Marcio Porto
17/06/2016
07:00
São Paulo (SP)

São dez horas da manhã e o som extremamente alto, ao melhor estilo pancadão, simboliza aqueles que imploram para serem ouvidos. É o barulho de comunidade. É a voz do Jardim Irene, bairro pobre da periferia de São Paulo. É festa porque, dali a pouco, onde tudo se resumia a terra e pedra, estará entre eles o homem que os representa e representou como ninguém um sonho de muitos, centenas, milhares: Cafu, capitão da Seleção Brasileira na conquista do pentacampeonato mundial em 2002.

Quatorze anos depois de levantar a taça e homenagear o lugar onde nasceu, viveu e cresceu para o futebol, o ex-lateral retornou para fazer mais um golaço: inaugurar o primeiro campo de grama sintética do Jardim Irene, alçado ao mundo na famosa camisa “100%” de Cafu.

– Para mim é um dia muito importante, mas mais importante ainda é para a comunidade Jardim Irene, que ganha um campo desses, uma festa dessas. Com a presença de Marcos Assunção, Amoroso, ídolos que jamais teriam oportunidade de ver em outra ocasião. E estar inaugurando o campo onde começou a história do Cafu. Esse realmente é o campo que começou a minha história. Campo de terra, cheio de buraco, de pedra, a gente arrancava a tampa do dedo aqui, arrancava a unha fora. Nesse mesmo lugar– contou Cafu, em conversa com o LANCE! logo depois de disputar a primeira pelada do novo campo.

Projeto "Viva o Campinho" foi bancado pela Brahma e reformou o espaço onde Cafu começou a jogar bola

“Novo”, aliás. Entre aspas porque o local onde Cafu e seus amigos (como o ex-volante Marcos e Assunção e o ex-atacante Amoroso) brincaram contra convidados (como este que vos escreve) nada mais é do que o mesmo campinho de terra que revelou o capitão. Ganhou grama boa e bonita, traves novas, refletores. Cores. Dignidade.

– É uma coisa impressionante. Nas outras regiões é comum, tem sintético em tudo quanto é lugar. E na nossa esse é o primeiro. É uma conquista.. Serão dias inesquecíveis para eles. Quando o Brasil foi campeão do mundo, e eu disse 100% Jardim Irene, e agora a inauguração do campo. Dias inesquecíveis para o Jardim Irene – ressalta Cafu, enquanto é tietado por crianças, mulheres, homens, senhoras, senhores.

Ele sabe o quanto foi difícil. Para que eu e outros pudéssemos deslizar a redonda sem se preocupar em chutar uma pedra, foi luta. Em 2002, quando voltou ao campinho logo após o título no Japão, a reforma era só um sonho. Na cerimônia que contou até com Geraldo Alckmin, governador na época, Cafu foi festejado, mas na sua mente estava a certeza de que era preciso fazer mais ali. Fez.

Cafu no Jardim Irene
Cafu ressalta projeto de reforma de campo no Jardim Irene


O tempo passou, ironicamente o governador é o mesmo, mas a autoridade é outra. O campo foi reformado graças a Cafu e à iniciativa privada. Foi tudo bancado pela Brahma, que deu forma ao projeto “Viva o Campinho”. Para José Edmilson da Silva, o Bigode, morador do Irene, não há dúvida: Cafu olha mais para o Jardim Irene do que os políticos. O ex-jogador concorda, na entrevista feita onde se pode ver o córrego que antes cortava o campo e para onde a bola ia.

"O que eu puder fazer pelo meu bairro, vou fazer. Sei o quanto é importante, o quanto serve de incentivo para essas crianças terem alguma chance na vida", Cafu, sobre a participação nos projetos do Irene

– Sem dúvida nenhuma. Não tem nem comparação. O que eu puder fazer pelo meu bairro, vou fazer. Sei o quanto é importante, o quanto serve de incentivo para essas crianças terem alguma chance na vida. E não estou falando de ser jogador de futebol, não. Estou falando de ser cidadão, um repórter, um jornalista.

Bigode, 56 anos, é amigo do ex-lateral desde a infância. O entrosamento nas ideias vem dos tempos do campinho – jogaram juntos. Por causa de iniciativas como essa, puderam celebrar a reforma relembrando os velhos tempos. A vitória da vida é sempre mais importante.

Entrevista com Cafu, no campinho do Jardim Irene

Voltar ao Jardim Irene para inaugurar um campo é voltar a 2002 na final da Copa?
Sempre volto. É o começo, história, tudo começou aqui. Daqui saiu o Marquinhos do Jardim Irene, os primeiros gols, os primeiros passos. A história dessas pessoas que estão aqui, são pessoas que jogaram comigo. O pai jogou comigo, o filho jogou comigo, então tem muita história real dentro desse campo.

Ainda falta muito?
Falta muito nas periferias em geral. Inclusão social. Um lugar onde as crianças possam expressar sua inteligência, potencial. A periferia tem potencial muito grande, mas a oportunidade não chega.

O que você recebe em troca?
É 1000% para mim. Eu falei 100% Jardim Irene na final da Copa, mas o retorno é 1000%. Qualquer horário, qualquer hora. Posso vir com o carro que for, a pé, de caminhão, eles veem com respeito o Cafu. Tem uma frase que eu costumo falar para todo mundo: não existe dinheiro no mundo que pague você ver o sorriso estampado no rosto das crianças.

ENTREVISTA COM JOSÉ EDMILSON DA SILVA, O BIGODE

O que mudou no Jardim Irene desde quando Cafu era criança?
Não está os 100% como a frase dele, mas 90% mudou. Ele trouxe isso para nós e foi a coisa que deu o incentivo para todos. Uma parte do córrego foi canalizada, aqui perto do campo, falta ainda uma parte lá para frente. A estrutura foi mudando.

O Cafu olha mais para o Jardim Irene do que as autoridades?
Sim, porque foi ele que trouxe a canalização para cá. As autoridades vieram tomar providência depois que ele se manifestou na Copa.

Precisam olhar mais?
Entra prefeito, sai prefeito e não muda. Ainda bem que temos o Cafu, que faz. E a Associação Internacional do Direito à Humanidade.

Qual a lembrança que tem dele quando jovem no campinho?
A dificuldade como sempre para todos os garotos. Tínhamos que ajudá-lo com o dinheiro para ele treinar, porque morava longe. Mas sempre foi esse sujeito íntegro, de caráter.