icons.title signature.placeholder Fábio Aleixo
05/03/2014
08:00

Aos 39 anos, Tony Kanaan tem a partir de 2014 uma oportunidade que não teve nos últimos três anos: entrar em um campeonato da IndyCar com reais chances de título e repetir o que fez há exatos dez anos.

Atual campeão das 500 Milhas de Indianápolis, o baiano deixou a modesta KV Racing para defender uma das potências da categoria: a Chip Ganassi Racing, que conta com o atual campeão, o neozelandês Scott Dixon.

Kanaan havia assinado para correr no time satélite da Ganassi. Mas o grave acidente do amigo Dario Franchitti, que teve de encerrar a carreira, abriu as portas para Tony na equipe principal.

Ciente da expectativa criada, o brasileiro não foge da responsabilidade e se considera, de fato, um dos favoritos ao título na temporada que começa no dia 30 de março em St.Petersburg (EUA).

Em rápida passagem por São Paulo no mês passado, entre um compromisso e outro com a Ganassi, o piloto atendeu ao L! em um hotel na Zona Sul, onde deu uma palestra.

Por cerca de meia hora, falou sobre suas expectativas, a relação que terá com Franchitti ao longo do ano e as mudanças em sua vida desde o histórico triunfo em Indianápolis.

Confira abaixo a entrevista:

Como você entra para a disputa desta temporada?
Quando assinei para correr este ano, era para estar na Ganassi 2. E a expectativa já era grande, mas não tão grande. Agora, no carro 10 (na equipe principal), a expectativa e a responsabilidade são muito grandes. É um carro histórico, com muitas vitórias com o Dan Wheldon e o Dario (Franchitti). É a minha melhor oportunidade na carreira. Depois de tudo que vivi, é uma chance que não posso deixar passar.

Imagino que estar na Ganassi seja até um alívio para você depois de quase ter ficado sem equipe antes do começo da temporada de 2011 (após o acordo com a Dragon Racing não se concretizar) e ter corrido nos últimos três anos por uma equipe que não tinha tantos recursos.
Fizemos milagre na KV. Eu, a equipe e os patrocinadores. Há três anos, muita gente pensava que tinha acabado para mim. Foi uma volta por cima muito legal. Acreditei demais. No ano passado, eu e a equipe conseguimos focar na corrida mais importante, que eram as 500 Milhas de Indianápolis. Não teríamos condições financeiras para ganhar um título. Ser constante por 17 corridas ia ser complicado. Focamos em Indianápolis e deu certo. Aquela vitória alavancou minha carreira e a KV.

Bom, agora os objetivos são totalmente diferentes, não?
Agora, não tem desculpa. As coisas mudam de um ano para outro. Mas o histórico da Ganassi sempre foi de andar na frente. Se nada de extraordinário acontecer, é a melhor chance que tenho para ser campeão. Não quero criar expectativas, mas não quero arrumar desculpas.

Como, de fato, surgiu o interesse da Ganassi em você?
Depois das 500 Milhas, muita coisa começou a acontecer. O Chip (dono do time) queria ter de novo quatro carros na Indy. Começamos a conversar, mas não havia orçamento inteiro para isso. Durante estas negociações, ele me convidou para fazer uma corrida de Grand-Am (categoria de turismo) pela Ganassi em Indianápolis. Depois disso, com apoio da NTT Data e da Itaipava, consegui fechar um contrato para correr no carro 8. Este anúncio aconteceu no fim de semana da corrida de Houston, que foi quando o Dario sofreu o acidente. A partir daí, não tive mais controle das coisas e tudo aconteceu naturalmente. O desejo do Dario para que eu assumisse o carro 10 foi muito grande. O Chip ficou super tocado com esta história e acabou que fechamos um novo contrato.

Nota da redação: No dia 6 de outubro, na segunda corrida em Houston, Dario Franchitti bateu na traseira do carro de Takuma Sato e decolou em direção ao alambrado. O escocês sofreu uma fratura na coluna, no tornozelo direito e uma concussão. Meses depois, os médicos lhe disseram que ele não poderia mais correr.

E como está o Dario depois que foi obrigado a encerrar a carreira? Como vocês são muito amigos, imagino que tenham passado algum tempo juntos após o acidente.
Ele está super bem. No começo, foi difícil para ele. Passamos alguns dias juntos quando os médicos lhe disseram que ele não poderia mais corer. Na verdade, ele não se aposentou. Aposentaram ele. Hoje, ele trabalha muito perto de mim, como um consultor da equipe.

Como será este trabalho do Dario na Ganassi? Ele irá a todos os treinos e corridas neste ano?
Ele será um consultor da equipe na parte de estratégia e acerto do carro. Ele é funcionário do time, e não de um piloto específico. Mas, por eu ser muito próximo dele, puxo ele para meu lado. Não sei como será a dinâmica com os demais.

Pelo fato de conhecer bastante o Dario, isso ajudou você na chegada à equipe? Foi bem recebido?
Todo mundo fez eu me sentir em casa. O pessoal ainda estava abalado com a perda do Dario, e minha personalidade ajudou bastante. Além disso, conhecia muito os mecânicos, os engenheitros. Me sinto em casa na nova equipe.

E como é a sua relação com o seu chefe, o Chip Ganassi?
Ele é um cara que está lá para ganhar corridas e campeonatos. Claro que ele tem amizades. Mas se você ganhar corridas e brigar por títulos, vai ser seu amigo para sempre. É um cara que sabe dividir bem a parte pessoal e profissional. E isso é algo que me agrada.

Imagina que esta temporada será uma das mais disputadas dos últimos anos? Afinal, não faltam candidatos ao título, como o Juan Pablo Montoya, que está de volta para correr na Penske, o Will Power, Helio Castroneves, e seu companheiro Scott Dixon.
A cada ano, está ficando pior para ganhar. O campeonato está ficando mais competitivo. As equipes grandes estão vindo com três, quatro carros. Vai ser uma briga bem feia pelo título.

Este ano o campeonato será muito curto, com a primeira das 18 provas sendo realizada no dia 23 de março e a última em 30 de agosto. O que achou disso? O desgaste será muito grande para vocês?
Resolveram espremer neste ano para ver se vai funcionar bem. Realmente, vamos ter poucas semanas livres nestes seis meses. É importante ter um começo bom. Estar numa equipe com boa capacidade para resolver os problemas e com um bom simulador ajuda muito. São coisas que podem fazer a diferença. Então, por estar na Ganassi, fico tranquilo quanto a isso.

Nos últimos quatro anos houve uma corrida da IndyCar no Brasil, mas nesta temporada a prova de São Paulo saiu do calendário. Como você vê o atual momento da categoria no Brasil?
Foi uma perda grande para mim. Muitos patrocinadores são daqui. É uma pena que não ocorra esta corrida. Por ser um ano de Copa do Mundo, perdemos muita força. Eu tenho uma relação muito próxima com a Indy e a Bandeirantes (promotora do evento). Tentamos muito fazer a corrida, mas não depende apenas destas duas partes, pois o investimento é muito alto para bancarem sozinhas. É preciso também apoio do Governo, da Prefeitura. Mas acho que no fim das contas, tirar o pé este ano não foi ruim. Consolidamos a corrida, que se tornou um sucesso. Então se for para fazer de qualquer jeito é melhor não fazer. Mas tenho esperanças de que o Brasil estará de volta ao calendário no ano que vem.

N.R.: O LANCE! apurou que existem negociações para que uma corrida especial, sem pontuação para o campeonato, seja realizada ainda neste ano no Brasil e que no ano que vem ela esteja no campeonato. A prova não ocorreria na cidade de São Paulo.

Falando um pouco sobre o seu triunfo nas 500 Milhas de Indianápolis, como foi o pós-vitória? O que mudou na sua vida?
Ainda está mudando. Foi muito difícil entender que eu tinha ganho. Acho que até uns três meses depois ainda não tinha me dado conta. As pessoas passam a te respeitar mais, os convites aparecem. Foi a maior conquista da minha vida profissional. Lá no fundo, apenas eu acreditava ser possível.

                                                                       Tony tem seu rosto do troféu das 500 Milhas

Todos os vencedores das 500 Milhas recebem um anel. O Helio Castroneves sempre está usando o dele. O que você faz com o seu?
Meu anel está guardadinho. Nunca usei ele. Não decidi o que vou fazer. Em um evento ou outro, é capaz de usar. Mas nunca fui um cara de usar anéis, então acho difícil que eu esteja sempre com ele.

Em 2012, após a temporada da Indy, você fez duas corridas na Stock Car. Pretende participar de alguma prova em 2014?
Vai depender da equipe me deixar. Acho muito difícil que antes do nosso campeonato começar o Chip deixe eu fazer qualquer coisa. Mas como nossa temporada termina no dia 30, terei muito tempo livre. Mas aí é questão de conversar lá.