icons.title signature.placeholder Bruno Cassucci
13/11/2014
07:10

Um santista de raíz. É assim que Modesto Roma Júnior se define. Filho de ex-presidente do clube, ele dedicou boa parte da sua vida ao Peixe. Jornalista, cuidou da comunicação alvinegra na década de 70. Nos anos 2000, ele voltou à direção na presidência de Marcelo Teixeira, quando foi supervisor administrativo e depois responsável pela formação de um time feminino repleto de craques.

Agora, aos 61 anos, Modesto tenta ser presidente pela primeira vez e é apontado até por seus oponentes como um dos favoritos na corrida eleitoral. Não é para menos. Além de investir alto na campanha, ele tem apoios políticos importantes. O do ex-presidente Teixeira talvez seja o principal. A força do ex-mandatário é tanta que há quem diga que ele terá mais poder que o próprio Modesto caso ele seja eleito em 6 dezembro.

– Não me vou colocar como laranja de ninguém. Não nasci ontem e não sou fantoche. Tenho história no clube – comenta, irritado, o candidato da chapa Santos Gigante, que agrega diversos grupos políticos de oposição.

Confira abaixo as principais ideias e propostas de Modesto apresentadas em entrevista na redação do LANCE!:

Você tem condição familiar, de saúde e financeira de se dedicar exclusivamente ao Santos por três anos?
Em 1985 eu fui para São Paulo fazer minha vida financeira. Trabalhei até 2010, quando pude me aposentar. De 2010 para cá tenho me dedicado a meus prazeres. Passei a tomar conta de um time de futebol feminino de Pernambuco como diversão e lazer, até pela minha amizade com as meninas. A minha vida de trabalho profissional terminou, agora posso trabalhar sem ser profissionalmente. Embora pense que está na hora de acabar com a hipocrisia, dirigente de clube tem que ser assalariado hoje. Não é a situação atual, já que o próprio estatuto proíbe qualquer pagamento ao presidente. Porém, sabemos que já houve presidente do Santos que era assalariado de forma indireta, o que é perigoso.

A quem o senhor se refere?
Vamos não falar nomes? Digamos que se sabe.

Se eleito, quais serão suas primeiras medidas? Há projetos emergenciais?
Nosso plano de gestão tem cinco grande eixos. O primeiro é o da renegociação da dívida, nós temos que pagá-la. Faremos isso com uma empresa especialista em gerir crise e renegociar dívidas. Essa empresa equacionaria o problema do clube. Além disso temos de fazer uma reorganização estrutural do clube. E estatuariamente, já que o Comitê de Gestão da forma que está é um erro, deveria ser um conselho de administração. Existem outros problemas estatutários. O quadro funcional do clube também precisa ser estudado. Não é caçar bruxa, não. Tem gente falando que quando eu assumir vou mandar todo mundo embora. Isso não é verdade. Mas vamos optar pela meritocracia, os competentes ficam.


Como seria essa reestruturação? A ideia é mudar o organograma?
Outro dia procurei o organograma do clube, porque diz o estatuto que esse é um dos elementos de governança do clube. E aí me disseram que não tinha. Então fiz um organograma...

Mas existe um organograma, com duas superintendencias, as gerências abaixo... Isso foi elaborado pela KPMG e apresentado no Conselho Deliberativo.
Eu pedi no Conselho. Existe o que diz no estatuto, as superintendências e a gerência. Mas falta uma cabeça para essas gerências.

Essa cabeça não é o Comitê?
Pois é, vamos pensar em uma coisa: a gestão é profissional?

Teoricamente, sim.
Então por que nove amadores do Comitê de Gestão são a cabeça? Falta um CEO aí. O Comitê de Gestão hoje é um engano, se fosse um conselho de administração que fizesse o planejamento do clube, ok. Mas a gestão do dia a dia é para ser feita por profissionais, os quais precisam ser cobrados.

Teria de haver uma reforma estatutária para isso?
Não, existe uma brecha no estatuto.

Criar esse cargo é só uma ideia ou um compromisso?
Sim, é um compromisso.

E esse profissional tem de ser santista?
A meritocracia é fundamental, mas ser santista é muito desejável.

Não obrigatório?
Penso que não, embora a pessoa que a gente está conversando seja santista.
 
Quem é?
Chama-se Dagoberto Santos, que foi superintendente na época do Marcelo (Teixeira). Depois ele foi secretário geral do Clube dos 13 e executivo do Atlético-PR. A ideia é que ele seja o CEO.

Esse cargo será remunerado apesar de ele ser santista?
Sim, claro. Uma coisa não exclui a outra.

O senhor se mostra contrário ao Comitê, mas antes de qualquer mudança estatutária terá de governar o clube com essa estrutura. Como pretende fazer? Cada membro do órgão cuidará de uma área específica?
Não, sabe por que? Porque assim você põe para amadores tarefas que é do profissional.

O que planeja para o Comitê?
Ele terá a função de planejar. O Santos precisa se planejar muito bem. E o Comitê será fiscalizador também, para que os profissionais cumpram o orçamento, estejam desempenhando bem suas funções... Ele vai ser um órgão de muito trabalho e que será muito exigido.

Um exemplo: o Comitê será ouvido antes da contratação de um jogador?
Em princípio, não. Mas o estatuto diz que se a operação for de um valor 20% acima do orçamento, o Comitê tem de ser ouvido. Existem regras. Não vamos gastar o dinheiro do orçamento todo em um jogador. Mas aí vamos colocar profissionais responsáveis. O que não vai ser discutido é o preço do cafezinho.

Retomando: quais serão as suas primeiras medidas?
Nós vimos o gabinete de crise, que vai gerir a renegociação da dívida, e a reestruturação organizacional. Aí vamos para o terceiro item que é fundamental: administração. E que tem um limite para gastar. Tem que ser de acordo com as receitas, nunca acima, sempre dentro do orçamento do clube. O gabinete de crise vai cuidar de 31 de dezembro para trás. A administração cuida de 1º de janeiro para frente, com a responsabilidade de arcar com todos compromissos.

E onde buscar recursos para honrar esses compromissos?
No quarto eixo, que é o marketing. Costuma-se dizer que o Santos comprometeu as receitas futuras. Não. O Santos comprometeu as receitas de TV. Mas o clube não tem patrocínio master, não tem tido novos produtos no mercado, não tem tido incremento na bilheteria. Tem que fazer receitas. O marketing do Santos tem que gerar receita, como patrocínios, todas essas coisas.

Você acredita que terá resultados nessa área no curto prazo?
Já estamos trabalhando para isso. Queremos já assumir com a definição de quem cuidará dessa área. E será uma pessoa de marketing. Não será publicitário, jornalista, relações públicas...

Foi mencionado em uma de suas últimas respostas o adiantamento da cota de TV. Como você avalia o atual contrato com a Rede Globo?
A exposição está ruim. É por culpa da Globo? Será que não é culpa do espetáculo, que não está atraindo atenção? Quando tínhamos o Neymar ou o Robinho atraíamos mais atenção da TV.

Mas o Robinho voltou e o Santos segue sem aparecer...
Outro dia fui na Vila Belmiro, e as pessoas falavam "nossa, que jogo chato". Se você estivesse em casa, como torcedor, não teria assistido o jogo até o fim. E a TV é sensível a isso. "Ah, a Globo é sacana com o Santos". Não, o Santos é sacana por não apresentar um bom espetáculo. E aí a gente entra no quinto eixo, que é o futebol. Como você faz para ter patrocinador, aparecer na mídia e ter gente comprando seus produtos? É tendo ídolos, espetáculo e paixão do torcedor. O futebol do Santos tem que jogar com a alma da torcida.

O senhor falou em ter ídolos. Hoje o Santos tem o Robinho e, em menor importância, Arouca, Gabigol e outros. Espetáculo foi dado em alguns jogos, como na goleada sobre o Botafogo por 5 a 0, e paixão não falta ao torcedor. Mas nesse jogo mencionado, por exemplo, o Santos teve apenas 15 mil pessoas no estádio - e era uma decisão da Copa do Brasil. O senhor acredita que são só com esses três itens vai resolver o problema?
Nesse jogo o público entrou antes da goleada.

Mas vinha de quatro vitórias seguidas.
Mas sem espetáculo! O torcedor do Santos é exigente, aí você resolve fazer jogo às 21h no Pacaembu, dia 15, quando o salário já está acabando.


Porém, não é o clube que define isso.
O planejamento, sim. Se você planeja que a quarta de final da Copa do Brasil vai ser no Pacaembu o torcedor estará preparado. O que não pode é ficar mudando. Tem que dar ao torcedor o direito de ele se programar. A casa do Santos é onde está sua torcida. E o Pacaembu também é a casa do Santos. E você me pergunta: "Você vai arrendar o Pacaembu?" Não, eu alugo quando eu preciso.

Já falaremos de estádio, mas antes gostaria de finalizar o debate sobre o atual contrato com a Globo. É preciso renegociá-lo?
Vou discutir com a Globo, sim, até porque eu acho que o modelo atual vai fazer com o futebol brasileiro o mesmo que aconteceu na Espanha, pois se privilegia só dois clubes. O que vai acontecer? Vai polarizar as disputas entre quem recebe mais.

Essa discussão tem que ser de forma coletiva? O senhor pretende liderar essa conversa?
Podemos assumir a liderança se tivermos o acesso, mas isso vem naturalmente. Existem homens muito competentes no futebol, como o Aidar, do São Paulo, o Paulo Nobre, do Palmeiras, o Gobbi, do Corinthians. São pessoas competentes, e eu me considero também. Mas não posso me colocar como líder antes mesmo da eleição, seria muita presunção.


Tal tema é prioritário ou no começo do seu mandato você pretende primeiro colocar a casa em ordem e só depois tratar destas questões mais amplas?
Existem pessoas competentes para colocar a casa em ordem. O trabalho de retomar a representatividade do Santos perante os demais clubes e as confederações é um trabalho político, que compete ao presidente. Logicamente que vamos falar com o presidente da Federação, da CBF, da Conmebol, da Fifa...

Você acredita que tem de haver um maior diálogo com a CBF ou o caminho é o do rompimento e a criação de uma liga independente?
A legislação dá o comando do futebol à CBF, e a Fifa entende que ela é a entidade representativa do nosso futebol. Se a CBF quiser, por questões econômicas e financeiras, criar a liga, e os clubes entenderem que esse é o caminho, assim faremos. Não podemos fazer discursos vazios. Como assim romper com a CBF? O que é isso? Vou me fazer ouvir lá.

Hoje o Santos é ouvido?
Não sinto isso.

O ex-presidente Marcelo Teixeira, que o apóia, adotou uma prática de emprestar dinheiro do próprio ao clube. O que o senhor acha desse tipo de medida? Faria igual?
Em primeiro lugar, isso é um pouco do plano de demonização do Marcelo. Para tirá-lo do poder, criaram uma figura de demônio. Ele nunca colocou dinheiro do bolso a juros abusivos. Nunca cobrou juros. Esse dinheiro que o clube está devendo ao Marcelo é resultado do aval que ele deu. Foi aos bancos, deu o aval dele e, quando saiu, a diretoria que o sucedeu disse ao banco: vá cobrar do avalista. Mas não acho essa prática saudável. Não é correto gastar mais do que se arrecada, não acho saudável endividar o clube.

Recentemente o presidente Odílio Rodrigues disse que não é possível ganhar títulos e fechar as contas no azul. O senhor concorda?
Se isso for verdade, vamos fechar o futebol, está tudo errado! O que é isso? Você tem que ficar devendo para vencer? Então o futebol é uma loteria perversa. Você tem que administrar bem, o que não pode é contratar jogador acima do que pode pagar, pôr todos os ovos em uma mesma cesta, contratar 30 jogadores para aproveitar sete... Isso não pode!

Como será sua política de contratações de jogadores?
A base do Santos será a base do time, basta ver na história. Temos que ter uma base forte, mas não falo só de jogador, falo de comissão técnica também. Tem que evoluir, crescer. Os grandes treinadores do Santos foram Lula, Antonio Fernandes, Formiga, Pepe... Esse são os técnicos vencedores do clube, todos da casa. Depois veio Vanderlei, Leão, Muricy, mas sempre tivemos base de treinadores. O que não quer dizer que tem que pôr o treinador da base na fogueira no profissional e depois perdê-lo. Além disso temos que acertar. O Santos não tem dinheiro para errar, temos que acertar 100% das contratações. E ser muito paciente com quem está aí. O Lucas Lima é um grande jogador, o Mena é o lateral-esquerdo da Seleção Chilena, o Caju é um grande talento.

Você mencionou o Lucas Lima, que veio do Sport. Esse é o tipo de contratação que você pretende buscar, de revelações? Ou vai apostar em medalhões, como foi o Robinho?
Tem de haver competência de quem escolhe. Não haver erro é saber que não se pode vender seu maior ídolo por 17 milhões de euros e contratar um jogador tecnicamente bem inferior por 13. Esse "gap" é muito pequeno para o desnível entre o Leandro Damião e o Neymar.

O que fazer para minimizar esse tipo de risco?
Ter competência.

Hoje o Santos contrata após análise e indicação da comissão técnica, do Zinho, gerente de futebol, do Sandro Orlandelli, scout, e do André Zanotta, superintendente de esportes. O senhor concorda com esse modelo?
Não.

E o que apresenta de proposta?
Olhar. Não adianta scout, não adianta vídeo, tem que ver jogador.

Pretende acabar com a função do scout?
Não, é fundamental. Mas como apoio. Não dá para se basear só em números. Você vai me dizer que o scout marca o que o jogador faz sem a bola? Não marca. Você tem que ver o atleta, ter pessoas competentes para olhar. Não dá para trazer o Renato Abreu com 36 anos.

A sua ideia é criar uma equipe de observação?
Olheiros, muitos! Todos que eu puder. Todo santista tem que olhar. Precisa ter uma equipe profissional, e se tem um scout positivo de um jogador, vamos a campo. Não importa onde, vamos atrás. Sem preguiça.

Isso não comprometeria ainda mais as finanças?
O que compromete é trazer um jogador sem ver. Você faz um contrato e o jogador não entra em campo.

Você faz diversas críticas à gestão do futebol. Os profissionais que lá estão, como o Zanotta, o Zinho e o Orlandelli, serão demitidos?
Não sei, não os conheço pessoalmente. Sabe, é muito complicado você dizer que alguém é bom ou ruim se baseando pelo ouvido. Vamos ver. A informação que tenho do Orlandelli é que ele é excelente como scout. O que a gente vê é a periferia dos fatos, não podemos condenar nenhum profissional pelo que a gente olha de longe. Isso seria leviano.

Então podemos entender que, se você for eleito, a montagem do plantel para o primeiro semestre será feita pelos profissionais que lá estão?
Não.

E como vai avaliá-los então?
Temos profissionais competentes para avaliar esses profissionais.

Mas não há tempo hábil, logo começa o Paulistão.
O Paulistão é um campeonato mais fácil, um torneio de começo de temporada, no qual dá para avaliar muita coisa. Nós teremos da eleição até o início do Paulista quase dois meses. Teremos tempo para conhecer essas pessoas, que antes de serem profissionais são seres humanos. Precisamos respeitá-los. Pré-julgamento eu não vou fazer. O André, o Orlandelli e o Zinho precisam nos mostrar a realidade. Desmontar a equipe é uma temeridade.

Por que no marketing você consegue fazer essa avaliação prévia e no futebol não?
Porque o futebol tem razões que a própria razão desconhece. O marketing hoje é comandado por um excelente publicitário, muito competente. Mas acho que o marketing tem que ser comandado por profissionais de marketing. Não vejo resultado nenhum no marketing do Santos, que está há um ano e meio sem patrocinador master. A última vez que teve de trocar de fornecedor de material esportivo teve de assinar com uma empresa comercial e não industrial...

É um contrato que precisa ser revisto?
Tem que ser renegociado após o término. Acho difícil manter esse modelo, pois hoje vemos que a fabricante (Nike) tem um interesse limitado e os concorrentes da distribuidora (Netshoes) não têm interesse em adquirir as peças do Santos. É uma "fartura", farta material em todo canto.

Qual é sua proposta para conseguir um patrocinador master do Santos após quase dois anos?
São duas coisas. A primeira: o Santos teve seu marketing voltado a só um jogador, o Neymar. A imagem do clube foi deixada em segundo plano. Quando ele saiu, o marketing inteiro saiu com ele, muitos foram trabalhar para ele. Aí nós ficamos despidos, colocamos uma outra pessoa para organizar a área, mas o mercado já estava voltando seus olhos para outro canto, a Copa. Aí nós fomos para o mercado com soberba. Quem dá o valor dos patrocínio é o mercado. Nós temos que ouvir o mercado sem soberba, que é a inimiga do comércio. Não adianta dizer que seu jornal tem que ser vendido por R$ 10 se ninguém paga isso. Temos de saber ouvir mercado, o sócio, o torcedor. Saber ouvir sempre!

Além do patrocínio, quais são suas propostas para o marketing?
Uma delas é a "Sanfest", que nos foi apresentada por dois homens de marketing. É uma ideia muito interessante, fazer uma semana de eventos em Santos para trazer o torcedor para dentro do clube, para dentro da vida do Santos. Nessa semana teremos eventos, jogos, palestras, visitações a todo o equipamento do Santos. Outra ideia é fazer o parque temático do Santos. Outra é fazermos o Santos mais junto da sua torcida. Outra é o planejamento das tabelas dos jogos, de modo que possamos atuar em qualquer arena do Brasil. Para isso temos de ver a melhor data, o melhor adversário... Podemos jogar no Paraná, em Brasília e fazer rendas altíssimas, de R$ 4 milhões.

O que seria esse parque temático?
O Santos tem uma história maravilhosa, uma vida rica. O parque temático é um local onde as pessoas passam a viver o Santos, como você vive o Beto Carrero World ou a Disneylandia. Não nessa dimensão, é claro, mas na dimensão do clube.

Onde seria isso?
O Santos tem uma área, por exemplo, que é a Chácara Nicolau Moran, em São Bernardo do Campo. Por que não fazer no meio do caminho entre São Paulo e Baixada Santista?

Com quais recursos fazer isso?
Com dinheiro do próprio marketing. Isso não precisa ser feito no dia 1º de janeiro de 2015. Recursos aparecem com um marketing bem-feito.

Isso seria possível no primeiro mandato?
Acho que sim, porque existem parceiros para fazer isso.

Pessoas interessadas em frequentar esse local também? Porque o Santos tem dificuldade para levar gente até ao estádio...
Será que é tão difícil as pessoas entenderem que o torcedor não está indo ao estádio porque é mais cômodo assistir ao pequeno espetáculo em casa? É por isso que o Santos não leva público. Hoje é mais agradável ir e xingar dentro de um bar, comendo coisinhas e tomando cerveja.

É possível reverter isso? Como?
Temos que trabalhar, com um marketing ativo e ouvindo o torcedor. Tem que saber exatamente o que está impedindo o torcedor de ir ao estádio. Será que não é a saturação? A falta de dinheiro? Medo do ambiente ou de ser atropelado no meio da estrada? O que será?

Mas esses fatores fogem da alçada do presidente, não?
Cabe ao presidente, sim, ao marketing mudar. Fazermos campanha, movermos mundos e fundos para encontrar o que o torcedor quer. Você tem que ouvir o torcedor.

E como fazer isso?
Através de pesquisas, da internet, de audiências públicas, de vocês da imprensa, que repercutem esse público... Ouvir a mídia, que não é só opinião de jornalista, tem a opinião da rua também. Temos que ouvir vocês (jornalistas).

Há também um plano para aumentar o quadro associativo?
Em 2004, quando eu cheguei no Santos, tínhamos 3 mil e poucos sócios ativos. Conseguimos subir para 25 mil, 26 mil, tiramos da inércia. Com títulos é óbvio que sobe mais. No momento em que você volta para a disputa, para o espetáculo, o torcedor volta também. Mas isso só acontece se tiver algo em troca, você não é sócio por nada ou pelo simples prazer de ter uma carteirinha. Não dá para o sócio não ter os privilégios na compra de ingresso.

Na compra especificamente o sócio tem o privilégio de pagar meia-entrada e comprar antecipado.
Quem oficializou o meio-ingresso fui eu. Eu redigi a portaria e o Marcelo assinou. O direito de o sócio entrar no estádio só apresentando a carteirinha, sem precisar comprar antecipadamente, fui eu que criei quando estava na Secretaria Social.

Certo, mas esses benefícios já existem.
Não existem mais, tanto que o sócio tem que comprar antes.

Ele faz a reserva, porque o Santos tem cerca de 60 mil sócios e um estádio para 15 mil pessoas. O benefício já existe.
A reserva, sim. Mas só a reserva. É só dizer "eu vou".

Você propõe o que? Não haver cobrança?
A cobrança tem que haver depois. Aí vai o boleto para o sócio, como sempre foi.

Isso tudo já não existe?
Não, hoje você tem que comprar o ingresso antes.

Existe a opção de fazer a reserva e depois pagar o ingresso na fatura do Sócio Rei.
Não sei. É assim que está funcionando? Não sei como está funcionando hoje. Como tenho cadeira cativa, a minha situação é um pouco diferente. Não sei. Não vou te responder algo que não tenho segurança. Mas, por exemplo, teve o jogo no Pacaembu contra o Botafogo. Eu tenho uma cadeira cativa coberta na Vila Belmiro. Meu direito seria para sentar nas cadeiras descobertas do Pacaembu. Por que, se na Vila minha cadeira é coberta? Deveria oferecer a cadeira azul, a coberta. Mas isso também é pequeno para a gente discutir agora. O principal é o ouvir: o mercado, o sócio e o torcedor.

Quais são seus planos para a Vila Belmiro? Há quem fale em estádio-boutique e quem priorize o alçapão.
Eu vou na linha do estádio-boutique, até porque o termo é meu (risos). O futebol velho fala de alçapão, eu acredito no futebol espetáculo, onde o estádio é palco para a televisão, não arena de guerra. Futebol é espetáculo.

Mas ter um alçapão não é ter uma arena de guerra.
Você está colocando pressão psicológica no seu adversário.

Isso não é um aliado do time?
Eu acho que não.

O Santos cansou de ganhar jogos pela força da torcida.
A força da torcida, sim. A Vila Belmiro é temida independentemente de eu poder puxar a camisa pelo alambrado ou xingar e cuspir no meu adversário. Isso não é civilizado. Me desculpem os que defendem a pressão a qualquer custo. O Santos tem de ter um estádio confortável ou vamos jogar todas as arenas fora, vamos voltar a ter jogo no estádio de Guaratinguetá.

Não é possível aliar conforto e pressão no adversário?
Não. Aqueles que querem pressão defendem que não haja cadeira, querem que haja alambrado... Eu até sou a favor de tirar o vidro da Vila Belmiro, de não ter barreiras desde que o público seja educado e respeite o limite do campo de jogo.

Você também defende a ampliação da Vila Belmiro?
Sim, há um projeto para modernização que prevê 25 mil pessoas na Vila. Mais não é possível por conta do entorno. Quando se fala em ampliação da capacidade tem que discutir também estacionamento, acessibilidade... O estádio precisa ser pensado como um todo.

Quais são suas propostas para as categorias de base?
Temos conquistados títulos, promovido garotos, mas me assusta ver notícias de que dispensamos cem atletas. Jogadores você recebe e dispensa todo dia, não precisa fazer pacotão de dispensa. A gente precisa avaliar o trabalho, gosto muito do Lima, do Abel, do Pepinho, do Joãozinho Rosa, eles são competentes.