icons.title signature.placeholder LEONARDO PEREIRA
10/07/2014
18:13

A crise do futebol brasileiro veio à tona com a humilhante derrota da Seleção para a Alemanha por 7 a 1, na última terça-feira, no Mineirão, pela semifinal da Copa do Mundo. O momento é propício para encontrar explicações sobre a maior tragédia do nosso futebol. Os comandantes do time canarinho, Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira, já sustentaram uma versão: a dupla atribuiu o desastre a seis minutos de pane. Nesta quinta-feira, foi a vez de Zico colocar um novo ponto de vista na mesa.

Presente na final de um torneio de comunidades cariocas (Copa SOC14L), o maior ídolo do Flamengo criticou desde a formação dos jogadores até o desempenho do Brasil na Copa do Mundo, passando pela falta de ajuda da CBF aos clubes nacionais e o desinteresse pelos torneios locais.

- Foi uma grande aula de competência, qualidade, organização, respeito e pressão. Tem que admirar e bater palma. É muito fácil falar que foi um apagão. A pane não aconteceu porque os jogadores ficaram olhando um avião passar. A Alemanha usufruiu muito bem da desorganização do Brasil. Falta reconhecer que foi um passeio. Se não tiver humildade, não vai mudar nada. Estamos ainda acreditando que venceremos nossos adversários na base da superstição. Ganhamos Copas com craques e não porque tocou a mesma música ou estavam vestidos com a mesma roupa.

Com a língua afiada, o ex-craque acredita que o fator emocional levou os jogadores da Seleção a perder a oportunidade de "curtir" a Copa do Mundo como anfitriões. E lembra que poucos eram unanimidades nos clubes.

- Todas as seleções desfrutaram da Copa. Menos o Brasil. Minha impressão foi a de que os jogadores seriam mortos se não passassem de fase. Parece que estavam indo para uma guerra. Enquanto isso, a Alemanha mostrou um futebol alegre e ofensivo. Grande parte dos nossos 23 convocados nunca disputou uma Eliminatória. Eles tiveram uma pressão enorme nas costas e não souberam dar conta. Dos 11 em campo, poucos eram titulares absolutos. Até o Neymar, o grande astro, ficou diversas vezes no banco de reservas do Barcelona.

Para o Galinho, o futebol brasileiro está, aos poucos, desviando das características habituais. Tudo por conta do novo conceito de formação dos jogadores que vestirão a amarelinha.

- Quase todos nossos grandes jogadores foram moleques de rua e de pelada. Os escolhidos de antes eram os meninos que jogavam bola. Não aqueles que tinham altura, preparação física e determinação tática. É preciso ficar muito atento às categorias de base. Quem faz a diferença é a criança endiabrada e talentosa. Foi ela que levou o país a cinco títulos mundiais. O Brasil está caindo num erro grande. As escolinhas no Brasil têm os nomes do Milan, da Inter, do Real Madrid, do Barcelona... Faltam os do São Paulo, Flamengo, Botafogo, Corinthians... Os clubes não têm mais peneiras. Os europeus estão observando e levando embora nossos talentos, fazendo até com que eles se naturalizem. Não é bom ter uma Seleção com apenas três ou quatro jogadores que atuam aqui.

A CBF também não escapou das críticas. Zico pensa que os clubes precisam, com urgência, pressionar a entidade para o futebol sair da mesmice e contar com ajuda na formação de craques.

- A CBF é acomodada. Ela se preocupa apenas com as seleções e fecha os olhos para o futebol do país. Os clubes passam cinco anos sofrendo para formar um atleta enquanto ela só tem o trabalho de pegar o jogador e convocá-lo para as competições, sem pagar um centavo. A CBF deveria ajudar os clubes a manter os melhores jogadores aqui e evitar essa histeria do jovem querer jogar no Manchester United ou no Barcelona logo no início da carreira. Falta dar mais importância ao nosso futebol. A CBF não se preocupa com o futebol daqui. Só arrecada com os nomes dos jogadores.