icons.title signature.placeholder Lucas Faraldo
05/11/2014
19:37

Há uns bons meses, a mídia (online, impressa, TV, rádio...) trata Fernanda Colombo Uliana como "bandeirinha musa", seja para noticiar erros, acertos, declarações polêmicas e até galerias de fotos da auxiliar.

Nessa terça-feira, em conversa com o site da ESPN Brasil, Delfim Peixoto, presidente da Federação Catarinense, revelou ter excluído Fernanda do quadro de arbitragem de Santa Catarina por suposta falta de profissionalismo.

– Não tinha mais motivo para ficar aqui. Ela queria ser vedete, queria ser modelo. Eu disse, então, que ela não trabalhava mais aqui. Quero moças, sim, mas tem que ser profissional (...) Começou a querer aparecer em tudo que é revista. Mostrar a coxa, mostrar a bunda. Não é assim que funciona por aqui – disse o homem de 73 anos.

Ao fazer diversas insinuações sobre Fernanda, o cartola (que também é advogado e ex-deputado) reforçou a retrógrada ideia de que futebol é espaço exclusivo para a "seleta" classe dos machos. Se for trocada meia dúzia de palavras da machista declaração de Delfim, poderíamos reconstruir qualquer outro discurso de ódio (racista, homofóbico, etc.).

Fernanda não pediu para ser chamada de "bandeirinha musa". Acusá-la de falta de profissionalismo pela exposição que a mídia faz de sua imagem é reproduzir a lógica do "ela está usando roupas 'provocantes' então pediu para ser estuprada".

Fernanda não pediu para ser assunto em programas esportivos e rodas de bares. Se ela é, isso somente retrata a machista sociedade em que vivemos.

Se um motorista leva uma fechada de uma mulher no trânsito, vocifera seu discurso pré-histórico. Se leva uma fechada de um homem, prepara-se para ofendê-la, até perceber que ela é ele e então dar um constrangido sorriso amarelo.

Esse é só um exemplo. Lembram da torcedora do Bahia que deixou seu sutiã aparecer no ano passado? Ela foi tratada como pedaço de carne por ter "se descuidado". Já parou para pensar por que homens podem ficar sem camisa nos estádios e mulheres, não?

Muitos homens nem desconfiam, mas mulheres deixam de sair à rua com saias ou shorts por medo de serem assediadas, com medo de serem estupradas. Nas arquibancadas, a lógica é a mesma.

Do jeito que estamos (a passos largos rumo ao tempo das cavernas), não me surpreenderia a CBF distribuir burcas para bandeirinhas, torcedoras e quaisquer desses estranhos seres do sexo feminino que ousarem entrar no mundo do futebol.

(Foto: Mauro Horita/AFP)