icons.title signature.placeholder Leo Burlá e Michel Castellar
07/03/2014
07:02

Desde que assumiu, em 2010, um cargo no Comitê Organizador Local (COL), primeiro como diretor de Operações e, posteriormente, como CEO, Ricardo Trade, repete um mantra: 'tudo ficará pronto, em tempo e faremos um grande evento'.

A 97 dias do início do mundial brasileiro, o executivo segue firme em sua convicção e, nesta entrevista exclusiva ao LANCE!, falou sem pudores sobre os atrasos nas obras.

Trade revelou as soluções encontradas para minimizar os problemas e destacou que entregar tardiamente uma obra é pertinente a qualquer grande evento, seja em edições de Copas do Mundo ou em Olimpíadas.

– Os atrasos fizeram com que diminuíssemos os testes nos estádios e isso dá muito mais trabalho na Copa. Mas vamos falar em português claro: os estádios vão ficar prontos, tenho 290% de certeza – frisou Trade.

Confira a íntegra desta entrevista.

Pelo menos quatro estádios, Cuiabá, Curitiba, Manaus e São Paulo serão entregues em cima da hora. Mas tem setores, por exemplo, o tecnológico que precisam de tempo para serem testados. Como resolver isso?

O que fizemos com as construtoras e os responsáveis pelos estádios foi: se São Paulo vai entregar depois, tudo bem. Mas me entregue primeiro as duas salas de tecnologia, instale o ar-condicionado e faça todos os cabeamentos. Isso foi um aprendizado da Copa das Confederações, que nos mostrou que existem coisas que, mesmo com a entrega tardia, não podem ficar para depois. É, aí, que entramos e definimos as prioridades dentro dessa entrega tardia.

Mas isso não é o famoso jeitinho brasileiro?

Não é jeitinho. É trabalhar com o cronograma. Por exemplo, para o construtor, de repente, ele vai achar que uma escada tem de estar pronta antes de termos o cabeamento. Para mim, preciso do cabeamento para fazer os testes e, a escada, sei que pode ficar pronta na hora do jogo. Então, esse ajuste fino que vai resolver nosso problema de entrega tardia. Agora, nunca uma entrega tardia é boa.

E que aprendizado o episódio que envolveu a quase exclusão de Curitiba como sede da Copa trouxe para a organização?

Estamos cada vez mais próximos das cidades. Na semana passada, estive em Curitiba, junto com as autoridades locais, os representantes dos governos e vimos os avanços feitos. E fiquei impressionado. E esse corpo-a-corpo, os cronogramas, hoje temos uma equipe morando no estádio, só ajudou na solução dos problemas.

Como testar esses estádios a tempo da Copa do Mundo?

Vamos caprichar nos eventos-testes. Com a Fifa, decidimos realizar seis grandes eventos-testes em cada estádio que não participou da Copa das Confederações. Além disso, decidimos incluir Brasília, que só realizou um jogo (a abertura). Outros eventos-testes menores também serão realizados. Por exemplo, no dia 29 temos a intenção de fazer um evento para dez mil pessoas em Curitiba e, em abril, o teste oficial.

Mas esse atraso pode influenciar na má operação dos estádios durante a Copa do Mundo?

Cidades como Curitiba e São Paulo não me preocupam porque estão acostumadas a realizar grande eventos. Mas, por exemplo, com Cuiabá e Manaus vamos ter uma atenção especial. Já conversei com os secretários e governadores locais. Faremos com eles um treinamento em parceria com a Fifa. Uma das decisões foi a de trazer esses profissionais para um treinamento em Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Isso já será um legado, porque eles acompanharão a realização de jogos nesses estádios antes do início da Copa. E essa é uma solução para mitigar o atraso.

O senhor falou em aprendizados da Copa das Confederações que ajudaram na superação dos atrasos. Cite outros.

A Fifa decidiu antecipar a abertura dos Centro de Ingressos e o fará em 15 de abril. Além disso, para a Copa do Mundo, quem quiser receber o seu ingresso em casa, poderá. Basta pagar uma taxa, algo que não pôde ser feito na Copa das Confederações. Também colocaremos um Centro de Ingressos nos aeroportos das cidades que realizarão mais de quatro partidas. Outro aprendizado foi com os serviços de alimentação. O concessionário chegava ao local e não tinha água, saídas para gás, tomadas elétricas, o piso era de cimento. Conversamos com as empreiteiras para entregar tudo de maneira uniforme e completa. Porque se deixarmos para quando o concessionário assumir, perderemos tempo e dinheiro. Outro detalhe é que precisamos melhorar o serviço de voluntariado. Em algumas áreas detectamos a falta de voluntários que fale outras línguas e já alocaremos pessoas para esse problema não ocorrer na Copa do Mundo. A maioria destas coisas vem acoplada a essa entrega tardia.

Só que essa entrega tardia criou um clima de que o Brasil não terminará as obras. O que acha dessa imagem atual da Copa?

Normal. E ressalto: em qualquer grande evento no mundo todos dizem que a sede não vai entregar e que está tudo atrasado. Falo em relação a Londres (Jogos Olímpicos-2012), Pequim (Jogos Olímpicos-2008), Alemanha (Copa-2006) e África do Sul (Copa-2010). Agora mesmo nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, todo mundo dizendo que as obras não iriam ficar prontas e ficou. Vamos uma Copa do Mundo melhor do que a Copa das Confederações porque erramos e vamos ajustar. Poderemos continuar a errar em algo, mas vamos fazer melhor.

Mas essa imagem, com os atrasos, não deixa de ser verdadeira e prejudicar a Copa no Brasil?

Realmente, mas volto a dizer que em todo grande evento do mundo existe isso. E no final se entrega. Ficam falando o tempo inteiro em atraso. É claro que se tudo ficasse pronto a seis meses do início das partidas, realizamos mais testes e nos preparamos melhor. Nunca neguei isso. E, aqui, elogio Belo Horizonte e Fortaleza que cumpriram seus prazos e não tiveram problemas. Ao contrário do Maracanã e Recife que entregaram em cima do prazo e tivemos de superar alguns obstáculos até embalarmos após o segundo jogo.

Mas esse seu discurso parece uma tentativa de defesa e isenção de culpa.

Esse é ponto importante. Para mim, essa imagem de atraso que se apresenta em todos os grandes eventos internacionais é verdade. Não falo isso para proteger o COL ou os governos. Pegue as matérias do início da preparação de Pequim, Londres, Sochi, África do Sul ou Alemanha, todas vão falar de atraso, porque dá notícia. Mas, realmente, em alguns momentos há atrasos sim.

Só que a falta de obras concluídas, como as de mobilidade, não contribuem para a rejeição da Copa junto a população?

Tenho aqui em minha pasta tudo o que vai ser entregue em obras de mobilidade. Que essas obras não fiquem prontas para a Copa mas que fiquem para o País. Esse é um mérito nosso. Se não tivermos o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) em Manaus para a Copa, o teremos depois, é um legado. Aceleramos várias obras que não ocorreriam em nosso País, por causa tanto da Copa do Mundo quanto dos Jogos Olímpicos de 2016. Vejam os hotéis que estão em construção no Rio para 2016. Cuiabá terá várias obras de mobilidade e tudo por causa da Copa do Mundo.

O problema é que, até agora, a população ainda não viu nada pronto, nenhum BRT (corredor expresso de ônibus) em funcionamento?

Sochi, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano, só viu algum benefício depois, porque tudo ficou pronto em cima da hora. Você acha que teríamos 4G (serviço de telefonia móvel) já instalado nas 12 cidades se não tivéssemos a Copa? Você acha que teríamos essas obras nas cidades? Isso não é um legado? Talvez, algumas coisas não tenham ficado prontas, mas vão ficar prontas para a Copa ou para depois. Como cidadão, também quero saúde e educação. Mas a justificativa apresentada pelo governo é a de que a Copa não afeta a distribuição das verbas destinadas tanto à educação quanto para a saúde.

Então, o senhor considera o atraso normal, porque é pertinente à preparação de grandes eventos e, mesmo não sem a obras estarem concluídas para a Copa, representarão um legado?

Com certeza. É um grande legado. A Fifa nunca pediu que o aeroporto ficasse pronto para a Copa. Esse é um grande erro que as pessoas falam. Por exemplo, nos Jogos Pan-Americanos de 2007, não existe um documento prometendo obras. Um governante chegou e falou que iria fazer isso e aquilo. Nós nunca prometemos para a Fifa que as obras ficaram prontas.

Mas existe a matriz dos projetos de mobilidade...

Isso é um documento entre governos, nada com a Fifa.

Aos olhos do cidadão comum, as obras teriam de ser feitas para a Copa e foram pedidas pela Fifa...

Mostre esse documento. Não há pedido algum da Fifa.

O senhor tem a percepção de que essa imagem afugentou o turista estrangeiro?

Talvez, as manifestações tenham afugentado um pouco. O Ronaldo (Nazário) e alguns representantes da Fifa falam isso. Os familiares de pessoas da Fifa ficaram assustados na Copa das Confederações, parecia uma guerra civil. No fim, a vontade de vir para o país do futebol e ao Maracanã é maior do que isso. Nós temos de tratar bem essas pessoas no hotel, no estádio e no aeroporto. Precisamos melhorar nossa imagem para que o Brasil receba muito mais turistas.

O COL trabalha com um cenário de manifestações na Copa?

Isto afeta a operação de segurança pública, não a minha. Não precisaremos aumentar o número de segurança privada nos estádios por de possíveis manifestações.

O senhor demonstra muita tranquilidade, apesar dos problemas. Como consegue?

Tire minhas fábricas, rodovias, estações de trem, mas deixe minha equipe. Nossa equipe é boa, as cidades querem entregar suas obras e fazer um belo espetáculo.


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