icons.title signature.placeholder Caio Carrieri
17/06/2014
08:04

Poucos têm o privilégio de disputar uma Copa do Mundo. Imagine duas. Três. Quatro. Cinco. Não à toa, Antonio Carbajal, ex-goleiro do México e recordista em participações em Mundiais (1950, 1954, 1958, 1962 e 1966) ao lado do alemão Lothar Matthäus, carrega a proeza até no e-mail: cincocopas1929@...

Esta entrevista ao LANCE!Net, no entanto, aconteceu por telefone. O assunto do endereço eletrônico surgiu depois do bate-papo, durante o qual ele, aos 85 anos e residente de León (MEX), relembrou em detalhes impressionantes a sua farta trajetória no futebol - que inclui duas partidas de Copa contra o Brasil -, e não se mostrou muito empolgado com a seleção mexicana, que enfrenta o Brasil às 16h desta terça, no Castelão, em Fortaleza.

Confira a entrevista completa abaixo:

LANCE!Net: Como foi representar o México em cinco Mundiais?
Carbajal: Foi uma satisfação enorme representar o meu país. Estive nas Olimpíadas de Londres em 1948, no pós-guerra, mas eu não conto porque não joguei. Me determinei a disputar um Mundial e me preparei muito para jogar o melhor possível no Brasil. Depois fui indo, indo, indo e cheguei até 1966 (risos). Na Inglaterra, depois que o Uruguai não fez gol em mim na última partida da primeira fase (0 a 0), mas fomos desclassificados, vi que era o momento para deixar o futebol.

Qual a Copa mais especial?
A de 1962, porque fizemos um belo papel contra grandes seleções, a começar pelo Brasil, que era fantástico e seria campeão. Depois, jogamos contra a Espanha. Foi o jogo que mais me doeu na vida. Perdemos no minuto 92 com um gol de Peiró (1 a 0). Em seguida jogamos contra Tchecoslováquia, a futura vice-campeã, e com 30 segundos estávamos perdendo por 1 a 0. Depois, bravos, revertemos (3 a 1). Foi fantástico fazer parte da chave mais forte, jogar contra o campeão e ganhar do vice-campeão.

O que se recorda do jogo contra o Brasil em 1950, o primeiro daquela Copa?
Eu me lembro muito bem, foi muito lindo porque eu nunca tinha jogado para tanta gente. Eram 200 mil torcedores gritando "Brasil, Brasil, Brasil". Se não me engano, foi com o minuto 34 que o senhor Ademir fez o primeiro gol em mim. Levamos um do Jair no segundo tempo, depois do Baltazar, Cabecinha de Ouro, e o Ademir fez o último (4 a 0).

Como viu o Maracanazo?
Fui ao jogo e estava no escanteio do gol de Barbosa e me pergunto: onde estavam Bigode e Danilo no lance do gol do Ghiggia, o da virada? Por que crucificaram o Barbosa? Por que quem perdeu a bola não o seguiu? Onde estavam os marcadores? Posteriormente, voltei ao Rio de Janeiro, perguntei onde estava o Barbosa e me inteirei que ele trabalhava como jardineiro em algum campo. Eu fiquei muito incomodado por tudo o que fizeram com ele. Era um ser humano e todos cometem erros. Tinham que marcar o Ghiggia! Quero saber que ser humano nunca errou na vida.

Qual a recordação mais marcante daquele dia no Rio?
Gostei muito do respeito que o Uruguai demonstrou ao ver a tristeza da torcida brasileira. Não desfrutou da volta olímpica por causa da dor que existia dentro do estádio. Foi o maior silêncio que já escutei na minha vida. As pessoas ficaram muito tempo dentro do estádio depois do jogo. O Brasil já se sentia campeão, então a frustração foi enorme.

De que maneira conseguiu permanecer no Brasil para assistir à final trágica?
Fiquei porque tive uma permissão da Federação Mexicana para aprender futebol, porque desde então já pensava em ser treinador. O posto de treinador lhe permite aprender muitas coisas assistindo aos jogos. Então eu comprei um ingresso do meu dinheiro com a ajuda da Federação.

Qual comparativo entre o ambiente vivido no Brasil em 1950 e o desta Copa?
Agora vejo um Brasil com muitos problemas. É uma pena. Creio que as autoridades vão estar distantes do povo, porque terão de ir aos estádios cercadas por policais.

Por que não jogou contra o Brasil na Copa de 1954?
Machuquei a mão, queria jogar, mas nosso treinador não deixou.

Qual brasileiro o impressionou nos duelos de 1950 e 1962?
De 1950 me lembro muito de Danilo, Bigode, Friaça. O Baltazar me impressionou porque era um grande cabeceador. Em 1962, gostei de quase todos os jogadores. O Garrincha, por exemplo, tínhamos quatro jogadores reservados só para marcá-lo.

Deu medo de enfrentar o Pelé na Copa de 1962?
Sempre gostei de enfrentar os melhores jogadores do mundo. Se ganho, ganho do melhor jogador do mundo. Se perco, perco do melhor do mundo.

Para quem não o viu jogar, como era o seu estilo em campo?
Eu comandava a minha equipe e era um exemplo. Nunca fui um goleiro saltador, sempre gostava de me posicionar. À medida que fomos para o meu segundo Mundial, me colocaram como capitão da equipe. Eu tinha um panorama muito geral do time da posição do campo que eu ocupava. Tentava ser um líder direito, com toda a honra necessária, não como fazem os políticos, que são convenientes e trabalham para si.

Qual foi o melhor goleiro que o senhor já viu?
Houve vários, mas destaco Mazurkiewicz (uruguaio). Foi quem mais gostei, porque pude enfrentá-lo em 1966. Mas é claro que existiram grandes nomes, como Gordon Banks.

Gosta dos goleiros convocados por Miguel Herrera?
Os três são muito bons goleiros, mas por que não colocar Corona? Ele tem uma qualidade extra que é sair jogando bem com os pés. É quem eu avalio melhor. O problema de Ochoa (titular) é que não sabe sair do gol nos cruzamentos, o que também é um defeito da defesa México. Eles não sabem se posicionar para acompanhar a trajetória da bola.

Até aonde o México pode ir?
Gostaria de estar errado, mas não creio que fará uma boa campanha. Não há quem crie para os atacantes. Não se vê nada no meio de campo, e o ataque é a principal fragilidade. O que prevalecerá agora é a confiança que o Piolho (apelido de Miguel Herrera, treinador da seleção) pode incutir em seus jogadores.

O Brasil está bem servido no gol pelo Julio Cesar?
Com o devido respeito que tenho por ele, o Brasil sempre se distinguiu mais por bons jogadores de linha do que por goleiros.

Quem é o melhor goleiro do mundo atualmente?
É muito difícil dizer, porque há vários bons nomes e depende muito da oportunidade que existe para acompanhar as partidas. Além disso, muitos fatores pesam nessa análise, como a regularidade, a capacidade de sair do gol, da maneira como comanda o time.


Embora não tenha jogado em 1998, Buffon completa a sua quinta Copa do Mundo defendendo a Itália. Qual a comparação que faz com ele?
Não deveria ser assim, porque eu não conto a Olimpíada de 1948. Ele é um grande goleiro que mantém um bom nível por muitos anos, o que é muito difícil no futebol.