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16/04/2014
13:08

Arrancar todos os dentes para substituí-los por próteses nas cores preta, branca e vermelha foi apenas uma das loucuras que Bacalhau, torcedor folclórico do Santa Cruz, fez pelo time do coração. Pedalar por 15 dias e percorrer 1050 quilômetros, de Garanhuns, Pernambuco, onde mora, até Salvador, para assistir a jogo do Tricolor contra o Bahia, é outro "causo" que ele conta com orgulho. Nem mesmo a goleada sofrida por 5 a 0, e o fato de ter assistido ao jogo em meio à torcida adversária por desatenção e pressa de quem chega ao estádio em cima da hora, fez ele se arrepender. Nem mesmo enquanto pedalava os mesmos 1050 quilômetros para voltar para casa.

Hoje com 74 anos, se beneficia dos cabelos brancos adquiridos com a idade para combiná-los ao sorriso. Faixa central da cabeça grisalha, laterais em preto e vermelho. Roupas? Só aquelas que possuem as cores da Cobra Coral. Tamanho fanatismo não permitiu que nenhum dos 13 filhos de Bacalhau fosse torcer por outro time. Se torcesse...

- Nem sei o que faria. Já terminei casamento porque a mulher veio querer agourar o Santa. Onde já se viu isso? Tratei de ajudá-la a fazer as malas e ir embora - conta ele, com a determinação de quem já mandou fazer caixão e capela mortuária também temáticos, bem a gosto de um torcedor que fez da casa onde mora, do rejunte dos ladrilhos ao vaso sanitário, tricolor.


Para descansar em paz, seja em vida, seja em morte, Bacalhau dorme em "berços" à moda da Cobra Coral (Fotos: Arquivo Pessoal)

O imóvel, de tão inusitado, chegou a virar ponto turístico na cidade. Não há quem não saiba quem é o mais apaixonado torcedor do Santa Cruz. Afinal, quem se dá ao trabalho de traçar no papel higiênico faixas pretas e vermelhas alternadas sobre os picotes para celebrar o amor ao Tricolor pernambucano?

- É bom porque, como o papel é branco, só gasto tinta com as outras duas cores. O abacateiro também coloquei tricolor. E o teto dos cômodos da casa, além das cores, tem escudo do meu Santa bem grande pintado - conta ele, orgulhoso.

Faz-tudo, ele fabricou todos os móveis do seu lar em cimento, devidamente decorado - adivinha? - de preto, branco e vermelho. Paixão pelo time que, promete, irá sobreviver à própria vida.

- Aqui não entra em casa nada que não seja das três cores. Visto-me há mais de 30 anos assim. E meu último desejo é que, no enterro, me coloquem para ouvir um gol do Santa Cruz - conta ele, que gosta de "ensaiar" o seu último lance antes de ficar a sete palmos debaixo da terra cantando o hino do clube:

- Santa Cruz, Santa Cruz, junta mais esta vitória. Santa Cruz, Santa Cruz, ao teu passado de glória - cantarola, de dentro do caixão.