icons.title signature.placeholder Fábio Suzuki e Francisco Loureiro
18/07/2014
10:59

O jornalista britânico Andrew Jennings tem propriedade para falar sobre corrupção e operações mafiosas. No final da década de 80, ele denunciou um esquema de corrupção dentro da Scotland Yard, a conceituada polícia londrina. Já em 1993, ele estava à frente da primeira equipe de TV do Ocidente a entrar na Chechênia, para investigar atividades da máfia no Cáucaso, região entre a Europa Oriental e a Ásia.

Com esses trabalhos no currículo, ele não titubeia em afirmar que a Fifa, a principal entidade do futebol mundial, atua como uma “família mafiosa” cuja estrutura é mantida por esquemas de corrupção junto às entidades do esporte mais popular do mundo.

Suas denúncias o fizeram ser reconhecido também como “o inimigo número 1 da Fifa”, sendo proíbido de entrar em qualquer evento realizado pela entidade, algo que é tema de seus dois últimos livros: “Jogo Sujo – O Mundo Secreto da Fifa”, de 2006, e “Um Jogo Cada Vez Mais Sujo”, lançado este ano no Brasil e que a própria Fifa tentou impedir a publicação.

Em 2011, suas denúncias colaboraram  para a queda do então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, após 22 anos à frente da entidade que comanda o futebol no país. No próximo mês, Jennings virá ao Brasil para dar uma palestra durante a 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 22 e 31 de agosto, no Anhembi. Mas antes, ele conversou com exclusividade com o LANCE!Net e contou detalhes sobre por que considera a Fifa e as federações nacionais – como a CBF – “verdadeiros sindicatos do crime organizado”.

É um prazer entrevistá-lo...

Primeiro, queria deixar claro que eu não sei nada de futebol e nada sobre a escolha do Messi (risos).

Seu principal alvo é a Fifa. Por qual motivo?

Eu suspeito de absolutamente tudo relacionado à Fifa porque eles não são transparentes. Infelizmente, presidentes e primeiros-ministros falam com canalhas como Blatter ao invés de dizerem para ficarem longe do meu país. E por causa da Copa, Blatter conseguiu falar com a maioria dos chefes de Estado do planeta. Então ele consegue fotos com Dilma, Angela Merkel... Elas sabem que ele é um safado, mas por que não tirar fotos, não é? Pelo menos isso não dá nenhum poder real para o Blatter.

Mas ele 'excomungou' a Federação Nigeriana...

É desprezível o que Blatter e seus gângsters estão fazendo com a Nigéria. Uma corte nigeriana, fruto de um governo eleito pela população diz: 'Nosso futebol é corrupto, vamos nos livrar desses dirigentes'. Então Blatter e seus capangas dizem que eles não vão participar do futebol mundial. Essa é a hora deles irem às Nações Unidas, ao Governo Central Europeu e perguntar: 'Quem são esses ladrões? Eles estão dizendo que minhas meninas não podem jogar a Copa do Mundo feminina'. Se eu fosse presidente da Nigéria, eu colocaria essas mulheres dentro de um avião, pousaria em Zurique e colocaria a equipe para jogar na frente da sede da Fifa. 'Tá vendo? Essas que são as mulheres más para o futebol mundial’ (risos). Os canadenses não vão aceitar essa palhaçada. Essas pessoas são só ladrões de baixo calão que tomaram conta do esporte mundial.

Você insiste em chamar a Fifa de máfia. Por quê?

Eu investiguei o crime organizado por quase toda a minha vida e descobri que o Blatter está comandando uma família do crime há muito tempo. Se você perguntar para detetives, criminologistas e acadêmicos pela definição do que é um sindicato do crime organizado, você vai descobrir que é o que a Fifa faz. E falar em família é literal. A Match tem participação de 5% do sobrinho de Blatter, e o Ray Whelan se enfiou lá porque se deitou com a irmã dos irmãos Byron, donos dos 95% restantes, por tempo suficiente para ganhar um cargo lá dentro.

O que achou da prisão de Ray Whelan, o CEO da Match?

Ele é o terceiro irmão dos mexicanos, os Byron. Ele sabe de tudo. Vocês devem conhecer Bangu, né? É um inferno, eles atiram em você. E Whelan costuma viver no Copacabana Palace e andar de jatinho. Então, vê-lo andar no porta-malas de um camburão é absolutamente incrível. Eu não conseguia parar de dar risada.

Acompanhou a investigação?

Sim, e foi muito interessante. Os detetives sabem que há problemas, e que você tem que resolver o caso de forma rápida pois não podem ficar segurando as pessoas na cadeia. Mas eles sabem que existe uma pressão muito grande da “grana” para pará-los. Eu acho que é muito tarde para parar a investigação, porque os brasileiros estão sendo ferrados pela Fifa, pagando pela Copa e eles não deveriam. Agora estão sabendo que não teriam direito a comprar uma boa parte dos ingressos.

Blatter sempre diz que a Copa é a única fonte de receitas da Fifa. É verdade?

Existem contratos de marketing, patrocínio e licenciamento. Mas é coisa pequena. Definitivamente, a maior receita são os ingressos.

Você tem uma visão particular sobre esses ingressos...

Eu falei muito sobre isso no meu primeiro livro. E sim, os ingressos são mais do que uma fonte de receita, eles são a cola que mantém essa família criminosa unida. Não importa o que nós pensamos ou o que vai escrever no seu jornal, porque não temos direito ao voto. Metade dos 209 associados estão pegando ingressos, eles trocam favores, como numa família criminosa. É uma estrutura mesmo. O dinheiro entra e a fidelidade aparece. E se você é desleal, como a Nigéria, nós acabamos com você.

E Blatter sabe de todo o esquema?

Se ele sabe? Ele é quem controla tudo nos mínimos detalhes. Ele é o homem que chega no escritório às seis da manhã e está olhando a sua mesa antes de você chegar. Ele está lá desde 1976. Ele sabe de tudo. É assim que ele controla e prospera. Ele tem seu próprio serviço de inteligência, paga por esse serviço faz tempo. Ele sabe mais e sabe antes. Ele é obcecado por controle. Ele é um ditador. Se não fosse assim, seria pego. Então, não existe a possibilidade dele dizer  que não sabia.

A polícia carioca espera um diploma de Whelan para colocá-lo em cela especial. Ele tem uma formação?

Não sei se ele foi para a universidade. Ela era um treinador de futebol. Não acho que ele tenha. Ele treinou um pouco e depois se engraçou com a irmã dos mexicanos (irmãos Byron, donos da Match). Ele é o testa de ferro. Os irmãos decidem quem terá os ingressos, e ele negocia. Um cara dorme com sua irmã por 20 anos e você não sabe que ele está negociando ingressos? Impossível.

Você conhece o Bom Senso FC? Você acha que pode funcionar um movimento como esse?

Sim, soube desse movimento antes da Copa, mas não estou acompanhando de perto. Mas ele faz todo sentido. Esse jogo é podre. Argentinos, brasileiros, uruguaios... É nojento o modo como algumas pessoas roubaram o futebol latino-americano. E o modo não-violento de mudar é esse. Vocês têm transparência no seu país?

Eles pedem por democracia na CBF...

A democracia pode ser pervertida, o que incomoda mesmo é transparência. Porque eu posso ir na internet e saber o que o primeiro-ministro está fazendo, posso achar quanto o presidente americano recebe, as agendas deles. Tudo isso online. Podemos ouvir o que eles dizem, e escrever sobre isso. Eles chamam o futebol de “o jogo do povo”, não é? Mas o povo não tem voz nenhuma. E é aí que a transparência tem que chegar, como aconteceu no mundo. Se fizermos isso no futebol, a corrupção acaba. Ainda há corrupção no Reino Unido, claro. Mas é muito mais difícil agora por causa da transparência. Aqui temos liberdade de informação, posso entrar em qualquer comissão parlamentar a hora que quiser.

E existe chance disso acontecer no futebol?

Quando você para e vê que há essa investigação no Rio e há todo o material do “Sunday Times” nos último mês, começamos a ver uma chance de uma reforma na Fifa chegar a algum lugar. Veja como é bizzaro, como eles se sentem à vontade para mentir. O Blatter foi ao Congresso Africano da Fifa um dia antes do Congresso da Fifa, no Brasil. Tinha 50 nações e o “Sunday Times” documentou que ao menos 33 dos oficiais presentes haviam recebido propinas. E sabe como Blatter se defendeu? Ele disse que os jornalistas eram racistas. Me chame de mau jornalista, mas não me chame de racista. E o pior. Todos os oficiais africanos aplaudiram de pé. Nós não vamos esquecer disso. E muitos africanos estão muito envergonhados.

Por que a Fifa não controla o problema do racismo no futebol?

Blatter vem à público e diz que a Fifa não conseguiu se sair bem com a questão do racismo. Você poderia fazer, Blatter, só não tem a coragem de parar e dizer ‘Olhe para mim, seus babacas, eu sou o presidente e eu sei que houve atividade racista por aqui. Ninguém sai até resolvermos, porque eu sou o presidente. Se não fizer algo na próxima hora, vocês estão fora. Não concorda? Você está fora’. Mas em vez disso ele prefere tirar fotos com jogadores e pedir desculpas, dizendo que ‘só alguns babacas fazem isso, não é um grande problema’. Ele joga a culpa nos jogadores, mas ele é quem chefia o futebol.

O que pode dizer sobre os dirigentes da CBF?

Não falo português, então é muito difícil, aí meus amigos brasileiro me ajudam. Eu li todo o relatório da CPI do Álvaro Dias e do Aldo Rebelo em 2001. Muito educativo. E eu tenho orgulho de ter colocado isso no meu livro para mostrar a mais uma geração de brasileiros: isso é o seu futebol. Eles são ladrões. Não sou eu, um repórter gringo dizendo. São seus políticos, seus investigadores, que decidiram o que deveria ser feito. Mas não foi feito. Sobre a Joanna Havelange, eu só sei o que vocês sabem. Aquela declaração infeliz sobre o dinheiro já ter sido gasto... Se eu pudesse, chamava ela e diria: ‘Por favor, onde está o dinheiro? Você me leva até ele?’. Mas não, eu não consigo penetrar a CBF.

O que acha das evidências de compra de votos na eleição do Qatar como sede da Copa?

O que acontece é que o Blatter tem sua própria polícia. Não é maravilhoso? Ele contrata policiais e promotores. Ele contrata esse cara, o Michael Garcia, por muito dinheiro. E eles dizem que independentemente do que ele fez no passado, ele é só um advogado. Mas com a credibilidade de ser um horrível promotor de Manhattan.

E como ele sempre se safa?

Blatter reescreveu o código de ética da Fifa. Contratou investigadores, contratou policiais. E então, do nada, ele surge com um relatório que vai para um juiz de Munique, que supostamente é honesto. Então, no primeiro parecer da Corte, que tive acesso através da BBC, a decisão do juiz é que Blatter foi ‘desajeitado’. Desajeitado? O que isso quer dizer? É o que Michael Garcia disse e o juiz concordou: Blatter não sabia que era propina. Ou seja, um milhão de francos suíços chega numa conta da Fifa e ele não sabia. Coitadinho, ele é só um rapaz do campo, não entende, é apenas desajeitado.

E eles se arrependeram?

O maior problema é que ninguém quer ir para o Qatar. Nem o Blatter. Posso ser europeu, mas é fato que o melhor futebol do mundo é jogado na Premier League e na Bundesliga. Eles não vão querer deixar seus jogadores ficarem seis semanas no deserto. Não é uma questão de árabes ou de muçulmanos, é uma questão de clima. Isso é tudo.

Por que a Fifa então não muda a sede?

Eles pagaram muita gente. Blatter sabe e ele ouviu o barulho dos sacos de dinheiro sendo arrastados pra dentro da Fifa. E muita gente pegou esse dinheiro. E, caramba, estamos no Qatar! Qatar? Nós não podemos ir pra lá no verão! Jesus! Impossível. No inverno? Então você vai e pergunta para o Rupert Murdoch, o dono dos direitos de transmissão da Premier League (e da CNN, Time Warner, AOL...) e diga a ele que não ganhará nada por seis ou sete semanas. Tem certeza que você quer fazer isso?

Há uma questão forte do ponto de vista dos negócios, não?

A maioria dos clubes da Premier League estão quebrados. Apenas alguns que são de oligarcas, mas a maioria não consegue ficar seis semanas sem entrar dinheiro. Então isso não vai acontecer. A Premier League está só esperando que os políticos resolvam esse problema antes de dizermos que não há a possibilidade de mandarmos nossos jogadores para esse clima. De nenhuma maneira vamos perder nosso negócio por causa de 12 ou 13 safados que foram a Zurique e votaram no Qatar por dinheiro. Dane-se, a gente não quer.

Fala-se em levar a Copa para os EUA...

Acho difícil. E sabe por quê? Porque os EUA nunca iriam assinar uma concessão de isenção fiscal. Você tem diferenças de esferas. Tem impostos nacionais, impostos estaduais, impostos municipais, todos os tipo de taxas. Os americanos até devem querer uma Copa lá. E eles tem tudo, estádios, hotéis, praias. Eu acho que a Copa deveria ir pra lá, e pode até ir.

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Quem é?

Nome - Andrew Jennings

Idade - 71 anos

Jornalista - Se especializou em reportagens investigativas sobre instituições que poucos jornalistas ousam enfrentar, como a Scotland Yard, o Comitê Olímpico e a Fifa.

Escritor - Jennings já escreveu sete livros durante sua carreira, todos investigativos. Sobre a Fifa, já publicou dois, mesmo sendo processado pela entidade.