Marcello Neves
01/07/2018
16:37
Rio de Janeiro (RJ) 

É normal fazer uma caça às bruxas toda vez que uma seleção tradicional é eliminada de uma Copa do Mundo. No caso da Espanha, essa caça não se limita a apenas uma pessoa ou um momento específico durante o torneio. Da demissão de Lopetegui nas vésperas do Mundial até o pênalti defendido por Akinfeev, uma série de fatores resultou na eliminação para a Rússia, neste domingo, em Moscou. Uma eliminação que parecia questão de tempo, tendo em vista o baixo nível das exibições dentro de campo. 

O planejamento da seleção espanhola foi quebrado após a saída de Lopetegui. O acerto do treinador com o Real Madrid sem avisar para a Federação Espanhola acabou gerando uma crise interna que terminou com sua demissão. Espirrou em Fernando Hierro, chamado após treinar apenas um clube - e tendo rendimento ruim - como treinador. Improvisado à beira de campo, não soube melhorar uma equipe que viu o título mundial se afastar a cada partida. 

O LANCE! lista a série de motivos que levaram a Espanha a ser eliminada nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2018. Muito além dos méritos da seleção russa, fatores como brigas políticas, opção por jogadores de um mesmo clube e um futebol que em nada lembrava o de seu antecessor fizeram a seleção espanhola se despedir como mais uma favorita que decepcionou - caso parecido com os de Alemanha e Argentina. 

Real Madrid, Florentino Pérez e Lopetegui
De acordo com os jornais Marca e AS, o acerto do treinador com o Real Madrid já era de conhecimento dos atletas madrilenhos que estão na Rússia. Caso de Sergio Ramos, capitão da equipe, que teria sido o responsável pela ligação entre o presidente Florentino Pérez e Julen Lopetegui. Os não-madrilenhos do elenco foram pegos de surpresa quando o anúncio foi feito, causando desconforto dentro da delegação.

Segundo o presidente da Federação Espanhola, a entidade ficou sabendo da negociação cinco minutos antes do anúncio oficial publicado pelo Real Madrid em seu site oficial, atitude considerada desrespeitosa pela RFEF. Não houve clima para o ex-treinador continuar no comando e sua demissão foi anunciada às vésperas do Mundial, faltando 48h para a Espanha estrear. 

Atitude explosiva de Luis Rubiales
Apesar do descontentamento de alguns atletas do elenco com a decisão de Lopetegui, os líderes de Real Madrid e Barcelona - e também da seleção, Sergio Ramos, Piqué e Iniesta - reuniram o grupo e se colocado à frente para defender o treinador. Os jogadores conversaram com o presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales, para permanência de Lopetegui. 

Não foi o suficiente para Luis Rubiales, que permaneceu irredutível sobre a sua decisão de demitir Lopetegui. A Espanha colocou fim a um ciclo que estava sendo montado desde 2010, quando o antigo treinador assumiu a categoria sub-19 da seleção. Boa parte do elenco que está na Rússia foi treinada, formada e revelada pelas mãos do treinador.

A escolha pela incógnita Fernando Hierro 
Sem Lopetegui, o ex-jogador e dirigente Fernando Hierro foi selecionado para liderar a equipe durante a Copa do Mundo. Conhecido como "El Jefe", Hierro estava trabalhando como diretor da seleção espanhola quando foi convidado para assumir o cargo. O planejamento foi manter a mesma linha de trabalho de seu antecessor, sem grandes mudanças ou rupturas. E, principalmente, não perder a confiança de um elenco que pediu pela permanência de Lopetegui.

O grande problema é que uma Copa do Mundo não é vencida apenas com gestão de grupo. A carreira de Hierro foi vitoriosa como jogador, mas praticamente inexistente como treinador. Seu único trabalho foi pelo Real Oviedo, equipe da segunda divisão espanhola, que terminou na oitava colocação e não deixou saudade. O lado positivo foi ter trabalhado como auxiliar-técnico de Carlo Ancelloti na temporada 2014-2015.

Coletivo irreconhecível e escolhas questionáveis
As atuações da Espanha na Copa do Mundo deixaram a desejar. Após uma exibição positiva contra Portugal, foi caindo de rendimento no caminho contra Irã, Marrocos e Rússia. A Espanha era um time que tinha a posse de bola, mas não conseguia ser efetivo com ela. Chegou a trocar mais de 1.000 passes nas oitavas de final, mas perdeu nos pênaltis.

Dentro de campo, as escolhas de Hierro sempre caíam para o lado de jogadores do Real Madrid, o que geraram críticas por parte da imprensa espanhola. Na lateral, Odriozola foi esquecido para Nacho ser improvisado. No meio, Asensio e Lucas Vázquez ganharam espaço enquanto Thiago e Saúl pouco foram utilizados. O treinador não conseguiu transformar bons jogadores em uma equipe competitiva. 

David De Gea
É inegável que David De Gea é um dos melhores goleiro do mundo. Suas atuações pelo Manchester United são mais do que o suficientes para ter certeza sobre o isso. O problema é que em sua primeira Copa do Mundo como titular, o goleiro decepcionou: foram 10 gols em 11 chutes à meta, numero difícil de aceitar para alguém da sua qualidade.

Outro ponto que pesou contra De Gea foi o fato de ter pulado para o mesmo canto nas quatro cobranças de pênalti da Rússia nas oitavas. Em todas ele foi para a esquerda, enquanto três chutes da Rússia foram para a esquerda. Na unica que foi em sua direção, conseguiu tocar na bola, mas não impediu a conversão.

Sergio Ramos e Gerard Piqué
Líderes e capitães do elenco, mas um desastre dentro de campo. A Espanha foi para a fase de mata-mata com a quinta defesa mais vazada do torneio, podendo ter sofrido mais tentos se enfrentasse adversários de maior qualidade. O nível de atuação dos defensores foi muito abaixo do esperado, assim como a de todo o sistema defensivo.

Ramos e Piqué também se destacam pelos erros que cometeram no torneio. Contra Marrocos, o zagueiro do Real Madrid perdeu a bola na intermediaria e deixou o atacante rival correr livre para marcar. Já o zagueiro do Barcelona cometeu um pênalti infantil que deixou a chance da Rússia empatar - quando a Espanha estava em vantagem na partida.