icons.title signature.placeholder Bernardo Cruz e Luiz Gustavo Moreira
14/06/2014
11:58

Dida; Thuram, Blanc, Desailly e Roberto Carlos; Davids, Verón, Nedved e Zidane; Batistuta e Ronaldo. Existe algo em comum entre esses 11 jogadores, que formam uma verdadeira seleção do mundo da década de 90 e início dos anos 2000: todos jogaram em clubes italianos durante o período. Algo inimaginável nos dias de hoje, em que o Calcio vive um período de baixa e assiste ao domínio das ligas da Inglaterra - principalmente -, Espanha e Alemanha.

FALTA DE DINHEIRO E VIOLÊNCIA DIMINUEM PODERIO DO CALCIO

Um dos principais motivos para essa reviravolta é a crise econômica que assola as grandes equipes do país. Milan e Internazionale não possuem o mesmo poder para realizar contratações milionárias como antigamente. Atualmente, as equipes de Milão apostam em contratações a custo zero ou em jovens promessas. Contratações de peso? Só se algum figurão deixar o elenco e liberar espaço na folha salarial.

A falta de dinheiro se explica pela estagnação no modelo de administração do futebol local. A maior parte dos estádios de clubes grandes - Giuseppe Meazza e Olímpico, por exemplo - são administrados pelo governo e não geram muitos lucros para os clubes.

Outro ponto que ajuda a "marginalizar" o Calcio é a grande quantidade de brigas envolvendo torcidas. A mais recente foi na decisão da Copa da Itália, entre Napoli e Fiorentina, no Estádio Olímpico, em Roma, quando torcedores da equipe napolitana brigaram com policiais da capital (alguns relatos de jornais italianos dizem que a confusão foi com torcedores da Roma, rival histórico do Napoli). Quatro pessoas foram baleadas no confronto. Além disso, o jogo só foi iniciado após muita conversa e a liberação dada por Genny 'a Carogna, líder dos Mastiffs, um dos grupos ultrà (espécie de torcida organizada) mais influentes do Napoli, e que conversou diretamente com Marek Hamšík, meia dos Partenopei.

A Juventus é uma exceção, já que possui seu próprio estádio e tem condições de fazer contratações de impacto como a de Tevez, no início da última temporada. Isso explica muito a hegemonia atual da Velha Senhora, dentro e fora de campo.

ORGANIZAÇÃO E RECEITAS DE TV: ASCENSÃO DA PREMIER LEAGUE

A liga inglesa, por sua vez, vive o caminho inverso. A Premier League foi criada em 1992, para organizar um campeonato que estava praticamente no fundo do poço. Pouco atrativo dentro de campo desde o início da década de 80, fora dele os hooligans faziam a festa. E a tragédia de Hillsborough, estádio do Sheffield Wednesday, quando 95 pessoas morreram esmagadas na semifinal da FA Cup de 1989, entre Liverpool e Nottingham Forest, foi o estopim para a reviravolta.

Estádios foram reformados e a grade que separava a torcida do gramado foi abolida, para evitar novas tragédias. Com menos violência e mais conforto nos estádios, a torcida voltou a frequentar os jogos e as receitas dos clubes explodiram. Assim, as equipes tinham mais dinheiro para realizar contratações de peso. Bergkamp, Henry, Zola, Barthez... O número de estrelas do futebol mundial na Inglaterra começou a aumentar consideravelmente. Além disso, o país teve uma boa safra de jogadores como Beckham, Owen e Gerrard, ajudando a chamar os holofotes para o Reino Unido.

E além dos craques, o bom momento da Premier chamou a atenção de milionários - por vezes extravagantes - que desejavam investir em clubes. Chelsea e Manchester City são os principais expoentes disso. Tidos como clubes médios no país, hoje possuem elencos estelares e recheados de craques de todas as partes do mundo.

Para os apreciadores do futebol europeu, é uma pena ver o futebol italiano tão em baixa. Mas pelo que foi visto recentemente, só há espaço para um no topo das ligas do Velho Continente.

COM A PALAVRA - MASSIMO BASILE, JORNALISTA DO CORRIERE DELLO SPORT

A Serie A não tem mais o "appeal" que mostrou no passado. O principal motivo é financeiro: os clubes não têm dinheiro para comprar os craques. Hoje, o Milan deve vender alguém para poder comprar. E para adquirir um atacante de nível internacional, a Internazionale terá que vender Guarín ou Ranocchia. Isso mostra o baixo nível do Calcio.

O problema fica evidente com a situação dos estádios: só o da Juventus é moderno e privado, com uma estrutura que traz dinheiro. Os outros clubes não possuem um estádio privado, não têm uma estratégia de marketing como na Premier League ou na Espanha e muitas vezes vemos os estádios vazios. Isso é uma imagem feia e que não dá apelo.

A venda do Calcio para os canais de TV é outro problema: não gera muita capacidade de competir com as transmissões de Inglaterra e Alemanha. Os presidentes dos clubes preferem receber dinheiro da TV fechada do que organizar um sistema que não precise depender apenas disso.

Acho que a Itália vive uma crise geral: cultural, desportiva e moral. Isso afeta o Calcio também.

Não creio que seja possível ter uma solução rápida nos próximos dois anos, mas talvez exista uma luz no fim do túnel: Roma e Fiorentina são dois clubes que trabalham em cima de um projeto de estádio no estilo inglês. Pode ser o primeiro passo para mudar as coisas no futebol italiano.