icons.title signature.placeholder Valdomiro Neto
11/06/2014
07:00

Eucaliptos recebeu dois jogos da Copa de 50 (FOTO: Valdomiro Neto)

Dona Ida lembra-se perfeitamente dos jogos do Internacional no antigo estádio dos Eucaliptos. Aos 91 anos, tem na memória, em detalhes, as agitações em dias de partidas do Colorado no seu antigo reduto. Recorda-se da confusão entre torcedores que, mesmo na elegância dos trajes do público do futebol daqueles tempos, discutiam na frente da sua casa de muro baixo. Brigas que a levavam a ameaçar "chamar o leão", cachorro fictício que criou para espantar os arruaceiros. Mas de uma passagem essa senhora gaúcha não recorda: os jogos do Mundial de 50 no palco que foi por tanto tempo seu vizinho.

- Veja que coincidência! Ontem (segunda) mesmo estávamos aqui, eu e meus filhos, conversando sobre isso. Não consigo lembrar desses jogos. Vimos uma matéria na TV e ficamos intrigados com esse esquecimento.

A casa dessa simpática porto-alegrense ficava cara a cara com o saudoso Eucaliptos e agora vê-se frontal com as obras finais de um suntuoso condomínio. Repleto de torres para futuros moradores, ele foi erguido no terreno que em 1950 sediou dois jogos do famigerado Mundial de 64 anos atrás. Ambos envolveram derrotas do México, para Iugoslávia (4 a 1) e Suíça (2 a 1), pelo grupo do Brasil.

Ironicamente, o Inter vendeu o patrimônio para a iniciativa privada, em 2010, com a finalidade de obter recursos para remodelar o Beira-Rio e responder às exigências da Fifa para a Copa deste ano. Após a demolição do estádio e a construção dos imóveis, em área nobre da capital do estado, sobrou apenas um resquício do velho palco: as árvores de eucalipto, inspiração para o nome.


Condomínio de luxo ocupa terreno que foi do estádio dos Eucaliptos (FOTO: Valdomiro Neto) 

Na vizinhança do bairro de Menino Deus, no qual também está fincado o Beira-Rio, não há remota lembrança dos par de duelos disputados lá em 50. É como se não tivessem ocorrido. Nos arredores, nenhuma placa fazendo menção, Com uma cuia de chimarrão na mão, outro senhor, Rodolfo Ruas, franze o cenho ao ser perguntado sobre suas memórias e diz "já ter ouvido falar alguma coisa desses jogos". Um taxista chega a se espantar quando ouve da reportagem sobre as partidas que lá foram realizadas, como se tomasse conhecimento pela primeira vez.. 

Para reavivar a memória é preciso recorrer aos arquivos dos jornais de então. No Correio do Povo de vésperas da disputa conta-se que o estádio passou por reformas para abrigar 35 mil pessoas e responder às exigências da Fifa, que já existiam na época, As mesmas que fizeram o Inter desfazer-se de seu antigo palco para modernizar o atual, vendo assim o Mundial do Século XX unir-se ao do XXI.

Tomara que, daqui 64 anos, os porto-alegrenses tenham memória mais fresca do Mundial de 2014 em sua casa.

Eles lembram...

Dos seis estádios utilizados na Copa do Mundo de 1950, apenas o Eucaliptos foi demolido, deixando assim de existir. Os outros cinco seguem de pé e em uso, facilitando a memória da competição. Deles, apenas o Maracanã está no Mundial deste ano. Palco da trágica decisão de 64 anos atrás, o Mário Filho, nome oficial, passou por reforma para o torneio que começa nesta quinta e receberá mais uma vez a partida final. 

São Paulo, que viu erguer-se a Arena Corinthians, abertura da Copa nesta quinta, recebeu jogos da Copa de 50 no Pacaembu. O estádio, que deve ficar bastante ocioso com a construção da nova casa corintiana, recebeu o empate do Brasil com a Suíça por 2 a 2, no único resultado negativo do escrete canarinho na primeira fase de então. 

Belo Horizonte, que terá o Mineirão nesta edição, fez se representar pelo Independência, que hoje é a casa do Atlético-MG e servirá para treinos de equipes neste Mundial. Na quarta Copa do Mundo da Fifa, para a qual foi erguido, foi cenário de uma das maiores zebras da história dos Mundiais. No dia 28 de junho, os americanos derrotavam os poderosos ingleses por 1 a 0. 

Durival de Brito, casa atual do Paraná Clube, e Ilha do Retiro, onde o Sport (PE) manda seus jogos, foram os outros dois locais a receber partidas naquela Copa. 

Lembranças na montanha

México enfrentou a Suíça com a camisa do Cruzeiro (RS) (FOTO: Divulgação)

Embora a memória da Copa de 50 em Porto Alegre seja escassa, um episódio é citado com orgulho por um dos clubes da cidade. O Cruzeiro, que não tem o status da dupla Gre-Nal, gaba-se de ter emprestado seu uniforme para o México enfrentar a Suíça, no dia 2 de julho daquele ano.

O fato, destacado no site oficial do Leão da Montanha, como é conhecida a agremiação, ocorreu devido à semelhança das camisas das duas equipes, que não tinham mantos reservas. Após um sorteio, o México ficou com o direito de jogar com seu uniforme oficial, mas cedeu a possibilidade aos rivais.'

"Em uma homenagem à cidade, que vinha torcendo a favor da equipe mexicana, decidiu entrar em campo com as camisas do Cruzeiro, dias antes da equipe da Colina Melancólica festejar seus 37 anos de fundação', descreve o clube em memorando.

Com a palavra - Carvallal (goleiro do México nos dois jogos disputados no Eucaliptos em 1950)

Não me lembro muito bem (dos jogos do Mundial no Eucaliptos) porque estava concentrado em fazer um grande papel no gol. Não costumava olhar muito ao redor. Não posso aceitar que as pessoas saiam para jogar uma partida de nível e se preocupem em acenar para amigos e familiares. A verdade é que não tive nenhum problema ao jogar nesse estádio.