icons.title signature.placeholder Luis Fernando Ramos
07/11/2014
07:07

A concentração é total. Nos dez minutos de uma conversa exclusiva com a reportagem do LANCE! nas instalações da equipe Williams em Interlagos (SP), o piloto finlandês Valtteri Bottas reproduziu com palavras a sua pilotagem na pista: direto, sem rodeios, mas tomando tempo para refletir diante de uma pergunta mais difícil. Ao microfone e ao volante, uma das grandes revelações da temporada 2014 da F-1 é 100% racional.

O nome disso é determinação. Sinal claro desde seus primeiros anos no automobilismo. Foram três títulos nas categorias de base, além de duas vitórias no prestigiado Masters de F-3, uma corrida anual que reúne a nata da categoria em todo o mundo. Desde aquela época, deixava para trás nomes do grid atual, como Daniel Ricciardo, Jules Bianchi, Esteban Gutierrez, Jean-Eric Vergne e Max Chilton.

Bottas não teve problemas em admitir ao LANCE!Net essa sua obsessão pelo sucesso. “Só estou na Fórmula 1 porque quero ser campeão do mundo”, cravou, afirmando que a maior pressão que recebe vem dele mesmo. Ao mesmo tempo, fica envergonhado ao saber que seu companheiro de equipe Felipe Massa vê nele todos os traços necessários para alcançar o objetivo.

Entre a modéstia e o foco no título, conheça Valtteri Bottas:

Você está em quarto lugar no Mundial de Pilotos, à frente de campeões como Sebastian Vettel, Fernando Alonso e Jenson Button. Como você se sente em relação a isso?
É bom, mas não é algo que você pensa muito. O fato de estarmos à frente de grandes nomes, eu como piloto e a Williams como equipe, é bom em termos de trabalho realizado. Mas não é algo que fique na cabeça.

Você esperaria algo assim no início desta temporada?
Com certeza não antes da pré-temporada. Mas os primeiros testes da Fórmula 1 foram muito bons e em Melbourne (AUS) vimos o potencial que a equipe tinha. Ali, mais ou menos nós já sabíamos qual a meta que deveríamos almejar para esta temporada na categoria.

Eu me lembro de falar com você e com o Felipe Massa no primeiro teste em Jerez e sentir muito otimismo. Ali já havia certeza que o ano da Williams seria bom?
É difícil dizer depois de só algumas vezes. Nos testes, os tempos não contam muito, pois você nunca sabe em que condições as outras equipes estão testando. Então, é melhor nunca esperar muito baseado na primeira impressão. Mas o que eu pude sentir, especialmente em relação ao carro do ano passado, era que tudo funcionava muito bem. O carro, em termos de aerodinâmica, não era nada difícil de pilotar, o que é sempre uma coisa boa.

O time começou bem o ano, deu uma caída, mas depois teve uma boa sequência de pódios. Dentro do carro, essa melhora de performance foi óbvia como foram os resultados?
Nós melhoramos o carro o tempo todo. Nossa última grande atualização foi em Suzuka, no Japão, e tivemos novidades praticamente a cada corrida até aquele ponto. Umas maiores ou outras menores. Sendo assim, o carro melhorou bastante, assim como nós como equipe, na nossa maneira de trabalhar nas estratégias, nas paradas nos boxes e no acerto do carro. Ainda não estamos no nosso ponto máximo de performance, mas nós estamos melhorando gradativamente.

Dá para chegar a este ponto máximo já no ano que vem?
(Longa pausa) Acho que vamos melhorar em 2015 e, com certeza, creio que poderemos lutar por posições melhores. Mas não é fácil já lutar pelo título. A Mercedes é muito forte e a Red Bull também. Queremos ser campeões, mas acho que não devemos apressar este processo. Ainda estamos evoluindo e a meta, ao menos por enquanto, é continuar fazendo isso no ano que vem. Tenho a confiança de que chegaremos lá.

Vendo a sua relação com o Felipe Massa, há de um lado uma grande harmonia entre os dois. Mas vejo também, depois de uma corrida, o quanto um fica chateado por chegar atrás do outro. Como vocês equilibram este contraste de emoções?
Nós dois aceitamos os resultados como ele são. Somos competitivos e queremos sempre ficar à frente do companheiro de equipe. Claro que quem fica atrás não gosta, justamente por esta natureza. Mas agora sabemos como aceitar. Estou muito feliz em trabalhar com o Felipe Massa nesta temporada e animado para fazê-lo novamente no ano que vem.

É difícil superá-lo?
Nunca é fácil. Ele tem muita experiência e para que eu termine à sua frente é preciso que eu dê 100%. Minhas classificações, ultimamente, tem sido boas, mas a volta sempre precisa ser excepcional para que eu possa ficar à frente dele. Em relação à nossa diferença de pontos, é preciso entender que ele realmente teve muito azar neste ano, e acabou perdendo pontos por conta disso.

Atrás da dupla da Mercedes nós temos Daniel Ricciardo em terceiro e você em quarto no campeonato. E vocês dois protagonizaram grandes disputas pelo título da Fórmula Renault, em 2008. Naquela época vocês se imaginavam repetindo este duelo na F-1?
(Sorrindo muito) Nós lutamos por aquele título até a última corrida naquele ano em Barcelona (ESP), eu fui campeão e ele vice. Claro que após uma temporada dessas você foca a Fórmula 1 como objetivo. Mas nunca dá para saber quem pode chegar lá com você. Ele certamente é um dos adversários mais duros que tive nas categorias de base e eu realmente gostei das brigas que tivemos naquela temporada e a de Silverstone (ING), em que ele me ultrapassou na última volta depois de uma briga intensa, foi um exemplo disso. É muito bacana repetir na F-1 estes duelos com alguém que já conheço há tantos anos.

Fiz uma entrevista com o Massa e ele afirmou que vê em você as características de um futuro campeão do mundo na Fórmula 1. Como você recebe isso?
(Visivelmente constrangido) É bom ouvir isso. É tudo o que posso dizer. Este é meu objetivo, só estou na F-1 porque quero ser campeão do mundo e farei todo o possível para chegar lá.

Você trabalha há muitos anos com o Toto Wolff como seu empresário, ele que também é chefe de equipe na Mercedes. Você vê seu futuro nessa equipe?
(Longa pausa) Eu não sei. No momento estou completamente comprometido com a Williams, tenho contrato com eles para o ano que vem e, no momento, só penso nas duas últimas corridas deste ano e na próxima temporada. Depois disso, eu não sei. Mas não é algo que eu penso nesse momento. Para mim seria importante ter um carro capaz de vencer corridas e lutar pelo título. E se for na Williams seria legal. É tudo o eu que posso dizer sobre isso.

Você chegou perto de vitórias neste ano, mas não conseguiu. Isto é uma decepção?
Claro. Tive dois segundos lugares, cheguei três vezes em terceiro. Só falta a vitória. Mas não é fácil ganhar neste ano, com os carros da Mercedes e da Red Bull. Mas se não acontecer neste ano, lembrando que faltam duas corridas, eu espero vencer na próxima temporada. Ganhar uma corrida é o próximo passo na minha carreira.

O Brasil é muito diferente da Finlândia em uma série de aspectos. Como você se sente visitando o nosso país?
É realmente muito diferente, o Brasil é um dos países mais diferentes da Finlândia, pois as pessoas são abertas, falam alto e mostram suas emoções. Um lugar como São Paulo traz várias pessoas concentradas num área pequena, o que é exatamente o oposto da Finlândia. É legal vir aqui justamente por ser tão diferente!

E em relação à corrida em si?
O circuito é muito bacana, ótimo de pilotar. E há muitos torcedores, aqui eu recebo muito apoio deles. Para um piloto finlandês, tirando os GPs da Hungria e do Japão, é no Brasil onde somos mais festejados, o que é legal.

Você é muito concentrado em sua carreira na Fórmula 1, então o que você costuma fazer quando tem algum tempo livre?
Gosto de praticar esportes, como corridas, ciclismo e tênis. Coisas que me ajudam a manter a forma para a Fórmula 1. Mas é algo que eu gosto muito, ajuda a tirar o stress. E gosto também de voltar à Finlândia para passar tempo com minha família, minha namorada e meus amigos, jogar hóquei sobre o gelo ou fazer tiro ao prato. Coisas normais.

Você fica muito estressado estando na Fórmula 1?
A pressão vem de mim mesmo, na verdade. Não de outras pessoas. Sempre estabeleci grandes objetivos para minha vida. Quero ter sucesso na Fórmula 1, isso é algo que vem de mim. Preciso admitir que trabalhar na Williams tem sido muito bom até aqui, porque a equipe não coloca nenhum tipo de pressão extra sobre mim, eu sinto que eles tentam me apoiar o tempo inteiro, o que é extremamente positivo.