o alemão Timo Boll, o quarto colocado, o chinês Lin Gaoyuan, e o 12º, o japonês Tomokazu Harimoto. O jovem só perdeu a final para o chinês Fan Zhendong, por 4 a 0.

Não é de hoje que Calderano brilha entre os melhores. No início do mês, ele atingiu a 15ª colocação no ranking da Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF, em inglês), sua melhor marca. Com os últimos resultados, ficou perto do top 10. O Aberto da Alemanha, entre 23 e 25 de março, pode selar o feito.

Uma das novidades que já mostra resultados foi a decisão de se tornar vegetariano, em agosto do ano passado. Aos 21 anos, o carioca, que mora na pequena Ochsenhausen (ALE), onde defende o clube local, se empolgou pelo assunto e resolveu deixar a carne de lado. A alimentação já era um dos desafios mais complicados para ele quando deixou o Brasil, em 2013.

– A mudança me ajudou bastante. Eu me sinto melhor fisicamente, menos cansado, e mais disposto nos treinos e nas competições. É uma  de vida forma saudável, que ajuda no tênis de mesa. E também a favor dos animais, do planeta – disse o mesa-tenista, ao LANCE!.

A escolha aconteceu após um período difícil. No início de 2017, o brasileiro sofreu uma lesão muscular na parte posterior da perna direita, que prejudicou os planos de subir no ranking. Ao voltar, selecionou melhor o que comeria, e se dedicou a uma preparação física intensa em um país que reúne grandes astros da modalidade e uma estrutura de ponta.

– Tenho grandes objetivos, que são conquistar medalhas olímpicas e em Mundiais, e chegar no topo do ranking. Para conseguir isso, preciso morar na Alemanha, treinar entre os melhores. Mas é claro que gostaria de viver no Brasil.

Parceria com treinador francês é diferencial

Após alcançar as quartas de final na Rio-2016, Hugo manteve a parceria valiosa de oito anos com o francês Jean René Mounie, que treinou a Seleção no último ciclo. Agora, ele é seu treinador particular, de olho em Tóquio-2020, quando o brasileiro poderá fazer mais história.

– Quando vejo a tabela, dou uma olhada nos vídeos dos rivais, mas realmente quem faz maior trabalho de estudos é o Jean René. Ele traça uma estratégia, não fechada, para cada partida. O principal é que eu faça meu jogo, imponha minha agressividade, mas ele traça um caminho – contou Calderano.

Jean René também foi o responsável pela ida do brasileiro para o Ochsenhausen, quando comandava o time. O clube alemão oferece estrutura para o atleta se manter no país. Seu contrato vai até 2019, mas deverá ser renovado até a Olimpíada.

Cada vez mais visado, Hugo acredita que seu maior desafio ainda é a técnica, e não o fator psicológico.

– É normal que a técnica venha cedo, e a força psicológica mais tarde. No meu caso, foi o inverso. Não treinei muito quando novo, mas, por ter praticado outros esportes, sempre tive mente forte. Minha técnica está vindo agora – contou o atleta, que já praticou vôlei e atletismo.

BATE-BOLA
Hugo Calderano
Mesa-tenista, ao LANCE!

‘Eu sempre acreditei que poderia estar entre os melhores do mundo’

Chegar no top 15 do ranking, prata no Aberto do Qatar... esperava tudo isso agora, aos 21 anos?
Sempre tive muita confiança de que conseguiria chegar entre os melhores. É difícil saber quando. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a um ano essa ascensão. Felizmente, veio agora. Espero conseguir manter esse alto nível que apresentei no Qatar. Fiquei muito feliz de disputar de igual para igual com os principais do mundo.

Foi difícil se tornar vegetariano em meio à rotina de atleta?
No início, eu tinha algumas dúvidas. Não sabia se conseguiria com as viagens, comendo em hotéis e nas competições. Mas, com dedicação, ficou tranquilo. Sei quando preciso de suplementos. E tive de cozinhar um pouco mais. Nem sempre o hotel tem comida boa. Faço tofu, arroz, massa e vegetais. O segredo é balancear.

De onde surgiu a ideia?
Tem uma onda grande de vegetarianismo vindo aí, e me interessei. E vi o documentário “What The Health”, que me ajudou a decidir.

O que projeta para o resto deste ciclo olímpico? Você está cada vez mais visado e terá maior pressão.
Fico muito feliz que tem muita gente torcendo por mim e pelo Brasil. Nunca esperei que o tênis de mesa pudesse atrair tanta gente e torcida. Acho que pego só a parte positiva, a energia que a galera manda, e uso essa pressão paro lado bom. Não deixo me abalar.

Você está acima dos outros brasileiros. Vê chance de termos outros atletas em destaque no esporte?
O tênis de mesa no Brasil já evoluiu muito. Ninguém sonhava que teríamos um atleta perto do top 10. Mesmo outros jogadores brasileiros evoluíram, como o Cazuo (Matsumoto), o (Gustavo) Tsuboi, o Eric (Jouti) e o Vitor (Ishi). Eles ainda não estão no mesmo nível, mas têm condições de atingir o top 50 e conseguir fazer parte não da elite, mas do grupo dos melhores do mundo. Os mais jovens não acompanho tanto. É difícil saber se tem alguém com chances.

QUEM É ELE

Nome
Hugo Marinho Borges Calderano
Nascimento
22/6/1996, no Rio de Janeiro
Altura e peso
1,81m e 73kg
Conquistas neste ciclo olímpico
Em 2016, foi vice-campeão do Aberto da Áustria, etapa Major do Circuito Mundial. Ao lado de Gustavo Tsuboi, conquistou o título de duplas do Aberto da Suécia, etapa Major. Em 2017, foi campeão individual da primeira edição do Campeonato Pan-Americano e levou cinco medalhas no Circuito Mundial. Em 2018, foi bronze individual no Aberto da Hungria. Em fevereiro, liderou a Seleção Brasileira rumo às quartas de final da Copa do Mundo por equipes.