icons.title signature.placeholder Eduardo Mendes
13/03/2014
08:06

Olaria e São João da Barra se enfrentaram na quarta-feira pela sétima rodada da Segundona Carioca na rua Bariri. Apesar dos portões fechados por falta de laudo dos bombeiros, alguns sócios do clube conseguiram uma brecha e acompanharam a partida de dentro da sede. Um deles, ao ver a reportagem do L!Net, questionou:

– Cheio de imprensa hoje aqui. É por causa do Andrade, não é? Campeão brasileiro... Vão falar alguma coisa do Olaria?

Realmente, a presença do técnico que levou o Flamengo ao título brasileiro de 2009 na Série B do Rio é um atrativo à parte. Depois de passagens por Brasiliense, Paysandu e Boavista, o técnico não vê como demérito recomeçar a carreira em um clube que tem menos de cinco anos de existência.

– A cobrança é a mesma pelo resultado, estando na Série A ou a Série B, como estou hoje. Você vive 24 horas dentro do futebol. É um desafio como você tem em um clube grande. Talvez seja um pouco diferente, mas temos o desafio de levar esse time à Primeira Divisão. Sinto-me bem, a cidade me recebeu com muito carinho. E isso é importante – comentou.

A nova realidade é bem administrada pelo treinador. O São João da Barra viajou 316 quilômetros até o Rio, na terça, e ficou hospedado em um hotel modesto, na Lapa. Bem diferente da luxuosa concentração do Flamengo na Barra da Tijuca. Logo após a partida, o time retornaria de ônibus com o time júnior, que disputou a preliminar contra o Olaria.

Até o relacionamento com a imprensa mudou. Andrade quebrou o protocolo, falou com a reportagem na beira do campo antes do jogo enquanto acompanhava o time sub-20 e, depois, atendeu os outros jornalistas no centro do campo.

– No clube grande você tem a facilidade para tudo: viagem, estrutura... Aqui você tem mais dificuldades por ter um orçamento mais apertado. E tem de procurar viver com essas dificuldades, buscar soluções e até mesmo improvisar – disse.

Com contrato apenas até junho, quando se encerra a Segundona do Rio de Janeiro, Andrade, por ora, não tem planos e sabe que pode ficar novamente à margem no mercado à espera de nova oportunidade.

– Se subirmos para a Primeira Divisão tem chance de uma conversa. Vamos ver se chega à Série A e conversamos ou vamos buscar uma outra situação – admitiu o técnico.

Goleada quebra invencibilidade

A invencibilidade do São João da Barra foi pulverizada pelo Olaria. Em partida disputada às 15h30 e sob forte calor, a equipe de Andrade foi facilmente envolvida pelos mandantes e sofreu uma goleada por 4 a 1. Até então, o time havia obtido duas vitórias e empatado outros dois jogos.

Sereno, Andrade manteve praticamente a mesma postura durante os 90 minutos. Com braços cruzados, o treinador pouco alterou o tom de voz até mesmo para reclamar da arbitragem em alguns lances.

Antes do jogo, alguns jogadores do Olaria foram até o técnico cumprimentá-lo. Cena que voltou a se repetir após a derrota do São João. Andrade até posou para fotos com alguns jornalistas.

Quando os jogadores faziam aquecimento, o L!Net pediu ao técnico que ele posasse para algumas fotos. Apesar da timidez, Andrade aceitou e ouviu dos comandados: “Está famoso, professor”.

(São João da Barra foi goleado pelo Olaria)

Um acerto inusitado

Sem um responsável por gerir a carreira, Andrade teve um acerto inusitado com o São João da Barra no fim do ano passado. Um intermediário foi o responsável por levar o nome do técnico à diretoria.

– O convite chegou por meio de Ademir Menezes, que foi um grande repórter. Ele perguntou se tinha interesse e que passaria meu telefone. Sentei, depois, com a diretoria e chegamos a um acordo – contou.

A falta de um empresário, inclusive, é um fator que Andrade aponta para a falta de oportunidade em um grande centro após 2010.

– Busquei, mas não consegui e achei melhor seguir sozinho. Sei que hoje que os empresários mandam no futebol – disse.

BATE-BOLA

ANDRADE - Em entrevista ao LANCE!Net

Recebeu outros convites antes de acertar com o São João da Barra?

Tive de convites de outros clubes da Segunda e da Terceira, mas achei que não era interessante naquele momento por circunstâncias de salário, sabemos que alguns clubes não pagam. Achei melhor ficar aqui, com a família. O São João da Barra é um clube menor, mas paga em dia e tem estrutura.

Você tem algumas perspectiva de voltar a dirigir um clube da Série A do Brasil?

Na vida tudo é possível. Há muitos altos e baixos, especialmente dentro do futebol. As coisas acontecem rapidamente e quem sabe não possa surgir uma oportunidade em um clube grande ou até mesmo fora do país? Penso muito nisso e acredito que pode acontecer. Não acho que esteja em baixa hoje. Estou curtindo, estou vivendo, voltei a trabalhar e fazer aquilo que mais gosto. Não estou ansioso.

Depois que saiu do Flamengo chegou a fazer algum curso ou especialização?

Não. Continuei acompanhando o Campeonato Brasileiro, Série B, Série C, jogos lá fora. Acompanho tudo para saber se há alguma novidade em termos táticos e de posicionamento. Sempre busco me atualizar.

Como avalia a passagem pelo Flamengo?

Aproveitei bem essa oportunidade. Fui campeão brasileiro depois de 17 anos, pela primeira vez o Flamengo foi campeão por pontos corridos, cheguei à final do Carioca contra o Botafogo, disputando duas competições e tinha um elenco reduzido com 18 jogadores. Depois deixei o time classificado para as oitavas de final da Libertadores. Em oito meses fiz um currículo que outro treinador brasileiro não consegue fazer em toda a carreira. Acho que fiz minha parte bem, hoje sou recordista de títulos brasileiros, cinco como jogador e um como treinador. Então não tenho de lamentar e só agradecer.

Você trabalhou com jogadores tarimbados no Flamengo como Adriano e Petkovic. Como é o grupo do São João?

Temos um grupo que não tem estrelas. São jogadores que estão no início de carreira ou alguns como Rondinelli, que já rodou por outros menores. É bem fácil de trabalhar. Mas aquele grupo do Flamengo não era difícil de lidar. Todo mundo falava do Adriano, mas a dificuldade tinha quando ele não chegava para treinar. Mas no dia a dia era tranquilo, assim como Pet, Léo Moura, Angelim, Maldonado... Não tive trabalho com eles.

Ainda tem contato com o Adriano ou algum outro jogador campeão brasileiro em 2009?

Na verdade não tive contato com nenhum deles. A não ser quando se encontra em algum evento esportivo esporadicamente, como em jogos de fim de ano. Torço pelo sucesso do Adriano. Ele merece voltar. É uma excelente pessoa.

E como é a relação com os antigos companheiros? Eles ligam para dar um apoio?

Alguns tenho contato sempre como Adílio, Júlio César, Rondinelli e outros encontrei agora no Carnaval na homenagem da Imperatriz para o Zico. Alguns não conversava há muito tempo como Raúl, Lico...É bom rever os antigos companheiros.

Jayme de Almeida pode ter a sequência que você não teve no Flamengo?

Acredito que sim. Até porque a diretoria é outra, não é a mesma da minha época. São pessoas sensatas e mais justas, então vão reconhecer o ótimo trabalho feito por ele.

(Andrade fez contrato até o fim do Estadual)