icons.title signature.placeholder Guilherme Cardoso
06/11/2014
19:53

Entediante, chata, sem graça... Adjetivos não faltam para os críticos da Fórmula 1. Afinal, o domínio de Sebastian Vettel nas quatro temporadas anteriores ou a disputa restrita do título entre os dois pilotos da Mercedes neste ano deixaram a disputa menos emocionante. Mas o tricampeão da categoria, o brasileiro Nelson Piquet, usou uma nova palavra para falar sobre o atual momento.

– Para mim, acho que é uma merda o jeito que está. Não queria correr em uma Fórmua 1 dessa. Preferia mais o meu tempo, quando tinha mais essa de ultrapassar, isso e aquilo – avaliou o ex-piloto.

No Autódromo de Interlagos, em São Paulo, para acompanhar o filho Pedro Piquet, de 16 anos, na etapa da Porsche GT3 Cup Challenge, o tricampeão atendeu a imprensa na tarde desta quinta-feira. E não fugiu de dar sua opinião sobre a F-1.

– Uma coisa que não é muito legal é querer fazer uma corrida para o público. Então, o cara está meio segundo atrás, abre a asa e passa. Ultrapassar assim e nada é a mesma coisa. Anda 30km/h mais rápido e passa. Ultrapassar naquela época era uma coisa tão bacana, você programava, entrava na reta três, quatro carros atrás do cara para ter velocidade para entrar no vácuo e sair. Tem toda a técnica de ultrapassagem. Acabou. Hoje, não tem nada disso. E tem a coisa dos pneus. Você vê um cara passando o outro de passagem e pergunta: O que aconteceu? 'Ah, porque entrou no box (para trocar o pneu)'. Ficou meio confuso para mim – avaliou o brasileiro.

Piquet não se mostra contra o uso da tecnologia na categoria. Afinal, muitas das inovações são usadas nos carros de rua. No entanto, para ele, isso não pode influenciar na disputa dentro da pista entre os pilotos.

O ex-piloto também comentou o atual momento da categoria. Por conta da contenção de gastos, as escuderias têm uma limitação de testes durante a temporada. Assim, a Mercedes dominou o campeonato.

– Se você tem os carros congelados e um cara inicia mais forte, ele vai ser mais forte até o fim. É como a Mercedes. Isso está errado. O desenvolvimento tinha de ser constante. Mas custa mais caro, isso e aquilo... É difícil fazer um negócio que deixe todos igual – avaliou Piquet.

O tricampeão ainda aproveitou para dar um palpite sobre o campeão da temporada de 2014.

– Hoje, é bem fácil de prever alguma coisa. Primeiro, porque ele é muito mais rápido do que o Nico. Segundo, porque os carros quase não quebram. Se não der zebra, acho que o Hamilton vai ser campeão – disse.

CONFIRA A ENTREVISTA DE NELSON PIQUET:

Como analisa essa mudança do perfil do piloto da Fórmula 1? Antes tinha de avaliar o carro e hoje tem tudo praticamente na mão.
É a evolução da tecnologia, não tem jeito. Hoje em dia, você está recebendo os dados da telemetria nos boxes. Não só nos boxes, mas na fábrica também estão recebendo ao mesmo tempo. Antes de o piloto abrir a boca, já sabem tudo o que está acontecendo. Na Fórmula 1, você precisa ser rápido e não errar. Pode chegar lá um total imbecil, sem saber como funciona o motor. Se piloto for rápido e não errar, faz o serviço dele.

Como era a questão financeira na sua época? O poderio financeiro das equipes diminuiu?
Escutei por aí e nem sei se é verdade. Acho que o plano é ter seis equipes com três carros cada. As equipes de ponta, de fábrica. A Fórmula 1 sempre foi assim, com os times bons e os times de trás. Quem tinha mais dinheiro e desenvolvimento andava na frente e quem tinha menos andava atrás. Não mudou nada. Há 20 anos é assim e vai ser sempre assim.

A Fórmula 1 evolui nas tecnologias, mas esbarra em várias questões de regulamento nessa evolução. Acha que isso é ruim para a categoria?
O pior é fazer algo de tecnologia que facilitar a ultrapassagem e a competitividade entre um carro e outro na pista. Isso está errado. A evolução na tecnologia é bom, porque é usado nos carros de rua. O que não concordo é com a coisa da aerodinâmica, de abrir asa... E outra coisa é não ter a briga de pneu na Fórmula 1, ser monomarca.

Para muitos, Bernie Ecclestone (chefe da categoria) não tem um sucessor e, por isso, acham que a categoria vai entrar em colapso com uma saída dele. Você vê alguém ou acha preocupante?
Trabalhei com ele, estive na Fórmula 1 por 13 anos. Ele tem uma cabeça fantástica, ganha muito dinheiro e faz todo mundo ganhar. Vai ser muito difícil quando ele sair. Se você soubesse como ele é rápido no pensamento. É impressionante. O tempo que tive com ele aprendi tanta coisa. Ele é excepcional. São dois caras que me fizeram... Vocês vão até rir. São dois caras que me fizeram ver outro nível de inteligência. Um é o Bernie, outro é o Luiz Estavão (ex-senador do Distrito Federal cassado e preso por desvio de verbas). É tão inteligente o cara... É uma inteligência impressionante. Se fizesse isso para o bem, seria presidente da República.

Acredita que Felipe Massa se encontrou na Williams neste ano após deixar a Ferrari?
Sempre falei que tive uma experiência dessa. Quando você bate a cabeça muito forte, perde aquele último sentimento. Ele vinha muito bem até ali. Depois do acidente (em 2009, no treino classificatório para o GP da Hungria), o negócio desandou. Quando bati em Ímola (em 1987), para mim acabou. Continuei ganhando dinheiro, porque enrolei. Ganhei um Mundial, é verdade (naquele mesmo ano). Mas viu como andava atrás dele (o inglês Nigel Mansell, o vice-campeão, e seu companheiro na equipe Williams) e o infernizava. E eram só dois carros competitivos. Falava que a mulher dele era feia. Estava louco para sair na porrada com ele e ele não batia em mim de jeito nenhum.

Na Fórmula 1 atual, dá para desestabilizar outro piloto no bastidor?
Se tiver cabeça fraca, dá. Você pode provocar o cara. Na pista, nunca fiz, nunca seria capaz de fazer. Toda minha carreira, nunca fiz nada que pudessem falar de mim, como provocar acidente, atrapalhar outro piloto na pista. Tudo o que ganhei foi limpo. Fora da pista, sim. Nos boxes,nos acertos, fiz de tudo para enrolar o companheiro.

Falta isso na Fórmula 1 atual?
A gente não sabe. Talvez, aconteça lá dentro. (Sebastian) Vettel está comendo um pepino danado, não sei como. O cara (Daniel Ricciardo) é novo, ele é tarimbado e não sabe guiar o carro? Mas tinha de saber mais para estar perto. Estou muito longe. Nesta sexta, venho conversar com o Niki Lauda (consultor da Mercedes) para ele me contar umas coisas. Não sei.