Bernardo Cruz
26/12/2016
06:00
Rio de Janeiro (RJ)

A vida de Zé Ricardo deu uma guinada profissional excepcional em 2016. O técnico responsável por garantir o terceiro caneco do Flamengo na Copa São Paulo de Futebol Júnior em janeiro, termina a temporada como comandante da equipe principal do Rubro-Negro, trabalho valorizado e dever cumprido.

Após superar a desconfiança inicial (quando era apontado apenas como interino), as poucas horas de sono e o frio na barriga, o treinador já projeta um 2017 repleto de grandes desafios. No entanto, não se intimida.

Sereno, humilde e com os pés no chão, respondeu a todas as perguntas feitas pela reportagem do LANCE!, realizada no FlaMemória, com a segurança que adquiriu após superar desafios iniciais. Com a Libertadores e o Mundial de fundo, ele crê em conquistas e voos altos no ano que vem.

Qual o balanço que você faz de seus primeiros meses de trabalho como técnico efetivo do Flamengo?
Acredito que consegui fazer um trabalho bem consistente. O nosso grande objetivo foi o título brasileiro, mas ele infelizmente não veio. Por outro lado, asseguramos a vaga direta na Libertadores, que é algo que vai nos ajudar na programação do nosso planejamento para 2017. As dificuldades existiram, mas com a ajuda de todos do departamento de futebol e dos atletas, conseguimos estabelecer uma relação de trabalho muito boa e isso resultou em um bom ambiente e crescimento coletivo. Confira o bate-papo abaixo:

Qual foi o principal impacto sentido nessa transição da base para o profissional?
Sem dúvida nenhuma, mesmo com a longa experiência com trabalhos na base, que dá uma boa bagagem, assumir de uma hora para outra uma equipe do tamanho do Flamengo, com 40 milhões de torcedores, bate um nervosismo. As primeiras noites foram difíceis de se dormir, até porque minha primeira partida seria dois dias depois que fui chamado. As primeiras quinze noites foram de pouco sono (risos). Mas valeu a pena todo o sacrifício. Foi importante todo o apoio que recebi do departamento do clube para que pudesse iniciar minha trajetória. A energia que recebi dos profissionais das categorias de base, não só do Flamengo, foi muito importante.


De que maneira recebeu a notícia da sua ida para o profissional? Te surpreendeu, mesmo com o bom trabalho já realizado na base?
Depois da conquista da Copinha, a direção do clube sinalizou que gostaria de investir na continuidade no clube. Em um primeiro momento me colocaria como auxiliar do profissional. Estava em uma competição (Brasileiro), em uma partida contra o Sport. Na véspera do jogo eu recebi o telefonema do Flávio Godinho sobre essa possibilidade de assumir a equipe de forma interina contra a Ponte Preta. No dia seguinte, a informação foi confirmada durante nosso voo de volta do Recife. O engraçado que foram os atletas do sub-20, que ao ligarem os celulares, viram a notícia e me parabenizaram. Não foi uma surpresa absoluta, mas com certeza deu um frio na barriga gostoso. Sabia que naquele momento tudo poderia mudar na minha vida.

Qual era o seu maior receio no primeiro momento?
Acredito que era fazer com que o grupo de atletas entendesse nossa filosofia de trabalho, além da própria recepção dele. As exigências no futebol profissional são muito maiores. Só tinha uma certeza naquele momento: colocar em prática tudo o que aprendi ao longo da minha caminhada e passar ao grupo que isso poderia dar certo. O primeiro desafio foi tentar devolver a confiança deles, que no primeiro contato que tive percebi que estava abalada. Vi que era um grupo muito técnico, com jogadores inteligentes e que não tinha como dar errado se as ideias fossem alinhadas. Me coloquei sempre ao lado deles, nunca a cima. Em determinado momento do Brasileiro tive a convicção que apresentamos um grande futebol.

Em qual momento ou jogo sentiu que as pessoas já não te viam mais como interino e sim como técnico do Flamengo de fato?
Teve uma partida que me marcou, que foi contra o Sport, na abertura do returno. Fizemos um final de turno em um bom nível e tivemos dez dias para trabalhar para esse compromisso. Foi a partida sob meu comando que a gente tenha produzido menos. Aquilo me deixou em dúvida do motivo de não ter dado certo. Conversamos, os atletas entenderam que aquele jogo não era a maneira como o Flamengo deveria se apresentar, não só pelo resultado em si. Na partida seguinte, contra o Grêmio, já apresentamos um nível muito interessante. Dominamos boa parte das ações e foi a estreia do Diego e do Leandro Damião. A partir dali fizemos uns 12 ou 13 jogos sem perder. Posso te dizer que esse momento foi emblemático.

Antes de sair de férias a gente colocou as carências no elenco. Fica entre três e quatro jogadores. Mas nada em cima de desespero. Temos uma equipe forte. Dentro das necessidades, passamos uma escala de nomes para cada posição.

Quem ou quais pessoas mais te apoiaram até sua efetivação?
Eleger uma pessoa só seria até uma injustiça. A nossa comissão técnica foi muito receptiva. O Rodrigo Caetano foi fundamental também, mas o próprio grupo me ajudou muito. O Juan sempre com uma palavra muito positiva do trabalho, o Arão muito participativo nos treinos. Fernandinho e Mancuello procuraram trocar ideias. No geral todos ficaram entusiasmados com o que era proposto. Esse conjunto, direção, atletas e a comissão, foi fundamental para me sentir cada vez mais seguro.

O Flamengo tem um histórico de técnicos criados dentro do próprio clube como o Carlinhos e o Andrade. De que maneira a trajetória inicial deles, parecida com a sua, te inspirou?
Me sinto envaidecido por ser colocado no patamar de Carlinhos, Andrade, o próprio professor Jayme (de Almeida) e o Cláudio Coutinho. Estou tentando trilhar a minha história, mas certamente a trajetória deles aqui dentro serve de inspiração. Se conseguir levar o Flamengo a títulos no profissional vai ser motivo de muito orgulho, já que faria parte da história do clube.

Essa é sua segunda passagem pelo Flamengo. Entre elas você teve um período na Itália. Pensou que voltaria ao clube?
A gente às vezes toma certas decisões na nossa vida que muda todo o nosso futuro. Após um ano na Itália, estava de férias no Brasil e recebi o convite do Rivellino Serpa para retornar ao Flamengo em 2012. É o que falei no início. Tive uma temporada muito boa fora e estava muito entusiasmado, com convites de clubes maiores na Itália. Se tivesse optado em seguir aquela trilha, talvez até hoje estivesse no futsal. Mas o coração pediu para lutar e ter sucesso também no campo.

Há um tempo atrás se falava que os treinadores brasileiros estavam defasados e não havia renovação. Vê uma mudança nesse cenário, sobretudo aqui no Rio com o seu sucesso e do Jair Ventura no Botafogo?
Esse é um assunto um pouco polêmico. Na verdade não existe uma receita ideal. Apenas acho que a troca de experiência, seja aqui ou fora, é válida. Acredito que a reciclagem é o caminho. Não sei se isso é uma tendência, até porque tudo na vida existe o ciclo de renovações. Estou muito tempo já na estrada, como o próprio Jair. Mas existem outros no Brasil. O Corinthians agora está apostando no Carille, que é jovem, o Micale, na Seleção Olímpica, o Roger Machado, Eduardo Baptista, todos muito talentosos. Tem espaço para todo mundo.

Flamengo e Maracanã se misturam. Ali é a casa do Flamengo, onde o torcedor se sente bem. Mas é um assunto que está na esfera da presidência e espero que o imbróglio se resolva. Se não, temos a Arena na Ilha e vamos transformar o local na nossa casa e vamos buscar a nossa classificação alí

Qual foi o principal ‘vilão’ para o Flamengo ter perdido o título brasileiro na reta final?
Não existe um fator apenas. O grupo vinha em uma batida muito forte. Foi um ano muito desgastante. Eu, que não entro em campo, estava cansado com o tamanho do deslocamento que a gente precisava fazer. Perdemos algumas sessões de treinamento, e isso inclui a parte do repouso também. Nas rodadas finais a conta chegou. Tentamos de tudo. Em algumas partidas da reta final estávamos bem, mas vinha o desgaste. O fato da mudança da regra de classificação da Libertadores criou uma dificuldade, porque naquele momento enfrentamos justamente adversários envolvidos nessa disputa. Mas prefiro valorizar a nossa campanha. Afinal, diante de todas as dificuldades, fez sua melhor campanha na era dos pontos corridos.

O jogo contra o Corinthians, o primeiro da equipe no Maracanã no ano, te marcou? Alí teve a certeza que tudo valeu a pena?
Foi um dos momentos mais marcantes desses seis meses, talvez até o maior. Retornar ao Maracanã, que era algo que a gente desejava tanto, aconteceu no clássico das multidões, contra o Corinthians. Foi uma pena a gente não ter conseguido dar a vitória para a torcida, que estava entusiasmada. Quando entrei no Maracanã, te confesso que fiquei uns dois ou três minutos para voltar a Terra, porque eu estava viajando. Fui nascido e criado ao lado do estádio e fui a inúmeros jogos nele. Ver aquela energia toda foi fantástico. Tive a certeza que conquistamos algo, com a torcida ao nosso lado e o resgate do orgulho deles.

Zé Ricardo
Zé Ricardo falou sobre as lições aprendidas na temporada (Foto: Roberto Veloso)

Que lições ficam para 2017?
As lições foram as melhores possíveis do que precisamos ou não fazer. Temos um ambiente o melhor possível dentro do grupo. Dar atenção a cada detalhe e fazer com que o atleta se sinta importante. A nossa missão é fazer com que essa equipe seja ainda mais competitiva para os desafios que teremos pela frente. Vamos buscar conquistas, porque é o que nós e a torcida queremos. Merecemos pelo trabalho que estamos realizando desde 2016. Quem quiser fazer parte do nosso grupo precisa estar inteiro.

A torcida pode sonhar alto?
Pode. Essa é a nossa tarefa. Não vai faltar empenho e dedicação de todos.

Como analisa o grupo do Flamengo na Libertadores?
Acredito que o último integrante da chave seja o Atlético-PR. Torço para isso. O clube vem se estruturando e tem um técnico excelente. A Católica tem um jogo tático muito consistente, ganhou o Clausura, o Apertura e tem o Salas como comandante. Já o San Lorenzo ficou com o vice na Argentina e tem o Diego Aguirre como técnico. Ele conseguiu dar uma identidade para a equipe, que há algum tempo tinha perdido. É um adversário difícil de ser batido. Vai ser uma competição muito complicada. Mas para eles também será complicado. Chegamos forte na competição e pensando grande.

O desempenho do Flamengo em clássicos foi irregular nesta temporada. Esse ponto vai merecer sua atenção especial?

É uma consequência do trabalho que pretendemos fazer. Um clássico tem um charme todo especial. O Carioca é o nosso primeiro objetivo do ano, que é recuperar a nossa hegemonia no estado. Podem ser até seis clássicos pela frente e para sermos campeões, vamos ter que superar o nossos rivais. Não vamos ter um tratamento especial só por conta de ser um clássico. Vamos jogo a jogo.

O aproveitamento dos garotos vai ser maior em 2017. O fato de você conhecer bem essa galera facilitará essa transição?
Não tenho a menor dúvida disso. É uma das nossas metas para 2017, para que eles tenham uma projeção maior. Mas isso vai depender do desempenho deles. Falo isso sempre para eles. Não é porque são jogadores criados aqui dentro que terão privilégios. Pelo contrário. Precisam merecer estar ali no profissional e jogar. Conheço todos muito bem. Espero que o Flamengo retorne com o lema de fazer o craque em casa. Para o cara que se desenvolve aqui, respira o rubro-negrismo, é mais fácil que ele entenda a cobrança e os desejos da própria torcida. Será um motivo de felicidade pessoal vê-los brilhar.