Bernardo Cruz e David Nascimento
06/12/2016
06:00
Rio de Janeiro (RJ)

Os 58,6% de aproveitamento de Jorginho no Vasco depois de 87 jogos em quase 16 meses no clube foram considerados importantes pelo treinador para a carreira. Uma semana após deixar o clube para dar lugar a Cristovão Borges no cargo de técnico, Jorginho recebeu na manhã de segunda-feira a reportagem do LANCE! em sua casa na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e contou os bastidores durante a sua passagem em São Januário, que foi de um período invicto de 34 jogos a chegar na última rodada da Série B dependendo de resultados para retornar à elite.

Acompanhe a seguir a íntegra da exclusiva:

Como foram os primeiros dias depois da saída do Vasco?
Os dois primeiros dias depois que deixou o Vasco foram diferentes, mas muito bons por conta da tranquilidade maior. Já no terceiro dia todos nós vivemos muita tristeza por conta do acidente com o avião da Chapecoense. O canto da minha sala foi apenas assistindo as notícias e chorando, lembrando de amigos. Muitas vezes não entendo, não compreendo, mas confio que Deus tenha o poder de todas as coisas. E peço a Deus que console os familiares. De lá para cá não pensei em mais nada, tenho um genro que é piloto, sempre voava com o Vasco e pelo que conhecemos, o avião não tinha autonomia. Sempre tem de ir com segurança. O meu genro falou, “Jorge, se você tem 4h30 de autonomia, o voo tem de ser no máximo 3h”. Muito triste. Enfim, depois da adrenalina toda na temporada, olhamos para trás e trouxemos novamente honra para o Vasco. Foi o que o presidente Eurico Miranda me pediu no Brasileiro ano passado quando cheguei, “meu filho, só não quero ser motivo de vergonha, chacota”. Fomos campeões cariocas invictos e fizemos uma boa Série B.

Já que entrou no assunto da Chapecoense, chegou a trabalhar com alguém que estava no avião?
Fui treinador do Cleber Santana no Flamengo, foi a primeira pessoa que me veio na mente. Veio também o Guilherme Marques, jornalista da TV Globo, que eu tinha amizade. Me ligaram de manhã cedo chorando para avisar que o avião da Chapecoense tinha caído. No sábado, depois da coletiva no jogo contra o Ceará que o Vasco garantiu o acesso, dei um abraço nele. Perguntei se estava batendo uma peladinha, mas ele disse que estava trabalhando muito. O Kempes era um jogador que queria muito no Vasco, cheguei a pedir a contratação dele, mas não foi possível.

Qual foi o seu maior acerto nesse período? E sobre o equívoco?
O maior acerto que tive no Vasco foi que contei na comissão técnica com uma pessoa maravilhosa que é o Zinho. Além de grande amigo, é um profissional muito capaz. Foi gerente de futebol por anos e para minha surpresa também foi muito bem atuando dentro do campo. O grande problema do Vasco no ano passado é que os jogadores não acreditavam e mostramos para eles que podíamos. Montamos um sistema bem definido no 4-4-2 no losango, a equipe se encaixou muito bem nessa forma e os jogadores deram uma resposta muito grande. O ambiente do Vasco, desde o porteiro, mudou. A construção do trabalho veio e passou por todos. Não inventamos. Sempre falei que tínhamos limitações, trouxemos jogadores do sub-20, na realidade sub-17, Mateus Pet, Evander, Andrey... Apenas o Caio Monteiro era o mais “velho”. O nosso mérito foi levar um grupo limitado a fazer com que todo mundo acreditasse que levaríamos com os pés nas costas. Tínhamos somente um jogador de Série B, que era o Yago Pikachu. Os demais não estavam acostumados com a B. Pegamos um grupo que era motivo de piada a passar a ter honra em campo. Quanto ao erro, é difícil, claro que erramos em muitas coisas... Sempre conversava com o Zinho e o Cleber, saiu com a gente, e discutíamos essa questão. Usamos tudo aquilo que era possível. O grande problema foi que criamos uma expectativa muito elevada. Para o torcedor e internamente. Tentamos de várias formas, alguns de sub-20, Douglas deu resposta e fico muito feliz que foi bem. Certeza que ele vai para a Europa.

Qual foi o ponto fora da curva para a queda de rendimento do Vasco na metade da temporada?
Sempre falei do Jorge Henrique que era o equilíbrio do Vasco, principalmente do lado esquerdo. Facilitava demais a vida de Andrezinho, Julio Cesar e atrás do Rodrigo. Todos acima de 30 anos. Quando o Jorge Henrique caiu de produção, por incrível que pareça, todo o Vasco caiu de produção. No segundo turno ele se machucou, ficou um tempo assim, a ponto de eu pegar o Pikachu e trazer para o lado esquerdo para pegar esse equilíbrio.

O que falar do Thalles?
Thalles chegou em um momento que falei com o Zinho a necessidade de colocar no ventilador o caso de peso dele no ano passado. Para que todos saberem a necessidade dele se concentrar. Ele fazia as besteiras e víamos que as coisas não estavam andando. Todos sabíamos que ele estava acima do peso e peguei pesado. Fui treinador, mas fui também um amigo e um pai para ele. Chamei ele e disse “rapaz, você tem condição de mudar a história de sua família’. Eu quis vencer. Aos 17 anos eu fumava e parei de fumar. Bebia com os amigos, mas parei por querer ser jogador de futebol. Thalles quase se internou no Vasco da Gama. Ficou direto, realmente querendo lutar contra essa questão do peso. Ele só foi decisivo para o acesso da equipe porque ele quis. Deixamos para o Vasco um ativo muito grande, que era um caso perdido, ou praticamente perdido.

As críticas o abalaram?
A torcida sempre questionava, a imprensa também, “tem que mudar, colocar os jogadores mais jovens”. Eu também queria mudar. Queria rejuvenescer a nossa equipe. Mas não pode ser de uma hora para outra se os jogadores não te dão a resposta. Se todos dessem a resposta que o Douglas deu, ficaria fácil mesclar a experiência com a juventude. O Mateus Pet, por exemplo, precisa ser maturado. Contratem jogadores mais jovens, 23, 22... Desde o início do Brasileiro vi que o Keno era fera, não precisou ele deslanchar no final agora. Desde os primeiros jogos, conversei com o Grafite para trazer para o Vasco, mas as coisas não aconteceram. Não tínhamos grana, o presidente falava.

O período que o Vasco ficou invicto por 34 jogos prejudicou? Pode ter sido considerado como uma “soberba” da equipe?
Não foi uma soberba, mas acho que foi uma motivação. Levou a gente para um nível de concentração a cada jogo de marcar o nosso nome na história do Vasco com a invencibilidade. No momento que a série foi quebrada, não sei, caiu um pouco dessa concentração e motivação. Aí começamos a focar naquilo que estávamos trabalhando, que era o Campeonato Brasileiro e o acesso. Não é fácil disputar a Série B. Você ir em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, não é mole. Eu me preparo para o pior esperando o melhor. Nem sempre as coisas irão dar certo para a gente.

O Vasco ter chegado na última rodada dependendo de resultado martela a sua cabeça?
Vasco para mim hoje é passado. Agora quero pensar daqui para frente. Foi muito bom, intenso demais, vivi momentos de muitas alegrias e pressão. Mas não sou do cara que fica se martirizando. Claro que você tira experiências das coisas vividas. Eu me via muito protegido pelo presidente, não por outras pessoas, isso me dava uma segurança e tranquilidade, tratando olho no olho com ele. Não tenha dúvida que a questão psicológica não é fácil. Como treinador, o jogo contra o Ceará pelo acesso foi o de maior pressão na minha carreira. Eu só permaneci no Vasco por duas razões. Eu sabia que meu grupo estava comigo. Ter jogador insatisfeito é normal por ficar fora que tem de ter habilidade e mostrar atenção a quem está fora. Mas as vozes que surgiram queriam dizer que o grupo estava rachado, mas não.

Como lidou com as vozes que criticavam o seu trabalho?
Eurico Miranda sempre falou para mim “quem manda aqui sou eu”. Mas não tenha dúvida que muita gente falando acaba atrapalhando o trabalho. Comigo e com o grupo o presidente cumpriu tudo que prometeu. Tem a maneira dele que todos conhecem, olho no olho. Temos de estar atentos a falar com ele por conhecer. Deixa um legado para mim de alguém que realmente cumpriu todas as palavras. Nós tivemos alguns papos, principalmente quando tive proposta do Cruzeiro, Eu iria deixar o Vasco depois do jogo contra o Atlético-GO (vitória por 2 a 0 em São Januário), e continuei por conta dele além dos jogadores que eu tinha compromisso mútuo. Chegamos a ensaiar um contrato, mas ficamos como carteira assinada. Não poderia por problemas que surgiram lá e me incomodavam deixar devido a eles. Cheguei a ter uma reunião, minha esposa, Zinho... Eu queria ir embora mais cedo. Mas depois o Zinho falando decidimos ficar até o fim por esses compromissos.

Você ficou no Vasco por quase 16 meses e o futebol brasileiro tem a cultura de treinador não ficar muito tempo em um clube. Como encara isso para o futuro?
É fundamental que isso se repita para que os treinadores possam desenvolver bons trabalhos. Existem coisas na vida que passam para aprendermos. Não podemos achar que vamos ganhar antecipadamente, todos os jogadores ficarão bem, o Nenê será o Nenê o campeonato todo, o Andrezinho que era o ponto de equilíbrio em termos técnico... Temos de contar com outras possibilidades, mas não tínhamos peças de reposição. Olhava jogos de outras equipes e o banco dos caras, é difícil... Não é fácil. Torcedores na rua do Botafogo, Flamengo, Fluminense me paravam para falar que torciam por mim. Quando olho para trás falo que foi maravilhoso. Só não queria que o torcedor do Vasco chorasse, não merecem esse tipo de situação.

O Vasco foi um trabalho muito bom em clube grande. Acha que isso pode ser virada de chave na carreira de treinador no Brasil?
Fato isso. Primeiro, todo treinador precisa ganhar, ter título. E aí tivemos o Carioca de forma invicta. Além de um trabalho de longo prazo, que eu tinha conseguido no Figueirense, mas era um clube menor no cenário brasileiro. No Vasco, não. Nunca perdi o meu controle. Trabalhamos com as nossas habilidades. Com todas as dificuldades que passamos, lidamos com tudo. Saí do Vasco pela porta da frente e se eu voltar, tenho as portas abertas se esse dia vier a chegar. O Vasco foi uma virada para minha carreira. Hoje me sinto preparado para assumir qualquer time do Brasil.

O que achou do Cristovão Borges para ser seu sucessor como treinador do Vasco? Quais são os pontos vitais para o time engrenar como protagonista?
Seria até antiético falar agora, mas Cristovão é uma pessoa que respeito e gosto muito. Ele vai ter um grande trabalho. Os jogadores mais jovens ele terá mais preparação. Um Evander mais preparado, por exemplo. Cheguei em 2015 a ter 44 jogadores no plantel. Em alguns momentos não precisava ter nomes do sub-20. Mas deixei para que amadurecessem. Em termos de contratação, o Vasco vai precisar mesmo. Ter jogadores com uma idade média razoável para que a equipe vá bem. Alguns jogadores acima de 30 anos não entendiam isso. Não é fácil manter o nível com a idade alta.

Com você, o Vasco ganhou vários clássicos, principalmente contra o Flamengo. Como foi a relação sua com os torcedores rivais do Rio de Janeiro?
Já existe um respeito mútuo entre os clubes do Rio de Janeiro. Fico feliz no meu momento no Vasco eu tenha conseguido ganhar de Flamengo, Fluminense e Botafogo. Isso é importante, marca a sua carreira. É um legado importante, mas mais para o torcedor tirar onda. Mas respeito muito, um dia estou aqui e outro dia estou ali. Deixo no Vasco um carinho muito grande com os profissionais, desde os mais simples. Sem desmerecer ninguém, abracei o porteiro, o faxineiro. É muito legal sair com um sorriso, outros com lágrimas por você estar saindo, mas de gratidão. O WhatsApp que recebo... O trabalho foi muito bem feito. Profissionais que não foram nem escolhidos por mim mas foram abraçados. Saio muito feliz.

Algum jogo te marcou?
A final do Carioca contra o Botafogo foi o mais importante. Coroou um trabalho que vinha sendo feito desde o ano passado. A forma como saiu o gol, de quem foi, Rafael Vaz (hoje no Flamengo) que tenho um respeito muito grande, a esposa dele acabou ficando amiga da minha esposa. Ela fez parte de um momento importante da minha vida que foi o aniversário de 15 anos da minha filha. E isso mostra que sempre valorizamos todos no Vasco, não só os titulares, mas também os reservas. Ainda fez um gol em casa contra o Flamengo, outro como atacante diante do CRB.

Teve alguma história engraçada de bastidor enquanto esteve no Vasco? Como ver encarar a equipe mais para a frente?
Da história, teve um treino que peguei o Nenê treinando, batendo falta e ele mesmo se filmando batendo falta. E falei “não acredito que ele está fazendo isso” (risos). Depos disse “você está de brincadeira estar fazendo isso comigo?”. Como vai mostrar uma filmagem? Não existe isso. Aí ele “não professor, é que estamos em um outro momento”. Respondi “eu entendo isso, tenho quatro filhos jovens e fazem isso o tempo todo, mas não dá, aqui é trabalho”. Foi um momento diferente, mas depois acabamos nos divertindo com isso. Entendemos esse momento. O ambiente nosso era muito gostoso e que nunca tinha vivido, sou de uma época diferente que não tinha internet. E no primeiro jogo que for enfrentar o Vasco, vai ser diferente. Vivemos experiências importantes. Mas somos profissionais e temos que lidar com essa situação. Fica minha gratidão ao Vasco e ao torcedor por terem nos abraçado em São Januário.