A morte do escritor Luis Fernando Verissimo, na madrugada deste sábado (30), fez com que leitores e fãs de futebol em todo o país resgatassem suas obras mais marcantes. Uma das mais lembradas é, sem dúvida, a crônica de Verissimo sobre o 7 a 1, publicada no jornal "O Globo" em 10 de julho de 2014, dois dias após a derrota histórica para a Alemanha na Copa do Mundo.
O texto "Os seis minutos" é um exemplo perfeito da capacidade do autor de usar o humor e a ironia para analisar uma tragédia nacional.
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Relembre a crônica 'Os seis minutos' de Luis Fernando Verissimo na íntegra
A primeira coisa a fazer, já que o Thiago Silva não poderia jogar, era apresentar o David Luiz ao Dante. Os dois conversariam, talvez num jantarzinho, trocariam confidências e fotos das crianças, e combinariam como jogar contra os alemães. Aparentemente, isto não aconteceu. Quando David Luiz e Dante finalmente se conheceram, se apertaram as mãos (“muito prazer”, “muito prazer”, “precisamos nos encontrar!”) já estava cinco a zero para a Alemanha.
Outra coisa: houve uma confusão nas convocações. O Felipão chamou o Fred do ano passado, um dos melhores jogadores da Copa das Confederações, e quem apareceu foi o Fred deste ano, claramente um impostor. Ninguém se lembrou de checar sua documentação. E o Felipão não poderia saber que tinha convocado o Fred errado.
Outro azar: a partida ter terminado em 7 a 1. Até os 7 a 1 foi um desastre, um vexame, um escândalo — tudo que saiu nos jornais. Mas ainda estava dentro dos limites do concebível. Era cruel, era difícil de engolir, mas era um escore até com precedentes, inclusive na história das Copas. Mas se os alemães tivessem feito mais três gols, apenas mais três, entraríamos no terreno do fantástico, do inimaginável, da galhofa cósmica. A única reação possível a um 10 a 1 seria uma grande gargalhada, que nos salvaria do desespero terminal. Nada mais teria sentido no mundo, portanto nada mais nos afligiria, e todos estariam perdoados, inclusive o Felipão e a CBF, absolvidos pelo ridículo. Mas não tivemos nem a benção de perder de 10.
Proponho o seguinte consolo: vamos descontar aqueles seis minutos em que o alemães fizeram quatro gols como uma invasão do sobrenatural. Uma espécie de catatonia coletiva, de origem desconhecida, que paralisou nosso time. Os quatro gols marcados durante os seis minutos de inconsciência só de um lado, portanto, não valeram. O escore real, livre de qualquer intervenção extrafutebol, foi 3 a 1. Um escore respeitável, com o qual todos poderemos viver.
E Argentina e Alemanha farão a grande final, no domingo. Todos torcendo pela América contra a Europa, nossos irmãos continentais contra os nossos algozes, nossos co-colonizados contra os senhores do mundo etc. A esta altura, só nos resta a hipocrisia.
O gênio da crônica e a paixão pelo Inter
Um dos maiores nomes da literatura brasileira moderna, Luis Fernando Verissimo marcou gerações com suas crônicas repletas de humor e ironia. Autor de clássicos como "O Analista de Bagé" e "Comédias da Vida Privada", ele tinha no futebol uma de suas grandes paixões e fontes de inspiração. Torcedor fanático do Internacional, contrariando o pai gremista, Erico Verissimo, dedicou ao clube o livro "Internacional: autobiografia de uma paixão". O escritor, que faleceu na madrugada deste sábado (30) aos 88 anos, deixa um legado inestimável para a cultura e para a forma como o esporte é retratado na literatura do país.