icons.title signature.placeholder Rafael Valesi
27/12/2013
07:00

Apesar de ter nascido no Brasil, mais precisamente em São Paulo, o jogador de beisebol Yan Gomes não visitava sua terra natal há mais de dez anos. A vinda dele ao país, entre os dias 12 e 15 deste mês, foi parte do sucesso deste atleta de 26 anos em sua modalidade.

Em 2012, Yan entrou para a história do esporte brasileiro ao se tornar o primeiro do país a atuar na MLB, a principal liga de beisebol do mundo, sediada nos Estados Unidos. Os melhores do planeta no bastão atuam lá, e o paulista conseguiu entrar para este grupo seleto. Em uma comparação, este feito seria como um bósnio vir jogar no Campeonato Brasileiro de futebol.

Um ano depois de seu debute na MLB, Yan vem se consolidando nos campos. Aos poucos, ele está deixando de lado o rótulo de "primeiro brasileiro na MLB" para ser um atleta de altíssimo nível no torneio. Ele começou 2013 buscando espaço no Cleveland Indians, e terminou a temporada como titular na posição de catcher.

Buscando expandir a popularidade do beisebol no Brasil, a MLB pegou carona em Yan e o enviou ao país como parte do programa Ambassador Tour. Nesta rápida passagem, o jogador compareceu a jogos, deu autógrafos, participou de clínicas com crianças e visitou a redação do LANCE! em São Paulo para uma entrevista - tudo isso ao lado de familiares e membros da MLB. Confira o bate-papo com o jogador, que falou de sua trajetória, Seleção Brasileira e até o escândalo do astro Alex Rodriguez.

Confira a entrevista de Yan Gomes para o LANCE!Net

O que representa para você ser o primeiro brasileiro a jogar na MLB?
Quando eu cheguei lá (na liga), vi que não estava jogando só por mim, mas para um país inteiro. Isso me motivou a jogar. Alguns jogadores têm a família e a torcida da cidade do seu lado. E eu tinha um país inteiro torcendo por mim. Senti isso quando estava lá (nos Estados Unidos).

Nos Estados Unidos, você ainda é conhecido como o primeiro brasileiro da MLB, ou já está sendo conhecido por seu nome, Yan Gomes?
Este nome de primeiro brasileiro da liga sempre vai estar comigo. Até mesmo quando o Andre Rienzo chegou, falaram que ele era o primeiro pitcher (arremessador) brasileiro, mas os caras do meu time me disseram que eu continuaria sendo o primeiro jogador do país lá. Agora já estou fazendo meu nome, era o que eu queria e vou continuar fazendo.

No ano passado, você saiu do Toronto Blue Jays e foi para o Cleveland Indians em uma troca de jogadores. Como foi essa mudança de time?
Foi bem estranha. Eu nunca tinha passado por isso, não sabia direito o que tinha de fazer. Estava indo para uma equipe nova, que só conhecia de olhar. Foi um começo novo com eles, e até que deu certo. Os caras da equipe são super gente boa.

Você evoluiu muito do primeiro para o segundo ano na MLB. O que você aponta para ter melhorado em campo?
Não querendo falar mal do Toronto, mas eles queriam que eu ficasse indo para lá e para cá (na posição em campo). Agora estou só de catcher no Cleveland. No Toronto eles queriam que eu jogasse de primeira base, de terceira... O primeiro telefonema que recebi do Cleveland foi do chefão do time Chris Antonetti (vice-presidente executivo do Indians). Depois veio o Terry Francona (manager da equipe, o que equivale ao cargo de técnico), um dos top coaches da liga. Ele me ligar deu para ver que eles me queriam mesmo. O respeito que eles tiveram comigo me motivou. Falaram para mim que eu seria o catcher do futuro do time. Eles têm um plano para mim.

Como você analisa sua temporada em 2013?
Quando o Terry me ligou, isso começou a me acalmar. Isso te faz melhorar quando você está nesse jogo. O beisebol é muito longo, com 162 jogos numa temporada. No começo, quando eu ainda não jogava muito, eu sempre me preparava como se eu estivesse jogando. Eu já estava pronto, sendo que às vezes você precisa de um jogo ou dois para melhorar. O Francona me falou para me concentrar mais na defesa, que a hora de rebater iria vir. Isso me relaxou na hora em que eu estava rebatendo.

Você acha que teve sorte, pois só entrou no time depois de um jogador se machucar (Lou Marson)?
Isso é um negócio do beisebol. Tem uns caras que se destacam nas ligas menores mas que nunca conseguem uma chance de jogar. O Yankees só tem cara forte, então quem é da liga menor para subir (para a MLB) tem que esperar alguém se machucar ou alguém não jogar bem. Me mandaram (Cleveland) para a Triple-A (liga inferior à MLB), mas me deram um plano para o futuro. Continuei treinando, e quando chegou a hora tentei pegar vantagem nisso.

O que é mais legal para você, atuar como catcher ou rebater?
Depende. Quando você está rebatendo e não dá certo, é a pior coisa. Como catcher, você não tem uma chance de descansar. Você sempre está recebendo bolas do pitcher. Se você não está rebatendo bem, pode ter a chance de fazer algo na defesa.

Como é jogar como catcher, em que você fica em uma posição super desconfortável durante o jogo (agachado), e é muito importante?
É bem duro e difícil. Você não tem que se preocupar só com você, mas também com os lançadores, ver quem são os bons. Eu adoro isso, é trabalho mesmo, posso ir para o campo e botar na cabeça o que eu tenho que fazer.

Pela Seleção Brasileira, você ajudou o país a conseguir uma classificação inédita para o World Baseball Classic (o Campeonato Mundial da modalidade), mas não atuou no torneio principal. Como foi esta trajetória e sua ausência do WBC?
Quando me ligaram para jogar pelo time, disse "vamos lá", seria uma grande honra, há 10 ou 15 anos que não fazia isso, jogar pela Seleção. Nos treinos, eu pensei comigo, "esse time vai". Sabia que o Rienzo e o Paulo Orlando (que atua em ligas menores do beisebol americano) estavam no time, mas não sabia do (Leonardo) Reginatto e de outros caras. No primeiro jogo no Panamá, detonamos eles. Os caras estavam bem motivados. Há uma disciplina, os japoneses têm bastante disso, ninguém no time ficou com medo. Foi super legal.

O Brasil conseguiu a vaga no WBC com uma vitória sobre o Panamá, e comentou-se que eles menosprezaram a Seleção. Isso aconteceu mesmo?
O jogo foi no Panamá, no estádio deles. Começamos na frente e eles perceberam que iriam perder. Detonamos eles. A torcida começou a reclamar com os caras do Panamá e a torcer para a gente. Foi legal.

E a sua ausência do WBC, como foi isso para você?
Demorou bastante para eu tomar esta decisão de não ir para o Japão (NR: o Brasil atuou no Japão contra os donos da casa, Cuba e China, e perdeu seus três jogos). Se eu estivesse atuando ainda pelo Toronto Blue Jays, eu jogaria, sem dúvida. Mas na minha situação, indo para um novo time, em Cleveland, acabei ligando para todo mundo, para o Barry Larkin (americano membro do Hall da Fama do beisebol dos Estados Unidos e que treina a Seleção Brasileira), para o Rienzo, com o Paulo, Reginatto. Falei com os caras do time. Eu estando em um time regularmente na MLB, era capaz de elevar ainda mais o esporte brasileiro. Há outros jogadores atrás de mim. Foi uma decisão super difícil, mas assisti todos os jogos em minha casa. Todos me disseram para eu relaxar, que minha carreira era importante, que minha decisão poderia levar o esporte brasileiro para frente.

Antes desta visita, você não vinha ao Brasil há mais de dez anos. Como é seu vínculo com o país atualmente?
Sempre me deu vontade de voltar, mas era difícil. Eu passava o ano inteiro jogando. Sempre quis vir para cá, mas era difícil, tinha o aspecto financeiro. Tenho contato com meus familiares aqui, sempre ligo. Meus pais, um irmão e um tio moram nos Estados Unidos, mas o restante da família fica no Brasil. Meu irmão vem para cá bastante, pois casou-se com uma brasileira. Sei que o Brasil inteiro está me apoiando. Quero sempre ter esse contato com o Brasil.

O que representa para você vir ao país por meio de um programa da MLB, a Ambassador Tour, o que mostra sua importancia dentro da liga no momento?
Isso é o começo de tudo. Sempre quis fazer algo parecido, mas agora na MLB ficou mais fácil. A liga vai me ajudar neste aspecto, de vir aqui mostrar minha cara e mostrar que estou para ajudar. Quero ajudar o beisebol brasileiro a crescer e a colocar mais jogadores na liga.

A ideia então é plantar a semente do beisebol no Brasil com visitas, sua popularidade...
Dá para ver que no Brasil o beisebol não é tão popular como nos Estados Unidos. Lá você conversa com uma pessoa no meio do nada e ele sabe o que é o beisebol. Aqui é preciso pegar as comunidades do beisebol e tentar fazer a coisa crescer. No Brasil os campos são legais, precisamos trazer mais caras para cá. É preciso motivar as crianças que têm chance. Abri as portas. Não vamos parar agora, vamos continuar isso.

Você e o Andre Rienzo já estão na MLB? Podemos ter o terceiro jogador do país em breve na liga?
Não duvido que o Paulo Orlando tenha chance. Ele atua na Triple-A. Temos caras com bastante talento, como o Reginatto. Os caras que jogam nas ligas menores, se não são melhores, jogam igual a esses caras da MLB.

A NBA fez um jogo recentemente no Rio de Janeiro e tem um plano de expansão de partidas em outros países. A MLB, por outro lado, não tem algo tão forte neste sentido. Com isso, um jogo da MLB no Brasil ainda é um sonho bastante distante?
A possibilidade é grande. Vai ter uma Copa do Mundo de futebol agora no país, seria bom pegar um desses estádios e colocar um campo de beisebol. Não é tão difícil fazer isso. A MLB teria que aprovar isso, seria um passo grande. Mas dá para fazer.

Um dos pontos altos de sua temporada foi a partida contra o Andre Rienzo (pitcher do Chicago White Sox), pela primeira vez dois brasileiros estavam em campo na história da MLB? E na primeira vez que você rebateu contra ele, vocês sorriram um para o outro. Como foi este dia?
Foi uma coincidência o primeiro jogo dele na MLB ser contra o meu time. Chegaram para mim e falaram que ele seria o arremessador. E me disseram que eu iria começar o jogo também. Foi como meu primeiro jogo na liga, que foi contra o New York Yankees. Foi bem emocionante dois brasileiros atuando em um jogo que não é popular no Brasil. Antes de eu rebater, demos aquele sorriso, para ver quem iria vencer aquele duelo. Fui para o bastão pensando "não vou tomar strikeout de jeito nenhum, a primeira bola que ele mandar eu vou girar (rebater)" (risos). A rebatida foi bem fraquinha, mas cheguei na primeira base. Um ficou rindo para o outro. Ele jogou super bem pelo White Sox, foi super legal para ele. Agora é continuar isso.

E vocês dois conversam bastante atualmente?
Conversamos depois do WBC. Eu, o Paulo Orlando e o Reginatto somos destaques de posição, e ele é destaque como pitcher. Em épocas de jogos eu mando mensagens para ele, perguntamos coisas um para o outro. Eu dava dicas para ele. É uma amizade super legal que está sendo criada agora.

Sua estreia na MLB foi contra o New York Yankees, o time mais poderoso da liga. Como foi fazer seu primeiro jogo logo contra eles?
Até a Triple-A, sempre atuei como catcher. Em 2012, eu estava atrás de um cara do Toronto, mas podia jogar em outras posições. A equipe me colocou como terceira base no spring training, e gostaram de mim. Meu primeiro jogo foi como terceira base, tinha feito apenas uns dez jogos antes disso. Deu um frio na barriga. O jogo foi em nossa casa, em Toronto, mas se fosse no Yankee Stadium eu acho que iria derreter, cair no chão.

Quais momentos marcantes seus você guarda até o momento na MLB? Posso até citar um deles, que foi um home run contra o New York Yankees, em Nova York...
Eu e minha esposa estamos contando isso, os home runs que estou conseguindo contra pitchers feras. Esse contra o Yankees, contra o C.C. Sabathia, foi legal, eu queria correr bem forte. Ainda não há um momento que se compare ao meu primeiro jogo, foi um dos mais emocionantes. Tem também um jogo especial que foi contra o Seattle Mariners, em que bati dois home runs (o segundo deu a vitória ao Cleveland). E o jogo no playoff deste ano (contra o Tampa Bay Rays) deu para ver como era a torcida. Os caras são fortes lá.

A MLB inclusive pegou seu boné do primeiro jogo para colocar no Hall da Fama...
Foi engraçado. Como catcher, eu nunca jogo de chapéu, mas como fui terceira base naquele jogo, atuei de chapéu. Estava querendo guardar o chapéu e a jersey (camisa do jogo), mas chegaram e falaram que iriam pegar para o Hall da Fama. No WBC até falei para o Barry Larkin, que faz parte do hall, que agora tinha uma coisa em comum com ele (risos). Mas a diferença dele para mim ainda é muito grande. Ele até deu risada.

No ano passado o Cleveland Indians não teve uma temporada boa, e em 2013 chegou nos playoffs, algo que muita gente não esperava. Como foi essa reviravolta no time?
No começo da temporada, o time começou a comprar muitos jogadores novos. Deu para ver que queriam mudar a cultura do time. O Indians foi um dos melhores times na década de 90, como o Yankees. Depois de 2007 o time caiu um pouco. Chegar no playoff deu uma vida nova para a torcida. Deu para ver que desde o começo o time estava bem unido, a torcida estava atrás da gente. No mês de setembro ganhamos dez jogos seguidos, e fomos para os playoffs.

Em 2013, a MLB passou por um grande escândalo, que foi a divulgação de envolvimento do maior astro da liga, Alex Rodriguez, com doping - além de outros jogadores. Isso manchou muito a imagem da MLB?
Para mim isso é bom. Se eu fosse o cara pego acharia ruim, mas o que querem fazer é limpar o jogo, deixá-lo natural, para que ninguém use outras coisas. Pegar um número grande de jogadores no doping assusta os outros. Eles dão uma lista de substâncias que você pode tomar, mas há pessoas querendo tomar mais. Estão tentando limpar o jogo com isso.

O que pode se esperar do Cleveland Indians para a próxima temporada?
É só levar as coisas do jeito que elas estavam indo. O time é bem unido. Perdemos alguns caras que entraram no free agent (ficaram sem contrato), mas sei que os nossos caras da frente estão fazendo as coisas certas, colocando jogadores que vão continuar ganhando. A torcida está atrás da gente, então vai ser uma boa temporada.

Quem são os jogadores que você mais admira na MLB?
Tenho um grande respeito ao Jason Giambi, ele vai entrar no Hall da Fama. Tem 43 anos e continua jogando. Ele foi uma grande parte do nosso time. Da posição em que eu atuo, eu admiro muito o Yadier Molina, ele é o melhor jogador dessa posição de defesa.


Primeiro brasileiro da Major League, Yan Gomes projeta futuro