icons.title signature.placeholder Jonas Moura
27/02/2015
08:00

Consagrado como um dos principais nomes do vôlei brasileiro, o ponteiro Murilo, do Sesi-SP, teve de se dividir no final do ano passado entre a recuperação da cirurgia feita no ombro direito, em outubro, para tratar uma anomalia na articulação do acrômio clavicular, e as reivindicações por avanços em um esporte em crise.

As denúncias de má gestão na Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) motivaram o jogador de 33 anos a liderar um movimento que teve até manifestações de atletas com nariz de palhaço. Passados mais de dois meses daqueles episódios, as cobranças se acalmaram.

Mas, nesta entrevista do LANCE!Net, ele garante que não vai se acomodar. Enquanto aguarda a apresentação de um CEO, espécie de diretor executivo que ajudará a aproximar os jogadores da administração do vôlei, e que foi uma promessa da CBV, o atacante admite que talvez seja hora de voltar a cobrar.

Apesar de os diálogos entre CBV e Federação Internacional de Vôlei (FIVB), presidida pelo brasileiro Ary Graça, terem sido retomados, Murilo descarta qualquer chance de reaproximação com o cartola. Confira:

Murilo garante que não deixará de criticar os cartolas (Foto: Gil Leonardi/LANCE!Press)

Como você está fisicamente depois de mais uma operação?
Desde a primeira cirurgia (em maio de 2013), são quase dois anos que venho lutando contra dores no ombro. A última foi mais uma correção, não foi dentro da articulação, e sim uma raspagem. É uma artrose bem avançada, e um osso estava raspando no outro. Venho ganhando ritmo e força desde janeiro, mas ainda não joguei quase nada. Estou chegando bem a esse momento importante da Superliga e em melhores condições do que na final do ano passado (quando o Sesi-SP perdeu para o Sada Cruzeiro).

O que explica as sete derrotas do Sesi-SP nessa Superliga?
Oscilamos muito. Chegaram a falar que éramos o “time Robin Hood”, porque ganhávamos dos grandes e perdíamos dos pequenos. Mas é um grupo experiente. O Marcelo (levantador) tem capacidade de se entrosar rápido com os atacantes, então não dá para dizer que falta entrosamento. É difícil falar tendo ficado fora. Passamos a treinar mais quando as derrotas apareceram. A eliminação precoce na Copa Brasil nos abalou bastante.

Mais uma vez o Sada Cruzeiro está sobrando. A que se deve essa superioridade e o que fazer para ganhar deles? (O Sesi encara o Sada neste sábado, pela última rodada da fase classificatória)
Vamos tentar encerrar bem esse segundo turno justamente contra o Cruzeiro. Não tem mais o que se arrepender. Nesses últimos anos as equipes que conseguiram ganhar deles investiram muito no saque. Com o passe na mão, o time é praticamente imortal. Jogam juntos há muito tempo, têm o William, que imprime muita velocidade. Acabaram perdendo a Copa Brasil e o Sul-Americano, então tiveram alguns momentos dificeis, mas é um baita time. Na minha opinião, o mais forte da Superliga.

Você assumiu uma função de liderança entres os jogadores. Hoje, qual é a posição dos atletas em relação à CBV?
Foi pedido um voto de confiança, e estamos aguardando algumas promessas se concretizarem. Não adiantava a gente ficar batendo e batendo. Cobrvámos soluções por parte da CBV, mas precisamos dar esse voto, esperar um tempo para que tudo entre em prática. O Banco do Brasil assinou o aditivo ao contrato e manteve o patrocínio, o que era o objetivo, pelo menos até a Olimpíada. Sobre as outras questões jurídicas de tentar reaver o dinheiro desviado não temos novidades. Acredito que esteja sendo julgado. Nossa Justiça é lenta. O CEO nós estamos aguardando. Talvez esteja na hora de voltarmos a cobrar.

Murilo durante treino do Sesi-SP (Foto: Gil Leonardi/LANCE!Press)

A CBV já indicou que houve uma reaproximação com o Ary Graça depois dos problemas do Mundial de 2014. As punições foram julgadas? Do lado dos jogadores também há esse sentimento de reaproximação?
A CBV iria recorrer. Até assinamos um documento, mas é algo mais burocrático. A CBV pode ter se aproximado dele (Ary), mas de nossa parte com certeza não houve reaproximação. De nós, atletas, isso nunca mais vai acontecer. Não podemos nos iludir quanto a isso, porque quando o Ary tiver a chance, vai fazer o que tem feito. Não digo que irá nos prejudicar sempre, mas vai haver má vontade com a gente.

Colocando na balança as lesões e a desilusão com a corrupção no esporte, qual é o tamanho da sua vontade de continuar defendendo a Seleção?
É uma pergunta bem difícil de responder. Pesa mais a questão física. O resto dá para passar por cima, porque defender o moral do nosso esporte é a função do atleta. O que me preocupa mais é a minha recuperação. É uma preocupação que tive no Mundial. Consegui jogar, mas fiquei devendo. Sei que preciso me apresentar melhor pela Seleção.

Sente que sua responsabilidade ainda é grande devido à falta de ponteiros passadores no país?
É uma posição difícil de formar jogadores. Mas também não há uma regra dizendo que temos de jogar assim. É uma escolha da comissão técnica. Acho possível jogarmos com dois ponteiros de mais força, de mais poder de ataque. Tem que pesar e ver o que é melhor. Lógico que eu, por ter essa característica de passe, tenho ajudado, mas acaba sendo uma escolha do técnico. Enquanto eu estiver sendo útil na Seleção, tiver força, quero ajudar e rodar bola.

Como está lidando com a distância da Jaqueline (esposa e ponteira do Minas) e de seu filho (Arthur, de um ano)?
Desde dezembro está bem mais corrido. Mas acho que estávamos mal acostumados, já que ficávamos sempre juntos. É parte da nossa profissão, temos que nos adaptar. Quando vou jogar em Minas, aproveito para ficar com eles. No Carnaval, ela teve três dias de folga e passou alguns dias aqui em casa. Quando posso, aproveito. O importante é que o Arthur está bem adaptado a Minas. Ele até já tem ido para a quadra com a Jaque.