icons.title signature.placeholder Gabriel Carneiro
20/02/2015
08:05

Eleito presidente do Fernandópolis Futebol Clube em janeiro de 2015, o empresário Jerri Falcão realizou contratações ousadas para a disputa da Série B (a Quarta Divisão) do Campeonato Paulista. A divisão permite apenas três jogadores com mais de 23 anos, e Jerri caprichou: contratou Muller (49), Alex Dias (42) e Maurinho (36), todos aposentados já há algumas temporadas. Pelo menos com o primeiro, fora do futebol há 11 anos, período em que foi comentarista, treinador e dirigente de clubes, a exigência esportiva não será tão grande. Muller foi contratado para guiar um projeto social na cidade de 65 mil habitantes, distante cerca de 500 km da capital do Estado.

- O Muller será o embaixador do nosso projeto social. Em novembro de 2014 houve uma ação simples, um jogo beneficente, e arrecadamos quase R$ 100 mil. Através daquele dia me despertou algo de que dava para fazer marketing com isso e dava para fazer um projeto social andar. Queremos que os garotos venham jogar no sub-15, mas não só jogar, porque às vezes você alcança sucesso, mas perde tudo, como foi com o Muller. Independente da bola tem que aprender, ir para a escola. Esse é o projeto "Os Sonhadores", que agora vamos transformar em algo mais forte, mais concreto. E o Muller, com sua bagagem, vai dar palestra, motivar, ajudar a captar recursos para investir no projeto e será importante dentro e fora de campo - explicou o empresário de 48 anos, ao LANCE!Net.

Jerri Falcão diz que Muller não aceitou de cara o convite para participar do projeto. Ele só foi convencido quando ouviu os detalhes, inclusive que poderia jogar o tempo que quisesse nas partidas do Fernandópolis. Agora, até o povo da cidade está animado: o Fefecê - apelido pelo qual o clube é tratado - tem ofertas de 12 empresas interessadas em dar patrocínio, o programa de sócios já ultrapassa mil pessoas e até jornalistas japoneses têm se interessado pelo projeto ousado para a Série B do Paulistão. E depois de trazer Muller, o presidente assegurou a realização de outro plano ousado: mudar a tabela e realizar jogos às sextas-feiras. À noite.

- É um horário mais fresco, tranquilo e não atrapalha os compromissos das pessoas. Futebol tem que ser show. Vou colocar um telão, aí passo a história do Muller, passo gols, faço uma queima de fogos, crio um lugar agradável para a família. Por que o camarada vai querer ver jogo de domingo às 10h, com o banco de concreto queimando a bunda e o jogo de várzea muito mais divertido concorrendo? Vamos tentar. Se não der público, mudo de ideia. Levei pancada de todo lado com essa história, mas é melhor andar com louco do que com burro. O burro empaca e o louco, de dez coisas que fala, sete não se aproveita, mas três são geniais. Prefiro ser chamado de louco - brinca Jerri Falcão.

O Fefecê estreia na Bezinha no dia 17 de abril, uma sexta-feira, às 20h30, contra o Grêmio Prudente. Muller, Alex Dias e Maurinho, que serão apresentados no dia 2 em uma grande festa na cidade, já estão confirmados.

A VIDA DELE ANTES DO FERNANDÓPOLIS: SEGUUUUURA, PEÃO!

Jerri Falcão foi colaborador de diversas gestões do Fernandópolis, com ideias e até patrocínio. Em 2015, foi indicado para a presidência do clube e aceitou o desafio depois de muitos anos de adiamento dos planos por conta de seu negócio, uma empresa de transformadores de energia. A empresa, hoje com 140 funcionários, não foi o único desafio profissional do agora dirigente esportivo. Muito provavelmente também não será o último.

- É difícil explicar para você como um vendedor de picolé, de hot dog, açougueiro, locutor de rodeio e empresário conseguiu montar um time com o Muller no elenco. É a vida - diz o presidente do Fernandópolis, antes de explicar a introdução:

- Sou nascido aqui e criado sem pai nem mãe. Meu pai me abandonou com quatro anos, minha mãe morreu com 11 e me virei. Trabalhei em um frigorífico por 12 anos, como açougueiro, mas aí decidi montar um carrinho de lanches. Fui fazendo lanches, e sempre fui alegre, brincalhão, divertido, fazia versos e poemas com os clientes. Aí um cara me ofereceu para narrar na festa do peão, se eu não gostasse voltaria para casa. Virei locutor de rodeio por 10 anos. Estava nesse ofício quando me senti desafiado mais uma vez. Uma empresa tradicional da cidade, de 50 anos de história, estava falida. Fui administrar. Uma empresa do ramo de maquinário elétrico, de transformador de energia. Assumi a empresa falida e hoje tenho 140 funcionários. Fui pai com 17 anos, hoje tenho 48 e já sou avô. Meu negócio sempre foi trabalhar. Nunca sonhei que ia parar de narrar rodeio, mas fui locutor pela necessidade, por ser rápido de raciocínio. E hoje estou nesse novo desafio no Fernandópolis - resume Jerri Falcão, que conclui dizendo que sua história daria um livro.

Se fosse um livro, a história certamente teria uma série de vilões. Como os quatro "chegados" que recusaram o cargo de diretor de futebol por não acreditarem nos sonhos de Jerri Falcão. A solução encontrada foi colocar o filho adotivo no cargo e tocar em frente. O filho de Jerri é a pessoa mais próxima de Muller, hoje, em Fernandópolis. E o projeto esportivo e social começa a ganhar crédito das pessoas.

- Ninguém queria o cargo. Não teve jeito, eu precisava mandar para a Federação rápido... Mas agora ele vai ficar, porque o time ficou o melhor do Brasil, o presidente ficou bom, os vereadores mandaram até congratulações. E eu nem sei o que significa isso. Pensar que pouco tempo atrás eu não conseguia arranjar um diretor de futebol... Mas se eu não acreditar em mim, quem vai?