icons.title signature.placeholder Gabriel Carneiro
20/02/2015
07:04

Luis Antônio Correia da Costa vai pegar estrada, entre sexta e sábado desta semana, com destino a um novo e grande desafio numa cidadezinha a 500 km de São Paulo.

Luis Antônio é o atacante Muller, bicampeão da Libertadores e do Mundial pelo São Paulo, com três edições da Copa do Mundo nas costas e o orgulho de ser um dos poucos a defender, com êxito, os quatro maiores clubes do Estado, além de Portuguesa e São Caetano. O tal desafio é voltar a jogar profissionalmente aos 49 anos, 11 temporadas depois de pendurar as chuteiras. Por último, a cidadezinha é Fernandópolis, homônima de seu clube, que vai tentar fazer bonito na Quarta Divisão do Paulistão.

Desde a aposentadoria, em 2004, Muller exerceu diversos cargos ligados ao futebol: foi dirigente de clubes, treinador e comentarista de TV. Só não esperava (e nem queria) voltar a atuar, ainda que o contrato de três meses com o Fernandópolis preveja que treine e jogue quando estiver bem, algo "bem light", segundo ele. O reforço foi um sonho de verão do presidente Jerri Falcão, um ex-locutor de rodeio que assumiu o clube no início do ano e se encantou com Muller numa pelada beneficente.

– Eu não esperava que tomasse a dimensão que foi essa minha contratação no Fernandópolis. Fiquei muito feliz. Isso prova a força que tem um ex-jogador. Foi positivo, pode se tornar produtivo e tudo isso é válido, porque as pessoas vão conhecer o clube, a cidade e o projeto social – relata Muller, que atendeu a reportagem do LANCE!Net em seu apartamento, no nobre bairro do Morumbi.

Ele embarca nesta sexta-feira ou no sábado para Fernandópolis, onde irá morar em uma casa alugada pelo clube e colaborar em um projeto social que tira crianças de até 15 anos das ruas e garante uma rotina de atividades esportivas. Será uma espécie de mentor desse trabalho. Mas antes de colocar o pé na estrada, e tentando desviar do alvo de quem acha que ele jogará "de bengala", Muller falou sobre a desconfiança, passado, presente e futuro. Isso além das dificuldades financeiras vividas desde o auge da carreira, os motivos que o fizeram deixar a imprensa esportiva, sua vocação religiosa e o que o move a sempre continuar. Aos 49 anos...

VEJA O BATE-PAPO COM MULLER
Atacante do Brasil nas Copas de 86, 90 e 94, ao L!Net:

Como apareceu o convite do Fernandópolis para voltar a jogar. Você topou de cara?
A história foi a seguinte... Em dezembro de 2014 fui fazer um jogo de exibição com ex-jogadores em Fernandópolis. Quem promoveu esse jogo foi o Maurinho, lateral, que mora lá, aí ele chamou o Alex Dias, Djair, Sérgio, eu e vários outros. Fomos fazer esse jogo, o presidente me viu jogar e falou com o Alex Dias, que é amigo dele, que eu nem parecia ter 48 anos na época. Não dei muita importância... Um mês depois me ligou de novo, falou que minha técnica estava apurada e que eu podia treinar e jogar quando quisesse. Eles ficaram dias me convencendo e conseguiram. Eu não queria e nem pensava em voltar.

Mas você ainda acha que pode fazer a diferença em campo?
Se for dessa maneira, com marketing, e uma coisa bem light, sem cobrança, dá para aceitar. É uma volta bem devagar, acho que vou mais jogar ensinando do que praticando, jogar 20 ou 30 minutos de vez em quando, no momento em que o adversário estiver mais cansado. Mas vou jogar orientando, falando... Quando eu era jovem tive quatro referências: Careca, Reinaldo, Roberto Dinamite e Cláudio Adão. Eu via a movimentação deles, posicionamento, como tocavam a bola... Eu espero ser referência para esses jovens do Fernandópolis.

E também tem um projeto social por trás da contratação, né?
Olha, eu vim de família muito pobre e consegui vencer jogando futebol, mas tive a ajuda de muitas pessoas. Por isso topei auxiliar nesse trabalho social, jogar fora de campo, pensar no próximo. Espero poder dar minha contribuição fora de campo, não é mais que a minha obrigação. Tem muita criança com sonho enterrado.

Apesar desse projeto social, muita gente deve ter te criticado por querer voltar aos 49...
Mas é claro! Por isso que eu não tenho rede social, nada disso. O pessoal falou que eu estou muito velho, que vou andar de bengala, mas você sempre vai receber críticas, pessoas que não gostam de você, isso é natural. Mas não posso me apegar nisso, tenho que ter convicção e minha consciência limpa de que estou tentando fazer a coisa certa.

O presidente Jerri disse que te levou para Fernandópolis e você emocionou as pessoas. Como foi?
Existe uma grande diferença entre profissão e vocação. A minha profissão é jogador, treinador, diretor. Mas a minha vocação é pastoral. Recebi a unção da igreja evangélica em 1999, quando jogava no Cruzeiro, mas sempre fui da religião. Dou várias palestras em igrejas pelo Brasil, e semana passada o presidente me chamou e falei, como pastor que sou. O pessoal não se emociona com minha história, e sim com a palavra de Deus.

Você conta das vezes em que acabou se desviando da fé? Como atleta, no auge, deve ter sido complicado se manter na linha...
A natureza do ser humano é pecaminosa. Todo homem é falho e eu não sou diferente. Nessa trajetória de vida já cometi inúmeros erros, fiz muita besteira. Eu não estava preparado para a fama repentina, e eu tive esses momentos de não saber administrar minha carreira porque veio tudo muito rápido. Já era profissional com 17 anos, joguei a primeira Copa com 19... isso abalou minha estrutura, não tinha gente que orientasse, era completamente sozinho e virei um produto do meio, com muito amigo de ocasião. Você tem que assumir sua culpa, seus erros, mas muita gente joga para baixo.

Você teve muitos desses amigos de ocasião durante a vida?
Quando você está na fase boa, todo mundo te conhece. Quando está na fase ruim, você conhece todo mundo. Primeiro todo mundo diz que você é o cara, mas quando você está na pior descobre que tem pouquíssimos amigos, que nem todo mundo te ama.

E você percebeu isso na época em que seus problemas financeiras foram escancarados na mídia?
Não só naquela época, mas no auge da minha carreira eu já tive problemas financeiros. É uma coisa normal. Foram circunstâncias de escolhas de vida. Na medida em que ia ganhando dinheiro, gastava, esbanjava... Nunca fiz festa em boate, mas tive vários carros bonitos... São coisas do momento, coisas da vida.

Então é verdadeiro aquele episódio de que você morou de favor na casa do Pavão?
Não é, cara, não é. O Pavão é um amigaço, jogamos juntos no São Paulo. Teve um certo período em que eu estava voltando do Imbituba (SC), onde trabalhei como técnico, aí estava procurando apartamento. Nesse período fiquei na casa do Pavão mesmo, uns três meses. Só que teve uma reportagem maldosa que levou para outro lado. Eu morava na casa do Pavão sim, mas até hoje fico no fim de semana... Mas nunca morei de favor.

Foi mais ou menos nessa época que você começou a trabalhar no SporTV, como comentarista. Por que deixou o canal?
Não me sentia prestigiado. Com toda a minha história no futebol, não dava para ficar em um canal de televisão onde não se é valorizado. Eles deram prioridade a outros comentaristas nos jogos importantes, na Copa das Confederações... Em março acabaria o contrato e faltando 15 dias pedi para sair. Estava vendo jornalista querer saber mais de futebol que jogador, aí não dá. Eu acho que televisão tem mais falsidade que futebol. Aprendi isso vivendo no meio. É muita gente falsa, impressionante.

Como era estar do outro lado?
Eu podia falar, tinha propriedade. Uma coisa é falar, outra é ter moral para falar. Eu não posso ser jornalista, não estudei para ser jornalista. Quem tem que comentar futebol é ex-jogador, porque ele já viveu aquelas situações dentro de campo. Sou a favor de comentarista ex-jogador.

Como atleta, qual foi seu auge?
O Palmeiras de 96. Era um Muller maduro, que aliava técnica à velocidade, um momento pleno na minha carreira, no auge do meu amadurecimento. Tanto que já sabia na pré-temporada que seria campeão paulista. A gente ia continuar passeando no Campeonato Brasileiro, mas eles não aceitaram minha pedida salarial e voltei para o São Paulo.

Para encerrar, o que você realmente espera dessa experiência no Fernandópolis?
Espero fazer uma coisa benéfica para o clube e ajudar os garotos. Quando eu era jovem, o Sócrates me ensinou algo muito interessante na Copa de 86. Ele me viu treinando, botou cinco bolas do lado direito da linha da grande área e cinco do lado esquerdo. Aí falou para bater as da esquerda com o pé direito e com a perna esquerda as outras. A ideia era aprimorar as duas pernas para chegar na frente do gol e não dar porrada. Levei isso para o resto da minha carreira. Essas coisas que eu aprendi, vou passar. Para os jovens não quererem só imitar Cristiano Ronaldo.