icons.title signature.placeholder Gabriel Carneiro e Lucas Faraldo
20/07/2014
07:02


Era 31 de março de 2014, dia seguinte à eliminação do Penapolense para o Santos na semifinal do Paulistão. Principal nome do time que surpreendeu o São Paulo, o meia Petros já arrumava as malas para voltar a Juazeiro (BA), sua cidade natal. O contrato era de só três meses, e ele sabia do risco de ficar desempregado. Mas uma ligação no meio da tarde pegou de surpresa. Era o empresário dizendo que ele jogaria no Corinthians.

– Isso preocupa: o campeonato está acabando e nada aparece... só que desde o jogo do São Paulo já existia a procura. Você assina esses contratos de risco e tem que dar a vida para conseguir algo melhor – lembra o atual camisa 40, titular de confiança para Mano Menezes.

Petros visitou a redação do LANCE!Net na última sexta-feira e mostrou tranquilidade nos 40 minutos em que atendeu a reportagem. Falou do estilo aguerrido que conquistou o chefe e do primeiro clube que confiou em seu potencial, o Vitória. Não por acaso, o adversário deste domingo, às 16h, no Barradão.

– Lá desenvolvi fundamentos, passe, cabeceio, marcação e noção de espaço. Para mim vai ser um prazer reencontrar todo mundo, mas eu espero que possa vencer.

A realidade de Petros mudou muito rápido. Três anos atrás estava sem clube após a disputa do Baianão pelo Fluminense de Feira de Santana. Nesta semana, teve os direitos comprados pelo Corinthians e assinou até o fim de 2018. Tudo isso desafiando vínculos curtos e preconceito com seu nome. Mas Petros, ansioso para rever a família no Barradão, não esconde o orgulho de enfim vencer na vida.

– Apesar das dificuldades, o nordestino é cativante, acolhedor. Ele não está preocupado com o que pode dar errado, mas acredita que um dia tudo vai dar certo. Esse sou eu.

Meia "cornetou" as notas do L!, viu jornais antigos e fotos (Foto: Fernando Roberto)

BATE-BOLA com PETROS
Meia do Corinthians, ao LANCE!Net

Você renovou seu contrato até 2018 na terça-feira. O que significa essa conquista na sua carreira?

Sempre fui um cara trabalhador e soube das minhas qualidades. Claro que sabemos da demanda do futebol brasileiro, tem jogador bom aparecendo toda hora. Mas eu tive essa oportunidade e sei que estaria pronto quando aparecesse. É uma satisfação, a realização de um sonho.

O que espera atingir no clube?

Minha meta era renovar o contrato. Jogar muito bem e o mais rápido possível renovar. Agora que consegui o foco é fazer o Corinthians voltar a ganhar títulos, estar entre as principais equipes do Brasil. Espero fazer história. Quem não quer ser ídolo dessa nação? É muito gratificante jogar por essa torcida na Arena.

Como foi o começo da sua história no futebol?

Comecei no time da minha cidade (Juazeiro), era muito novo ainda, tinha acabado de sair do segundo grau. Aí comecei a jogar, mas rapidamente fui transferido para o Vitória, fiz minha base quase completa lá. Fui emprestado duas vezes até acabar meu vínculo e depois fui pro Boa Esporte. Joguei dois anos lá em Minas e fui o jogador que mais jogou no Brasil. Em 2012 foram 35 jogos de 38 e em 2013 foram 34 de 38. Fiquei muito pouco na reserva, até porque era utilizado em várias funções e isso me ajudou. É ter a humildade de crescer e se corrigir, porque ninguém é perfeito.

Então você só foi jogar bola depois de sair da escola? É isso?

Sim. Antes jogava futebol de salão e aí quando me formei ainda era cedo, pedi à minha mãe que deixasse eu tentar. Como eu era o aluno mais novo da turma, ela disse que ia deixar aquele ano para eu tentar. Em questão de dois meses eu já estava no Vitória da Bahia, tinha assinado contrato profissional, tudo muito rápido.

O que lembra dessa passagem de cinco anos pelo Vitória?

O Vitória tem uma grande base, sempre cedeu jogadores às seleções, como David Luiz, Hulk... É uma equipe forte, de estrutura muito boa. Apesar de ser no Nordeste, é muito organizado e até parecido com o Corinthians. Mas apesar de gostar muito do Vitória, quero ter uma sequência boa aqui.

As dificuldades no Nordeste te ajudaram a ser o que é hoje?

O pessoal no vestiário brinca que lá não tem água, só tem bode, e apesar de ser semi-árido é a região onde passa o Rio São Francisco em sua maior largura, é bonito, de água cristalina e potável. Se voltar para casa e não estiver em casa estou no rio.

E a experiência nos clubes?

Lá você joga três meses e depois não tem mais calendário. Às vezes está em equipe pequena que não tem qualidade de treinamento e atletas de bom nível e não consegue nem classificar para a segunda fase. Por isso minha dedicação a vencer sempre foi grande. Não aceito, não gosto de perder, brigo, sou chato. O Petros dentro de campo é completamente diferente do Petros fora de campo. Quem me vê jogando não imagina que sou tão tranquilo fora, porque sei o quanto foi difícil chegar até aqui e não vou abrir mão disso nunca.

Você já disse que sofreu preconceito quando foi contratado pelo Corinthians... o que houve?

Quando cheguei no Corinthians pessoas foram contra a minha contratação porque eu não tinha nome de jogador. É vergonhoso isso. Se meu nome fosse Gabriel não faz diferença. Ou faz? Não faz! Pode ser preto, branco, azul, lilás, não faz diferença. Fui contratado para jogar, não para ser garoto propaganda. É claro que existe esse preconceito, mas sou tranquilo, vou procurar trabalhar e mostrar a essas pessoas o que faço.

Acha que já está mostrando?

Eu tenho saúde, tenho Deus no coração, tenho uma família maravilhosa, meus amigos que me acompanham, tenho que preocupação? Tenho que acreditar que tudo vai melhorar cada dia mais.