Nelsinho Piquet descartou definitivamente a categoria que era o seu sonho e lhe rendeu seus piores momentos no automobilismo. Dois anos após o escândalo do Cingapuragate e adaptado aos Estados Unidos, o filho do tricampeão Nelson Piquet tem seus novos sonhos bem claros: se redimir perante à torcida brasileira e ser o primeiro brasileiro campeão da Nascar, a mais importante categoria americana. Foi o que ele deixou bem claro numa conversa franca de quase uma hora com o LANCENET!
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LANCENET!: No início do ano você se mostrou muito satisfeito por correr nos Estados Unidos. Que balanço você faz desse seu primeiro ano na Nascar?
Nelsinho Piquet: Bem, para começar, gostaria de falar do astral que eu senti. Não foi uma temporada completa, foi mais para conhecer as equipes e ter uma noção melhor do que vou fazer no ano que vem, conhecer as pessoas. O que me impressionou não foi só a Nascar, mas sim o automobilismo, a vida da comunidade inteira, as pessoas que trabalham com automobilismo lá. Eles são muito unidos, muito amigos. É muito saudável. É todo mundo apaixonado por corrida. Há uma concentração muito forte em Charlotte, 80% do automobilismo nos Estados Unidos se concentram lá. É claro que há corridas em outras cidades, mas lá é impressionante. Em todo lugar que você vai tem gente envolvida com automobilismo. Há mecânicos, pilotos, chefes de equipe, donos de equipe. É muito legal você estar naquele meio. É uma cidade em que tudo gira em torno do automobilismo e da Nascar. É difícil falar do campeonato, não participei nem da metade das corridas. Participei de três categorias para ter uma noção de onde entrar. Mas, voltando, acho que o que mais me impressionou foi a paixão das pessoas pelo esporte. Eu estava nesta semana conversando com as equipes para ver as melhores condições e havia uns quatro pilotos montando carros. E eram pilotos da categoria principal, que são famosos e ganham superbem. Eles montaram um carro de arrancada com um Dodge Viper, com um p... motor, turbinado. Todos juntos montaram o carro e o levaram para a pista, marcaram tempo, mexeram na embreagem, no turbo. É um exemplo de muitos que têm um kartódromo em casa e se juntam para brincar. Há pilotos da Nascar, da Indy. É difícil explicar o que vi nesses meses. Mas você vive mais o automobilismo, é mais esporte do que em qualquer lugar do mundo. É muito legal!
LNET!: E quais serão seus próximos passos?
NP: Pelo balanço que fiz das três categorias que corri este ano, a Truck é a mais certa para mim. Tive uma corrida só de Nationwide, não seria o caso de correr no ano que vem, a categoria B. A Truck tem pilotos da minha idade que querem chegar na principal. Tem o neto do Richard Childress, um dos caras mais conhecidos da Nascar. Geralmente é a categoria em que os novos passam. Há muitos pilotos que foram para a principal e voltaram, e ganham o seu salário. São pilotos que não deram certo ou que cansaram das viagens, já que a principal tem 38 corridas e muitos têm família. Tem um pouco de tudo, é o carro um pouco mais fácil de pilotar, tem um pouco mais de pressão aerodinâmica e nem tanta potência. É uma das coisas com a qual terei de me adaptar. Essa semana estive com seis equipes e achei as melhores, e agora eu vou cortar uma e outra até o fim do cone e chegar em duas finais para ver o que eles vão me oferecer de melhor.
LNET!: Você já disse que não voltaria para a Fórmula 1 ou iria para a Indy como piloto pagante. Você disse ter recebido propostas nos últimos meses. O que houve de concreto em relação às duas categorias?
NP: A Virgin queria conversar comigo, mas... A cada dia eu me convenço de que aqui é mais saudável. Talvez o carro não seja o mais rápido ou o que tenha mais tecnologia, mas o que interessa é que a Nascar nunca deixa de ter uma competição menor do que a Fórmula 1. São mais carros, há mais disputas. O formato da prova permite mais disputas. Em relação à Indy, não dei muito papo. Não fui para a frente com isso, porque a minha meta era a Nascar. Não quero pular de um lado para o outro. Eu me convenci rapidamente que queria a Nascar. Tenho uma grande possibilidade de fazer uma coisa diferente, ser o primeiro brasileiro a ganhar uma corrida e ganhar um campeonato, e abrir portas para os brasileiros nos Estados Unidos. O Brasil gera muitos bons pilotos para a Fórmula 1, mas a economia brasileira... Para ir para a Europa e chegar à F-1, você precisa de uma situação financeira boa. Você tem de ter ao seu lado as pessoas certas, um investidor, ter a sorte que tive de ter o meu pai do lado, e nem todos os pilotos têm tudo isso. O Brasil tem pilotos muito bons, que têm condições de fazer História e ganhar campeonatos como na Fórmula 1. Quero quebrar essa barreira, quebrar esse gelo. Ninguém se interessa muito pela Nascar porque ainda não teve nenhum brasileiro lá. Muita gente tem uma visão errada da Nascar. Não é na Europa, mas se você vir a vida deles, a paixão pelo automobilismo, muita gente se encantaria.
LNET!: Diante disso, em que condições você voltaria para a Fórmula 1 ou, passado tanto tempo, você realmente não tem desejo nenhum de voltar?
NP: Não quero. A Fórmula 1 foi ótima, é uma categoria maravilhosa, acompanho até hoje, torço para os brasileiros e sempre vou torcer. Mas entrei pelo lado errado, pela porta errada, me envolvi com as pessoas não certas. Passou o momento. Não vou dizer que cansei, não sei a palavra certa... Mas apareceu outra oportunidade para mim que foi muito boa e gostei muito, e é uma meta que quero atingir. Tive a minha chance e pronto. As coisas não deram certo por vários motivos e bola para a frente. Coloquei outra meta na minha cabeça, outro sonho, e quero começar a correr atrás. Estou me sentindo um menino de 15 anos de novo. Vejo aqueles caras como Kurt Busch, Jeff Gordon, Jimmie Johnson e quero chegar com a bandeira do Brasil e ver daqui a 15 anos cinco brasileiros no grid e vários sul-americanos.
LNET!: Por outro lado, a Indy é uma categoria importante e em 2012 terá um novo carro. Você demonstrou restrições em relação a correr com monoposto nos circuitos ovais, mas o fato de o ambiente da Indy ser mais ameno e esse desafio técnico poderiam te fazer mudar de ideia e levar para lá?
NP: Sobre a Indy, não é nem pelo acidente do meu pai, mas os ovais são rápidos demais. Não sei... Se você olhar, mais da metade dos pilotos do grid já se machucou. Adoro pista mista e o Gil de Ferran me ligou no começo do ano perguntando se eu queria fazer alguma coisa e disse que faria numa boa alguma coisa em pista mista. Mas os ovais eu não estou afim. Talvez se eu tivesse feito toda a carreira nos Estados Unidos, se eu tivesse corrido na Indy Lights, poderia arriscar. Mas agora, entrando no meio do caminho, não sei... Fora que a categoria não está muito forte, não vejo muito futuro. Vejo brasileiros pagando para andar. Eu seria mais um brasileiro lá. Quero fazer a diferença por ser um piloto bom. Se eu vencer a Indy, beleza, seria mais um brasileiro ganhando. Quero mostrar que sou rápido de monoposto, carro fechado, kart, qualquer coisa. E quero realmente mostrar que sou bom como fiz na Europa. É claro que o meu pai ajudou financeiramente, mas se não fosse eu pilotando e ganhando as corridas, não teria chegado na Fórmula 1. Quero fazer o mesmo na Nascar, vencer a Truck até chegar na Cup e ganhar lá.
LNET!: E como tem sido a vida fora da pista nos Estados Unidos? O que você está achando da experiência de viver no país?
NP: Não posso reclamar nem um pouco. Tem prós e contras. É um país enorme, tem de tudo, vários lugares legais. Quando cheguei a Charlotte no ano passado foi um choque, estava frio e lembrei de Oxford (Inglaterra). Eu morava com meus pais, tinha toda a mordomia do mundo e cheguei a Oxford, onde não tinha nada e era cheio de ingleses. Eu tinha 17 anos, não tinha carro, morava numa casa pequena com os mecânicos. Depois, quando conheci as pessoas e vi que tinha muita coisa a fazer, mesmo não sendo Nova York ou Miami, Charlotte é bem legal. Morei em Miami, que é muito legal, o clima é maravilhoso, é um lugar central, mais perto do Brasil do que a Europa. A Europa tem mais cultura e em algumas horas de carro você vê outras coisas, paisagens e arquiteturas diferentes. Mas nos Estados Unidos, Nova York é diferente de Miami e Las Vegas é um parque de diversões enorme. Também tem lugares diferentes lá, o que é legal. Estou curtindo muito, talvez eu tivesse uma ideia errada antes. Não conhecia antes os Estados Unidos, era de passar três, quatro dias. Minha família teve mais ligação com a Europa. Morando em Charlotte e Miami vou ficar feliz.
LNET!: Falei com você em Curitiba durante o fim de semana em que você correu na Copa Montana e você estava muito leve, realmente gostando de correr em casa. Depois disso, você pensou seriamente em voltar em definitivo para o Brasil?
NP: Estou no início de uma carreira enorme aqui nos Estados Unidos, nem pensei nisso ainda. Eu adoraria correr de Stock Car, mas tem muita coisa que quero conquistar antes disso. O Brasil está um momento muito bom na Stock Car, com um trabalho excelente, mídia, pilotos. Tomara que continue assim, pois o Brasil tem altos e baixos. Quando disse que me senti em casa em Curitiba foi porque revi amigos e mecânicos, comi arroz e feijão, o que é difícil de conseguir (risos). Estava todo mundo comendo macarrão e eu comi arroz, feijão, ovo e carne e antes da classificação quase não consegui fechar o macacão (risos). Eu sabia o que fazer no carro, antes eu havia corrido alguns fins de semana nos Estados Unidos e estava perdido, não sabia o que fazer e quando fui para o Brasil era tudo o que eu havia aprendido. Eu me senti realmente em casa, é normal, vai demorar um pouco até eu aprender o caminho exato e as coordenadas no fim de semana e me sentir 100%, fazendo tudo com naturalidade. Quanto a ter uma equipe, adoraria. Uma das coisas que os pilotos nos Estados Unidos têm e eu morri de vontade era ter uma oficina grande, onde eles fazem seus próprios "brinquedos". Adoraria ter uma oficina gigante no Brasil, onde eu pudesse colocar os carros de Fórmula 1 do meu pai, os carros que eu andei, montar com investidores uma equipe de kart para ajudar os pilotos novos, fazer mais ou menos o que o Felipe (Massa) conseguiu fazer com a categoria de fórmula dele. Se eu pudesse patrocinar alguns pilotos agora, faria na hora, mas agora não é o momento certo. Mas no dia em que eu puder, vou ajudar vários pilotos.
LNET!: Você já conseguiu formar um ciclo de amizades nos Estados Unidos? E você ainda tem algum contato com os pilotos que foram seus colegas na pista na Europa?
NP: Ah, continuo. Não sou uma pessoa de ter muitos amigos. Ou eu tenho um amigo do peito, alguém que eu possa dar o braço e colocar a mão no fogo, ou não tenho. Sou oito ou oitenta. Não sei se é bom ou ruim, mas é meu jeito. Meus amigos na Europa são muito próximos e sempre falo, outros a gente perde o contato mas fala no Facebook. Meus amigos mesmo já foram me visitar, viram corridas minhas. Nos Estados Unidos, está sendo ótimo. É coisa de nem acreditar direito. É como se eu estivesse no paddock da Fórmula 3 e um cara da Fórmula 1 me procurasse no caminhão. Foi o que aconteceu comigo, o Kurt Busch (campeão da divisão principal da Nascar em 2004) foi no meu caminhão, quando eu estava vendo TV na sala, e eu não o conhecia direito. Ele disse que era o Kurt Busch e demorou uns segundos para eu perceber. O Kurt disse que tínhamos um amigo em comum e que se eu precisasse de alguma coisa poderia ir à oficina dele. O cara é muito bacana, simples. Você não vai acreditar. São caras que ganham dez milhões de dólares. Ele estava de férias na Itália na mesma época em que eu estava. E esse amigo disse que o Kurt estava em Veneza. Ligamos para ele e deixamos recado, mas não deu certo. Depois, nos encontramos e ele disse que o telefone dele não funcionava na Europa. O cara ganha 10 milhões de dólares e o telefone dele não funciona fora do país! Uma vez, ele chegou na pista de Fusca de mil novecentos e bolinha, você acredita? E foi o Fusca feito na casa dele! Os caras entendem de mecânica e botam a mão na massa, coisa da época do meu pai e do Emerson (Fittipaldi).
LNET!: Faltou um pouco disso na Fórmula 1? No ano passado, via-se que o relacionamento entre os pilotos brasileiros era muito cordial, mas você ainda conversa com Massa, Barrichello?
NP: Não muito... É como eu falei, minhas amizades são oito ou oitenta. Quem não era muito amigo, automaticamente acabou se afastando um pouco. Com quem eu tinha amizade muito próxima continuou. Encontrava o Rubinho e o Felipe em todo fim de semana, mas era aquela amizade de brasileiro na Fórmula 1. Não era a pura amizade, em que você tem a ver com o cara, tem a mesma opinião. A maioria dos casos na F-1 é isso. São poucos com amizade forte, talvez o Kubica com o Alonso. O Rubinho é um caso diferente porque está há 20 anos na F-1 e conhece todo mundo.
LNET!: Como você analisou as ordens de equipe da Ferrari na Alemanha? A postura da equipe (por aceitar a pressão de Alonso), do próprio Alonso (por exigir a troca de posição) e Massa (por ter assumido a responsabilidade) foi uma surpresa para você ou algo esperado?
NP: Olha... Em todas as equipes é um pouco normal, quando o piloto de trás está mais rápido, 95% das equipes deixam claro que um não pode atrapalhar o outro. Esse caso era um pouco diferente porque era primeiro e segundo e não terceiro e quarto. Mas talvez a equipe tenha tido medo de o (Sebastian) Vettel chegar neles e dar trabalho. É uma condição complicada. Talvez se o Felipe estivesse desde o começo do ano rápido, brigando de igual para igual, não teria acontecido isso. Mas o Alonso tem mostrado que está mais rápido não sei por que motivo, se ele é mesmo mais rápido ou se deu muito bem ao carro, se o Felipe está se recuperando da batida do ano passado, mas ele está com uma vantagem muito grande. O Alonso está numa ótima fase, chamou o time para desenvolver o carro rapidamente, a Ferrari quase virou o jogo. Então, a equipe percebeu que eles tinham uma chance se ajudassem mais um piloto. E é preciso seguir ordens, não tem jeito.
LNET!: Mas e a postura dos pilotos no episódio?
NP: Bom... No caso do Alonso, ele é um piloto batalhador e vai tentar sempre de tudo para ganhar. Naquele caso, ele estava forçando para se dar bem e vencer. Ele conseguiu o que queria e qualquer piloto que está mais rápido do que o cara da frente vai reclamar. Não foi a primeira vez que isso aconteceu.
LNET!: O Schumacher fez isso no GP do Japão.
NP: Ele fez isso mesmo?
LNET!: Fez sim.
NP: Na verdade, quando vi as duas Red Bull na frente falei "pronto, acabou a corrida, boa noite" (risos).
LNET!: E o resultado do julgamento, rolou polticagem?
NP: Não sei, você nunca sabe. Eles têm as pessoas certas para tomar as decisões. Enfim... A gente não sabe exatamente o que acontece lá dentro. Não acontece só aquilo (o julgamento). As decisões vêm por vários motivos. Nem pensei nisso, mas sei lá... Não tenho uma opinião.
LNET!: Você já disse várias vezes que se arrependeu do episódio de Cingapura. Passados mais de dois anos, você ainda pensa naquilo ou já colocou definitivamente uma pedra em cima?
NP: Passou. Aprendi, errei... Admito que errei. Não era o exemplo que eu queria passar para o público brasileiro, a gente quer passar um piloto vencendo e por isso também eu fui para os Estados Unidos, para dar ao público brasileiro um motivo para torcer na maior categoria do automobilismo em termos de números. É isso que eu quero recompensar. Não foi um bom exemplo para as crianças e quero muitas vitórias, vou me dedicar o dobro na Nascar para reconquistar todo mundo que eu decepcionei.
LNET!: Por que você renovou com a Renault de Briatore para 2009 mesmo após aquela situação e das diferenças de carro em relação ao Alonso?
NP: Os problemas de não ter o mesmo carro foram no segundo ano. Se eu soubesse que teria sido assim, é lógico que eu não teria assinado. Eu tinha duas opções para 2009: a Toro Rosso e eles. E assinei com eles porque em 2008 consegui um pódio, marquei pontos. Foi um ano difícil, eles davam mais suporte para o Alonso, mas consegui muitas coisas, mas consegui mais do que eu esperava. O pódio foi sorte, tudo bem, mas eu segurei o Felipe por mais de vinte voltas. O problema foi realmente o segundo ano. Foi o ano em que o carro teve a mudança das asas e eles desenvolveram o carro de uma forma muito veloz e fiquei para trás. Em 2008 não foi nem perto do que foi o segundo ano.
LNET!: Como você recebeu a notícia da revogação do banimento do Flavio Briatore da Fórmula 1? Se um dia você encontrasse casualmente com ele em algum evento, diria algo?
NP: A gente nunca se falou. Ele nunca foi uma pessoa de dar bom dia mesmo quando eu estava na equipe. Então, não teria motivo agora. Sobre o caso de tirarem a pena dele, tudo bem. Podem fazer o que quiser. Se ele conseguir alguma coisa lá, bom para ele. Todo mundo sabe o que aconteceu, que ele fez uma coisa pesada ao forçar o piloto dele a fazer aquilo. Se ele conseguir entrar ou não na Fórmula 1, é problema dele. Estou em outra onda agora, em outro mundo, onde vou conquistar coisas muito maiores.
LNET!: Qual a mensagem que você deixa para a torcida brasileira?
NP: Com certeza, é esse o objetivo. Tudo o que aconteceu me decepcionou, vou reconquistar o país inteiro. Vou conquistar a Nascar, quero abrir um caminho novo para os brasileiros. É uma categoria mais acessível do que a Fórmula 1, mas não menos competitiva e que oferece mais oportunidades. Peço um pouco de paciência, mas logo logo vou conseguir uma vitória.
Dia 27/10/2015 22:25