Marcio Porto
16/06/2018
05:48
Enviado especial a Rostov (RUS)

Caçula da Seleção Brasileira com 21 anos, Gabriel Jesus chega à Copa do Mundo com a disposição de garoto que quer fazer acontecer. Sempre foi assim na vida do paulistano do Jardim Peri, bairro humildade da zona norte da capital de São Paulo. Foi assim, com essa raça e faro de gol apurados, que o centroavante do Manchester City (ING) conquistou Tite e virou um dos 23 "Homens de Gelo" sendo o maior artilheiro da Seleção desde que o treinador assumiu, à frente de Neymar. Mas poderia ter sido bem diferente caso o Palmeiras, seu clube formador, tivesse dado ouvidos um excêntrico treinador da base. Talvez teria até impedido o sonho do menino Jesus de jogar o Mundial, mas ainda bem que isso não aconteceu e agora ele é o 14º personagem da série do LANCE! sobre o grupo que tentará o hexa na Rússia.

SAI PRA LÁ, CANADÁ!


Gabriel Jesus sempre foi considerado um fenômeno na base, uma joia a ser lapidada. Tinha uma disposição fora do comum. Era preciso apenas domar esse ímpeto. Mas houve quem não gostasse e ameaçasse interromper o sonho do menino. Foi no Palmeiras, clube que o formou. A explicação passa por um canadense que se aventurou na base brasileira.

Marc dos Santos nasceu em Montreal, no Canadá, mas cresceu e se formou para o futebol em Portugal. Em 2012, ele desembarcou no Brasil para comandar o Primeira Camisa na Copa São Paulo de Futebol Júnior. Vinha referendado por um trabalho considerado moderno, feito para desenvolver jovens. No mesmo ano, o Palmeiras o contratou para comandar o time sub-15. Aí, encontrou Gabriel Jesus. E não gostou do que viu no garoto. A ordem para os dirigentes: dispensa o atacante. 

- Como ele chega na segunda metade do ano, ele não pode ser inscrito no Campeonato Paulista, e fica dois meses treinando no sub-15 com o Marc. Ele só fazia jogos reduzidos e ia mandar o Gabriel embora, porque ele não conseguia produzir bem. Porque a característica do Jesus sempre foi a velocidade e muita vontade. Ele foi aprovado por causa dessa velocidade e dessa vontade de trabalhar, de querer crescer. Em campo reduzido ele não encaixava - conta Bruno Petri, treinador que mais comandou Jesus na base do Palmeiras.

O assunto foi tratado entre os dirigentes, mas o Palmeiras acabou recusando a sugestão do canadense e o dispensou pouco tempo depois. Marc ainda treinou o Desportivo Brasil-SP e depois saiu do país para treinar o Ottawa Fury, clube canadense que disputa a United Soccer League, uma espécie de segunda divisão do futebol profissional dos Estados Unidos-Canadá, atrás da Major League Soccer. Marc, que está no Canadá, quis frear Gabriel Jesus, que está na Rússia para disputar a Copa. 


O CHOQUE QUE DESESTABILIZOU

O canadense foi embora, mas o estilo de jogo de Jesus precisou ser trabalhado. Por conta de sua velocidade e arranque, ficava muitas vezes impedido, o que fez Bruno Petri e os outros profissionais da base do Palmeiras prepararem exercícios de posicionamento, para trabalhar a visão periférica e dosar as investidas na cara do gol.

- Ele tinha tanta velocidade que perdia gol embaixo da trave - lembra Petri.

Mas o trabalho deu certo. Em 2014, Gabriel quebrou o recorde da artilharia do Campeonato Paulista sub-17 com 37 gols em 22 jogos. Um fenômeno que despertou interesse de outros clubes, inclusive do rival São Paulo. Situação que tirou a tranquilidade e mexeu com o atacante. Na época, a negociação com o Tricolor foi mais um episódio da rusga entre os presidentes desafetos Paulo Nobre, do Palmeiras, e Carlos Miguel Aidar, do São Paulo.

- O Gabriel parou de ter aquela vontade. A cabeça ficou confusa naquela época, tivemos que trabalhar com psicóloga. Tudo sempre foi muito precoce com ele. Primeiro campeonato dele foi juvenil, já com 16, 17 anos, primeiro internacional foi assim. Primeiro clássico também - afirma Bruno Petri, que também trabalhou na base do São Paulo e já foi personagem da série contando sua história com Casemiro.

Há a preocupação com o ímpeto de Jesus também na comissão técnica da Seleção. Em alguns momentos no Palmeiras, o jogador reagiu mal com a arbitragem e demonstrou temperamento explosivo em situações de pressão. Na Seleção, está sempre mais tranquilo. Tite trabalha para domar a fera.

O PRESENTE PARA O MESTRE. PARA TITE TAMBÉM?

Como já foi mostrado no episódio de Casemiro, Bruno Petri saiu magoado da base do São Paulo entre 2009 e 2010. E coube a Gabriel Jesus dar uma satisfação ao técnico sobre esse acontecido. Na primeira vez que Bruno voltou a Cotia, sede da base do Tricolor paulista, o atacante do Palmeiras estava voando na semifinal daquele histórico Paulista de 2014. E tratou de presentear o mestre.

- Trabalhei dez anos no São Paulo, e aí volto naquela semifinal, ele titular, e esse jogo para mim era muito importante, questão de honra. Precisava de uma boa vitória  e ele fez dois gols, vencemos por 2 a 1. Ele veio me abraçar, agradecer pelo que fiz por ele, disse que estava honrando minha história, me levou às lágrimas - recorda o comandante que hoje trabalha no estafe de Casemiro.

Depois dessa guinada, tudo seguiu muito rápido na vida de Jesus. Profissional do Palmeiras, título da Copa do Brasil em 2015, Brasileiro 2016, Manchester City, Seleção Brasileira com Tite. Foi o treinador quem o convocou pela primeira vez para vestir a Amarelinha para o duelo contra o Equador pelas Eliminatórias da Copa em setembro de 2016 em Quito.

Coletiva - Gabriel Jesus
Gabriel Jesus e Tite na Seleção (Foto: Pedro Martins / MoWA Press)


A estreia foi especial porque era também o primeiro jogo do treinador no comando da Seleção. Tite e Jesus debutaram no mesmo dia e o centroavante tratou de presentear o técnico. Ele marcou dois gols e sofreu um pênalti, garantindo a primeira de muitas vitórias do comandante e um início de caminhada acima do esperado. Mais: é o principal artilheiro da era Tite, com dez gols, um a mais do que Neymar. Agora, Jesus chega à Copa como titular e sem um canadense pelo caminho. Vai ter presente de novo?  O Brasil espera por isso!