icons.title signature.placeholder Carlos Alberto Vieira
13/06/2014
05:00

Que tal este programa: sair da sua cidade, deixar a mulher e o trabalho, viajar durante quatro dias atravessando a maior floresta do mundo, pegando barco, ônibus e avião, chegar em um país diferente, sem conhecer a língua e sem hotel reservado. Só para ver um jogo. Com uma agravante: sem ingresso para um clássico que está com os bilhetes esgotados. Esta é a história de Jimmy Arnott, inglês de Middlesbrough que vive há 14 anos na pequena cidade peruana de Iquitos e está em Manaus na esperança de ver Inglaterra x Itália.

Jimmy desembarcou no aeroporto de Manaus como qualquer turista que viaja com a cara e a coragem: perdido.

- Aqui vendem o ingresso? - perguntou ao ver um quiosque da Fifa que cuida apenas do traslado dos membros da entidade.

Jimmy está com aparência de cansado, barba por fazer. Pergunta por algum hotel barato. O setor de informação do aeroporto não é automatizado. O funcionário dá um mapa e aponta uma rua, a 10 de julho, no centrão. Diz que por ali, há várias pousadas. O trajeto de táxi custaria R$ 80. Jimmy acha caro e prefere um micro-ônibus, R$ 4,20. Espera uma hora pela conduição. Enquanto isso, começa um temporal que, aos poucos, alaga parte da Avenida do Turismo, área nobre, com os melhores restaurantes  e barzinhos da cidade e é a única ligação do aeroporto com a parte central de Manaus. Chuva não é problema para ele.

- Moro em Iquitos, no Peru. Lá também é no meio da Floresta.

Um inglês numa cidade perdida na Floresta Amazônica peruana. Ele explica:

- Trabalho com construção e fui para lá em 2000. Me casei, comecei a construir casas para alugar aos turistas que curtem turismo na selva.
Ele largou tudo na mão da mulher durante dez dias. Se deu miniférias para curtir a sua paixão pela seleção inglesa. Para isso, realizou uma maratona que começou no domingo.

- Já estava com esse pensamento desde o dia do sorteio dos grupos. Torcia para a Inglaterra cair em Manaus ou Cuiabá. No mapa, é relativamente perto. Aí planejei: pegaria um voo até Lima e de lá viria de ônibus até Manaus, pingando por várias cidades. Me compliquei quando cheguei em Porto Velho e me disseram que não dava para continuar por terra. A passagem de avião custou R$ 650. Um dinheiro que eu não previa gastar e cheguei um dia antes, pois a viagem durou só quatro dias. Vou ter de pagar mais com hotel - coçando a barba por fazer.

Saindo do ônibus, nova maratona. O hotel mais em conta custava R$ 200/dia. Mas só até amanhã. No sábado, dia do jogo, tudo esgotado:

- Um suíço com quem mantive contato por e-mail tem um quarto por R$ 230 a diária. Achei caro. Vou procurar algo mais em conta.

E lá foi Jimmy bater perna. Nenhuma vaga até encontrar uma pousada num beco. Nem cartaz tinha. Tocou a campainha e veio Pablo, um argentino, gerente.

- Aqui o preço é R$ 350 a diária em um quarto que você dividirá com cinco. A procura está bem grande. Jimmy deu meia-volta.

- Acho que vou para o quarto do suíço. Pelo menos me garante estadia até domingo, quando voltarei para Iquitos, disse, se despedindo, seguindo com sua mochilinha às costas e feliz por encontrar tantos ingleses nas ruas.

- Acho que vou dar sorte em alguma coisa e conseguir um ingresso barato - sonhava Jimmy, que pode ter feito uma viagem para nada, movida pela sua paixão pelo futebol. Quando descia a 10 de julho pela segunda vez,  o dilúvio amazônico recomeçou.

A viagem maluca de Jimmy começou no domingo. Um voo até Lima. Depois, 51 horas de ônibus até Puerto Maldonado (a 1700 km da capital), na fronteira com o Brasil. Uma viagem de balsa para Assis Brasil (cinco minutinhos), ônibus para Rio Branco, ônibus para Porto Velho e o voo até Manaus.

- Isso para mim não é tão cansativo. Em 1998 viajei pela primeira vez ao Brasil. Fui do Rio até Salvador e voltei de ônibus. E o Peru é um país com longas distâncias. Viajo horas e horas.

Sua única preocupação nas viagens é com a segurança.

- Tenho cara de estrangeiro. Preciso tomar cuidado no interior do Peru. Em Salvador, fui roubado no Pelourinho. Espero que em Manaus eu não tenha problema com a segurança - disse Jimmy.

Preços muito inflacionados

O susto que Jimmy levou com os preços em Manaus assusta a qualquer um. Pablo, o dono da pousada, explicou para a reportagem do LANCE!
- O preço médio é de R$ 28 a diária e estamos cobrando R$ 350. Todas as pousadas desta região do centro estão praticando o mesmo preço - comentou.

No aeroporto os preços também são exorbitantes. R$ 15 uma empada; R$ 7,50 a latinha de cerveja. O taxi tem preço especial saindo do aeroporto. Uma viagem de 8km até o estádio sai pela "bagatela" de R$ na tabela.