icons.title signature.placeholder Jonas Moura
16/07/2014
08:03

Larissa França está renovada. E, nas palavras da própria, mais feliz. Medalhista de bronze na Olimpíada de Londres-2012 ao lado de Juliana, a capixaba se diz outra pessoa após dar um tempo de um ano e meio das areias onde se consagrou. Em junho, ela anunciou que jogaria ao lado de Talita com um objetivo ambicioso: conquistar o ouro nos Jogos Rio-2016.

Para isso, terá de brigar por uma das duas vagas do vôlei de praia. A etapa de Haia (HOL) do Circuito Mundial é o passo inicial. Nesta quarta-feira, a dupla estreia na fase de grupos, graças a um convite da Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Elas encaram as alemãs Karla Borger/Britta Büthe e Chantal Laboureur/Julia Grobner em busca de vaga nas oitavas.

O casamento com a também jogadora Lili, em agosto do ano passado, e a tentativa frustrada de engravidar por meio de inseminação artificial foram assuntos que ela preferiu guardar nos últimos meses. Nesta entrevista ao LANCE!Net, porém, falou abertamente.

Garante que hoje é uma esposa, uma amiga e uma atleta melhor do que quando parou. E admite que a rivalidade com a americana tricampeã olímpica Kerri Walsh foi um incentivo para voltar: "Não posso deixar essa mulher jogar no eu país e ficar olhando".

Mesmo depois de você anunciar que pararia de jogar, muita gente esperava pelo retorno. Sempre foi sua meta?

Sim. Foi um período bom. Eu precisava dar uma parada, recuperar meu corpo, minhas dores, tirar umas férias, pensar um pouco na minha vida pessoal. Queria casar e consegui nesse período. Está fazendo um ano. Infelizmente não consegui ser mãe. Acho que não era a hora certa. Mas essa questão de jogar está no sangue, A adrenalina, o desejo de competir, buscar desafios, metas, tudo ficou dentro de mim.

Em que momento você decidiu que era hora de voltar?

Este ano é que despertou. Eu estava assistindo a um jogo da Walsh contra a Juliana pelo Circuito Mundial e pensei. "Não posso ver essa mulher jogar no meu país e não fazer nada". E as pessoas sempre me cobraram muito. Diziam que eu tinha que voltar. Depois de curtir bastante, estou feliz de voltar.

A dois anos da Olimpíada, acha que terá tempo para voltar ao melhor nível e buscar o ouro em casa?

Quis voltar logo esse ano para pegar o ritmo. Fiz um trabalho de três meses para estrear. Vou estar 70%, sei que tenho muita coisa para recuperar. O planejamento foi feito pensando nisso.

Como têm sido os últimos meses?

Muito treino, fisioterapia, massagem, parte física... tudo o que um atleta profissional está acostumado a fazer. Convidei minha equipe técnica do passado, que tem o Reis Castro. Eles sempre estiveram comigo. Confio neles, são pessoas que me conhecem, sabem o limite do meu corpo e até onde eu posso ir. Acordo 6h da manhã para trabalhar a parte física, depois faço massagem e de tarde treino técnico, de 15h às 18h.

O que mudou na Larissa atleta e pessoa da parada para agora?

Hoje sinto que estou bem mais madura, tranquila. A gente aprende muito com os anos. Ficar de fora observando me fez perceber coisas que faziam falta. Aprendi a vivenciar mais cada vitoria, aproveitar os momentos em quadra, com a bola, e fora dela. Hoje eu diria que sou uma esposa, uma amiga e uma atleta mais feliz.

Por que escolheu a Talita?

Acho que fiz a melhor escolha. Ela está 200%, vive o melhor momento da carreira, tem duas olimpíadas no currículo. Acredito que vai dar tudo certo. Temos todos os pré-requisitos. Mas temos que mostrar na prática. Ninguém sabe como é a dupla Larissa/Talita. Queremos fazer tudo passo a passo, tijolinho por tijolinho, até termos cara de time. Por enquanto, são duas boas jogadoras.

Larissa casou-se em agosto do ano passado com a também jogadora Lili (Foto: Paulo Rolim)

Como tem sido a convivência com ela nesses últimos meses?

Estamos nos entendendo muito bem. As duas estão com o mesmo foco. Ela está se adaptando a Fortaleza. Veio motivada para conseguir a medalha na Olimpíada. Não voltei por obrigação, foi de coração. No início, vai haver problemas de ansiedade, entrosamento, a responsabilidade de mostrar para todo mundo que somos uma dupla forte. O tempo vai trazer essa maturidade.

Mas você não cogitou retomar a parceria com a Juliana?

Até o ano passado, pensava em voltar com a Juliana. Nossa historia foi maravilhosa e vai me servir muito agora. Sempre vamos lembrar de nossas historias. Mas ela já foi escrita. Passou. Vai ficar na memória. Quando eu for jogar contra ela, claro que terei um sentimento diferente. Quero que ela seja feliz. Mas vi que é o momento dela com a Maria Elisa.

Como foram as conversas com a CBV para retornar? Quem você procurou?

Falei com o Toroca (presidente da CBV), e o Marcelinho, superintendente do vôlei de praia. Fui recebida de braços abertos. Valorizaram quem fui e quem sou. Foi um fator motivacional. O Ary (Graça - presidente da FIVB) também foi gente boa, me deu dois convites para jogar. Encarei como o reconhecimento de 10 anos de trabalho.

Você precisou tomar hormônios durante o tratamento de fertilização. Isso pode interferir no seu rendimento agora?

Na verdade, estar 100% não é só físico. São vários fatores que influenciam. Comportamento, psicológico, emocional, respeito dos adversários... tudo isso soma. O fato de ter tomado hormônio é algo que se recupera, não me preocupa. Já fiz dieta, sou uma atleta profissional. Perdi sete quilos, estou na forma física normal, com 69kg, o peso que gostaria. Como atleta, não estou 100% ainda, mas já tenho condições de jogar.

O que acha que deu errado na sua tentativa de ser mãe?

Acredito que não era o momento. Deus sabe o que faz. Foram oito semanas de gestação. Mas estou tranquila. Sei que posso realizar esse sonho depois de 2016.