icons.title signature.placeholder Bruno Cassucci
08/02/2015
09:00

Se equilibrando para não ultrapassar a linha tênue que separa confiança e arrogância, Ricardo Oliveira fala firme. Não há dúvida, desconfiança ou medo nas suas palavras. Com um contrato de apenas quatro meses e um dos menores salários do Santos, o camisa 9 demonstra convicção em acabar com toda a incerteza de torcedores, críticos e até dirigentes que paira sobre ele. Mais do que isso: se coloca como um líder do elenco, exemplo para os mais jovens e diz que os 34 anos ainda não fazem peso algum sobre suas costas ou pernas.

Não é por acaso. O atacante fala embasado em números e testes. Ao chegar no Peixe, Ricardo surpreendeu a comissão técnica alvinegra. Sem jogar uma partida oficial há seis meses, o atleta (segundo mais velho do elenco, atrás apenas de Renato, de 35) obteve um dos melhores resultados nos exames da pré-temporada, fruto de uma genética privilegiada e muito treino. Até por isso, afirma que nem sequer pensa na aposentadoria.

Disciplinado e dizendo-se apaixonado pelo futebol, o camisa 9 ambiciona não só o título paulista, como também a artilharia estadual. Hoje ele dará um passo importante nessa busca, quando será titular do Santos pela primeira vez em seu retorno ao clube após 12 anos. Na vaga de Thiago Ribeiro e ao lado de Robinho e Geuvânio, ele comandará o ataque alvinegro contra o Red Bull, às 19h30, em São José do Rio Preto.

– O torcedor pode me cobrar!

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LANCE!Net: Quando seu nome começou a ser especulado no clube, até mesmo dirigentes desconfiaram se a contratação seria interessante. Você em algum momento duvidou se seria capaz de ainda jogar em alto nível no Brasil?

Ricardo Oliveira: - Nunca tive dúvida de mim. Sempre tive muita confiança, porque sou um cara disciplinado, sei do meu corpo, sei que ele está me respondendo bem, que posso puxar o máximo que ele irá responder. Não iria me submeter ao ridículo, até porque construí uma história bonita e conquistei aquilo que nunca sonhei. Estou feliz com o que fiz até hoje, mas ambicioso para continuar escrevendo uma nova história. Mas entendo que é normal a desconfiança pelo fato de as pessoas não acompanharem o futebol lá da Arábia. Respeito, mas eu acho que tudo vai ficar muito claro durante a competição. Nos meus treinos e pelos resultados físicos e clínicos já é possível ver. Agora busco meu espaço.

Os médicos elogiaram muito seus resultados. A que atribuiu isso?

- Sou muito preocupado com essa parte, porque estando bem nisso, dentro do campo é questão só de adaptação. Estou num nível ideal!

Você se cobra muito?

- Não estou sendo um jogador de futebol que passou a se preocupar e a se cuidar aos 30 anos para prolongar a carreira. Já venho assim desde a base, sempre me cuidei. Quando estava sem clube, fazia musculação, corria no bairro, cuidava da minha alimentação, sempre fui disciplinado. Eu treino como eu jogo. Não posso treinar 70%, 80%. Sei dosar, mas não posso treinar de um jeito e jogar de outro.

Você não joga um jogo inteiro há muito tempo. Como será a volta?

- Eu não parei em nenhum momento. Meu último jogo foi em junho, mas vinha fazendo meu trabalho, corrida, academia, sempre me cuidando. É importante falar uma coisa: em 2014 rejeitei propostas. Me apresentaram projetos nos quais não senti confiança. Era como se eu tivesse que chegar para resolver a situação de um clube que não estava vivendo um bom momento. Decidi não aceitar, correndo o risco de ficar parado todo esse tempo. Podia me queimar. Hoje tenho plena convicção de que acertei.

Mas qual o projeto do Santos? Te deram um contrato muito curto.

- Se eu não aceito, estou demonstrando que sou fraco e não confio no meu potencial. Gostaria de um contrato de um ano, é óbvio, mas aceito de cinco meses. Por que? Confiança. Depois vou esperar o posicionamento do clube, se eles (dirigentes) vão querer que eu permaneça aqui. Mas vou fazer de tudo para que isso aconteça. Não duvidei em nenhum momento, tanto que o valor que acertamos é dos mais baixos dentro do clube. Isso não interfere em nada pra mim. O que importa para mim é ser exemplo, transmitir experiencia aos jovens... Gosto de dar conselho, ajudar, esse projeto me seduziu, foi um desafio para mim. Não sou aquele garotinho, mas a qualidade continua aqui e os resultados virão quando eu jogar.

O que te motiva a jogar um Paulistão após vencer a Liga dos Campeões, atuar pela Seleção...?

- A paixão, o amor pelo futebol. A gente precisa tentar deixar o legado para as pessoas de que não é só o dinheiro que importa. A gente trabalha, é claro, vai ser remunerado. Mas o que não pode perder é a paixão, alegria. Antes eu não tinha condição de nada, jogava descalço no asfalto, machucava o pé todo e no outro dia estava lá jogando de novo. Hoje recebo para isso e costumo dizer que jamais vou conseguir retribuir o que o futebol me deu. E, sem fazer demagogia, é óbvio que motiva vestir a camisa do Santos, um dos maiores clubes e mais dos mais vencedores.

Hoje, aos 34 anos, com qual idade pensa em se aposentar?

- Não penso. Aprendi isso com o Cafu, quando cheguei no Milan em 2006. Admirando a capacidade física e inteligência dele, Maldini, Costacurta, Nesta... fiquei com vergonha, pois não treinava igual aos caras. Perguntei sobre aposentadoria ao Cafu e ele falou: “Garoto, nunca estabeleci data, deixo acontecer. Enquanto estiver feliz e o corpo respondendo, eu vou.” Farei isso. Se você fala em jogar até os 38, com 34 já começa a cair.


- Com a palavra: Luiz Fernando Barros, fisiologista do Santos

Ele nos surpreendeu, porque não estávamos acompanhando o Ricardo de perto no futebol árabe. Um jogador já com idade avançada, a gente espera que esteja abaixo dos demais, é uma coisa normal até. Mas o que a gente observou foi justamente o contrário, ele se mostrou na média do grupo ou até mesmo acima, como nos testes aeróbicos, de potência, de força. Ele se mostrou surpreendentemente bem pela idade que tem, pelo futebol em que estava, foi muito surpreendente. Se eu recebesse o exame sem saber de quem se tratava, não imaginaria que era dele. Não esperava o Ricardo tão bem.

Isso tem a ver com um dom genético que ele tem, mas também muito cuidado com o físico. Ele deve ter genética privilegiada, sempre foi forte, mas certamente tem parte do cuidado que ele tem. Às vezes o jogador tem lesão, como o Ricardo teve no joelho, e aumenta a preocupação, porque sabe que não se cuidar a carreira vai chegar logo no fim. Isso provavelmente tenha feito o Ricardo diferente nesse quesito. Tanto a parte de peso, musculação... ele faz acima dos demais!

Claro que ele inspira cuidados especiais, não pode ser tratado como um atleta de 20. Ainda precisamos ver como ele irá se recuperar após uma partida de 90 minutos, mas vou ter que ter um cuidado maior antes de descobrir.


- Com a palavra: Carlito Macedo, preparador físico do Peixe

Não me surpreendi porque trabalhei nos Emirados Árabes e pude acompanhar o desempenho dele lá. Além disso, era amigo do preparador físico do clube dele. A parte física dele está perfeita, é um jogador de 34 anos que se cuida muito.

Treina-se muito e joga-se pouco nos Emirados. Muitas vezes o jogador tem que ficar longos períodos treinando porque as seleções jogam demais e os campeonatos param.

Com relação ao ritmo de jogo, ele pode sentir, mas é um jogador experiente, que sabe se colocar em campo, sabe dosar.