icons.title signature.placeholder Eduardo Mendes
21/03/2014
08:12

Em abril, Celso Roth completará 16 meses sem comandar uma equipe. Entre os técnicos brasileiros habituados a trabalhar nos grandes clubes é o que está há mais tempo fora do mercado. O último trabalho foi no Cruzeiro, quando deixou a Raposa na nona colocação do Campeonato Brasileiro de 2012.

A situação não incomoda o treinador. Ele garante que o fato de estar desempregado desde então também é por uma opção. Para voltar a trabalhar, ele não abdica, em certos casos, do salário padrão que costumava receber. O impasse financeiro, inclusive, foi o entrave que brecou as conversas com alguns interessados nesse período. E ele garante que foram muitos.

Roth atendeu a reportagem do LANCE!Net após o retorno de uma viagem aos Estados Unidos onde acompanhou um jogo da NBA entre Miami Heat e Orlando. Sereno, o técnico não se incomoda em não estar trabalhando e expôs os motivos que o colocam há tanto tempo fora de algum clube.

Período que serviu para se dedicar à família, aos negócios fora do futebol, mas que não o impediu de acompanhar o que tem acontecido no meio no Brasil e no exterior.

Em ano de Copa do Mundo no Brasil, Celso Roth inicia 2014 na mesma situação que Dorival Júnior, Vanderlei Luxemburgo e Tite, técnicos que estavam empregados ainda durante o Brasileiro do ano passado.


CONFIRA NA ÍNTEGRA A ENTREVISTA COM CELSO ROTH

Você está fora do mercado por opção ou a questão financeira também influencia?

As duas situações estão acontecendo. Além de ser opção, as coisas não funcionaram como achava que deveria. Tive várias
propostas e o Coritiba, como você citou, foi um dos clubes. Tiveram outros, mas não chegamos a um comum acordo. Além disso, tinha perspectivas e continuo tendo para sair e trabalhar no mercado europeu. Criou-se uma lacuna nesse tempo e você vem trabalhando e conversando para ver se aparece algo que seja interessante para o profissional e para o clube. É uma situação que acaba acontecendo em um ano atípico, de Copa do Mundo. Serão quase 40 dias sem jogos. E os dirigentes sabem disso e têm um certo cuidado.

Até que ponto o fator financeiro pode pesar em um acerto?

Depende do projeto e da aproximação das pessoas, do interesse que o clube tem para o momento, a conversa. Precisa colocar seu ponto de vista e saber o que o clube quer. O técnico com certa experiência está mais estabilizado financeiramente. Se a coisa encaminha para uma situação que o treinador acha importante, o fator financeiro pode ficar ali, como outra alternativa.

Você citou técnico com mais experiência, mas alguns clubes têm apostado em novos nomes que apareceram no mercado, entre outros motivos, por eles terem um custo menor. Como você enxerga essa tendência?

O mercado tem de estar aberto como esteve para mim no passado. Quem fizer um bom trabalho e estabelecer uma sequência obviamente terá uma oportunidade. Aqueles técnicos que têm um determinado valor estão encontrando uma certa dificuldade neste momento até que o mercado se ajuste para outra curva e os clubes voltem a procurar o treinador com mais experiência. Alguns novos treinadores fizeram um bom trabalho ano passado, houve uma ascendência nesse sentido e eles estão tendo a oportunidade.

O Cruzeiro fez uma campanha modesta sob seu comando em 2012 e no ano seguinte foi campeão brasileiro com Marcelo Oliveira. O que mudou de um ano para outro?

Foram 16 a 17 jogadores que saíram daquela época. Desse time atual, são três que ficaram: Fábio e Ceará, que terminaram
jogando, e Borges, que estavam sem jogar, chegou no segundo semestre de 2012 e terminou o ano machucado. No ano seguinte, foram 17 ou 18 contratações e, então, teve essa felicidade de ganhar o título. Parabéns à direção que ouviu o que falamos. Quando chegamos, no ano anterior disputou o clássico precisando ganhar na última rodada e escapou da Segunda Divisão. Eu cheguei, em 2012, faltando três dias para começar o Brasileiro e a preocupação era não repetir a situação de 2011. E não repetimos. Sempre ficamos no meio da tabela para cima. Depois disso, entramos em contato com a direção, que tomou a atitude e contratou Marcelo (Oliveira), que teve a felicidade de ser campeão.

Os clubes brasileiros pregam a longevidade dos técnicos no comando dos times, mas a realidade ainda não condiz com a prática. É apenas um discurso para inglês ver?

Acho que é da boca para fora. Temos sempre aquela situação de copiar. Deixar um técnico pelo tempo de dez, 15 anos, é um sonho. Em quantas equipes isso aconteceu? O Manchester United foi praticamente uma exceção. Os demais mudaram muito. Qual outro clube ficou tanto tempo assim? Queremos isso para cá, mas precisa ter sequência. E qual foi a última importante no Brasil? Tite, no Corinthians. Depois de cair na pré-Libertadores, era candidato a cair no Paulista e não ganhou o Brasileiro. Depois, foi campeão da Libertadores e do Mundial. Isso é sequência de um trabalho como o Muricy teve antes no São Paulo e foi tricampeão brasileiro. Mas temos o outro lado. Quem são os últimos campeões do Brasil? O Cruzeiro teve a entrada de um técnico em cima da hora e contratações em um mesmo ano. Fluminense ganhou com trabalho de um ano e o Flamengo, em 2009, ganhou no meio do caminho. Então, essa situação do mercado nos dá essa ambiguidade. Ao mesmo tempo que se precisa de sequência, planejamento, técnicos também podem ganhar de maneira imediata. E, no ano seguinte, acaba não tendo nada disso. Mas no futebol eu acredito na sequência.

A alcunha de retranqueiro, que recebeu durante a carreira, ainda o incomoda?

Eu fiquei quatro dias nos Estados Unidos e fui ver em um fim de semana Miami Heat e Orlando. Adorei. Quando um time ataca, a torcida da equipe que está sendo atacada grita "defense" (defesa). Achei maravilhoso (risos). Então me lembrei das pessoas que dizem que sou defensivista ou retranqueiro. Mas se for olhar, eu recebi esse rótulo quando eu usava dois volantes. Hoje alguns colegas meus jogam com três, quatro ou três zagueiros e três volantes. Porque o Corinthians com Tite conseguiu uma sequência? Qual era a maior característica do Corinthians? O equilíbrio defensivo.

Você, então, dá respaldo para as análises do Juarez Roth (perfil falso do treinador no Twitter e que analisa o futebol de maneira irônica a partir da filosofia de Celso Roth) ?

Eu o conheci pessoalmente. Fomos apresentados. Não olho, mas as pessoas trazem para mim. Última vez que me falaram, ele tinha 40 mil seguidores. Então quer dizer que a marca é forte, não é? Quando chegar a 50 mil pessoas vou começar a cobrá-lo. Ganhando em cima da minha imagem? Brincadeira. Acho interessante isso. Até onde seu ele faz colocações positivas e não deixa de ser interessante.

Você volta a trabalhar este ano?

Neste momento já existem alguns contato, mas são conversas do tipo como vai aquela situação... Para esse semestre quem sabe? Mas não posso dizer com certeza.

Como ocupa o tempo desde que está sem assumir uma equipe?

Tenho uma família fantástica e procurei esse tempo para agregar. Mas tenho outras situações particulares. Procuro fazer outros investimentos. Não deixe, porém, de acompanhar futebol. Olhando jogos no Brasil, Libertadores e agora a Copa do Brasil. Tem também o futebol europeu e os jogos entre as seleções.

E o que você destaca, seja positivo ou negativo, no futebol que tenha observado?

Os paulistas fora da Libertadores é uma coisa negativa. São Paulo é a principal força econômica do país e os clubes fora da Libertadores é um indício complicado, difícil de entender. Por outro lado, o Estadual se tornou a coisa mais importante do mundo para os paulistas no primeiro semestre.

Saindo do âmbito nacional, o Bayern continua em uma ascensão muito grande, não só pelo futebol ofensivo, mas também defensivo. A seleção alemã chega como candidata forte, ao contrário da Espanha, que passa por altos e baixos e não sei se chega com força. Vejo um Cristiano Ronaldo mais maduro e Messi um pouco aquém do que ele produziu há alguns meses. Vejo, por outro lado, as ascensão de Neymar, mesmo com todo extracampo. E está cada vez mais solto e à vontade na Seleção Brasileira.

Falando em Seleção e Copa. Argentina e Chile, nossos vizinhos sul-americanos, podem ir longe?

A Argentina tem um time forte. O coletivo e o individual são bons. O time tem velocidade e bons jogadores como Aguero, Higuain e Messi, que dispensa comentários. Além disso, têm boas opções no banco. Defensivamente apresentam alguns problema, mas chega como candidata forte ainda mais com o gostinho de poder ganhar no Brasil.
O Chile já melhorou muito desde a última Copa. Teve o grande trabalho do Bielsa e, agora, com sequência dada por Sampaoli. Pode fazer uma grande Copa, mas entre fazer um bom campeonato e chegar ao título tem um espaço.

E o que esperar do Brasil?

Vejo o Brasil desde o último amistoso contra a África do Sul muito dentro do que o Felipe tem como característica. Tive a felicidade de trabalhar com ele e é uma pessoa muita concentrada no que vai fazer. E tem também a consciência em relação à responsabilidade de jogar uma Copa em casa, em seu país. Pode-se notar isso na feição dele e que tem o grupo encaminhado. Os jogadores estão querendo muito e há muito tempo não via uma Seleção com tanto orgulho em vestir a camisa do Brasil. Taticamente e tecnicamente estão muito seguros e tomara que cheguem assim e joguem como estão jogando até o Mundial.