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Marcio Dolzan
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 30/08/2025
11:11
Atualizado há 3 minutos
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Das certezas deste sábado (30) é que encontraremos uma infinidade de relatos nas redes sociais de pessoas afirmando que "aprendi a gostar de ler com o Luis Fernando Verissimo" e outras atribuindo a ele frases as quais nunca escreveu — e muito menos disse, porque o escritor, que morreu no início da madrugada aos 88 anos, era extremamente tímido quando empunhava um microfone.

Eu faço parte do grupo que aprendeu a gostar de ler com o Luis Fernando Verissimo.

Passei boa parte da minha adolescência devorando livros de crônicas que Verissimo escreveu ao longo de décadas. Eram histórias do cotidiano, curtas, recheadas de bom humor, que iam de um pôquer interminável ao diário sentimental do Rambo, passando pelas sessões do Analista de Bagé, que obviamente atendia seus pacientes usando bombacha e tomando chimarrão.

Com o passar das décadas, o Verissimo foi mudando um pouco o estilo de suas crônicas. Não abandonou personagens marcantes que criou ao longo da vida, tampouco perdeu o bom humor, mas passou a priorizar os espaços que tinha em alguns dos maiores jornais do País para escrever análises sobre a conjuntura do Brasil e do mundo, sempre com uma perspectiva muito humanista.

O que nunca mudou ao longo da vida foi sua paixão pelo Internacional.

E era uma paixão que ele transmitia em textos com fina elegância, sem precisar apelar para qualquer tipo de provocação, palavrões ou exageros de gosto duvidoso, desses que hoje em dia, na era do engajamento (coitada dessa palavra), parecem ter se transformado em regra.

Alguns desses textos foram marcantes. Em 2002, quando o Internacional enfrentava um calvário cujo término parecia ser a segunda divisão do futebol brasileiro daquele ano (não foi), Luis Fernando Verissimo escreveu uma crônica na Zero Hora lembrando com genuína saudade da época em que só o que importava para o torcedor gaúcho era a rivalidade Gre-Nal, e não disputar competições Brasil afora.

(Passados 23 anos, os dois maiores clubes gaúchos parecem ter voltado àquele tempo saudoso do Verissimo, mas agora por pura incompetência.)

Mas é uma crônica de 17 de dezembro de 2006, publicada horas após o Internacional conquistar o mundo em cima do Barcelona, no mesmo jornal, que ficou para sempre marcada na memória do torcedor colorado. Sob o título "Não me acordem", Luis Fernando Verissimo reproduziu parte de uma crônica antiga, quando vira, incrédulo, um pequeno torcedor com a camisa do Inter em meio a dois irmãos que trajavam a do Grêmio.

"Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha! Seu pai vestia uma camisa branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio", escreveu Verissimo, certamente em alusão à metade final da década de 1990, em que só o lado azul do Rio Grande do Sul foi feliz.

"E lá estava você de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não aguentaram e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista. Você aguentou. Você não sabe, mas é um herói.

E fiquei pensando que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque será a torcida dos que resistiram. Aguente só mais um pouco. Meus respeitos."

E, de volta à crônica de 17 de dezembro de 2006, finalizou Luis Fernando Verissimo: 

"Mas isto tudo também pode ser um sonho. Se for, por favor: não me acordem."

Aquele não foi um sonho, Verissimo. Mas, agora, descanse em paz.

Luis Fernando Verissimo foi um dos maiores cronistas do País (Foto: Rodrigo W. Blum/Unisinos)
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