icons.title signature.placeholder Caio Carrieri, Fellipe Lucena e Thiago Ferri
24/04/2014
07:30

José Carlos Brunoro, diretor-executivo do Palmeiras desde janeiro do ano passado, é um homem de múltiplas funções. Ele é consultado sobre a posição da mesa na nova sala de reuniões da Academia de Futebol, acompanha de perto as reformas no local, atende a diversos telefonemas, negocia renovações, contrata jogadores e... Recebe por produtividade.

O dirigente, que chega à sua sala no prédio administrativo às 10h, almoça no clube e só sai por volta das 23h, gargalha ao lembrar de uma das poucas vezes em que se irritou com as críticas de um torcedor.

- Ele falou que eu tinha de trabalhar mais. Aí eu não aguentei.

Esta dedicação quase em tempo integral ao Verdão faz com que ele acompanhe menos do que gostaria o crescimento dos filhos Franco, de nove anos, e Laura, de oito. Mas também o faz se encher de confiança ao falar de diversos assuntos, inclusive os que geram cobranças, como a dificuldade na renovação de Alan Kardec e a falta de patrocínio. Acompanhe a seguir o resultado da conversa de mais de uma hora que Brunoro teve nessa quarta-feira com a reportagem do LANCE!Net.

LANCE!Net: Se o Alan Kardec não ficar, será uma surpresa para o clube?
Brunoro: Não veria surpresa nenhuma. Qualquer jogador bom não fica se aparece boa proposta. Não é uma situação do Palmeiras, é uma situação do mercado. Então esse tipo de situação pode acontecer. Estamos na ciranda do futebol.

Mas é uma surpresa ter dificuldade de acertar salários com ele?
Não é uma surpresa, porque sou muito frio em termos de negócios. Às vezes demora um pouco mais, às vezes se chega a um acordo, às vezes não se chega. O jogador briga pelo seu futuro e o clube briga para preservar o seu orçamento. Uma coisa é fato: o Palmeiras, a partir dessa gestão, não atrasou salário, não atrasou imagem, não atrasou absolutamente nada do dia a dia. No futebol e em todas as áreas no Brasil, infelizmente parece que fazer o certo é estar errado. O Paulo Nobre quer que no futuro o Palmeiras tenha receitas e despesas iguais. Tem muita gente que fala: “Que se dane a dívida! Faça como qualquer time, endivide-se, traga os jogadores e dane-se”. Estamos buscando um crescimento sustentável. O que é isso? Ser competitivo sempre. Posso brigar pelo primeiro lugar amanhã porque contratei um monte de jogadores legais, mas depois perco esses jogadores, não consigo me manter porque fiquei endividado e vou brigar para não cair.

A sustentabilidade está acima da importância do Kardec no time?
O Palmeiras está acima de todo mundo: do jogador, de mim, do presidente. É uma entidade e tem de ser respeitado.

As declarações do pai do Kardec atrapalham?
O pai do Kardec esteve aqui em uma das negociações, conversei muito com ele, expliquei as razões de o Palmeiras estar demorando. Ele entendeu. O pai sempre vai defender os interesses do filho. Se ele defende desta maneira, a gente tem de respeitar, é situação de negócio.

Alan Kardec e Wesley negociam suas renovações com o clube (FOTO: Ale Cabral)


Acha que um rival pode oferecer mais para inflacionar?
Tenho certeza, futebol virou ambiente de negócio. Qual é a situação de qualquer empresa? Enfraquecer a concorrência, está no jogo.

O Palmeiras tem até o fim de maio para exercer a prioridade. Acha que se arrasta até lá?
Não, não. E nem pode. É questão de dias, para o sim ou para o não.

Você disse que o Palmeiras está pagando em dia, mas a premiação da Série B atrasou porque o clube usou o dinheiro para pagar dívidas com o Henrique. Foi acertada?
Não atrasamos salário, imagem... Os jogadores sabem que a premiação depende de arrecadação. Tivemos problemas, sim, porque tiramos dinheiro de um negócio que estava previsto para outro. Não lembro (se foi quitado), preciso consultar o financeiro, mas parece que sim.

Luis Felipe voltou a treinar com o elenco. Teme que ele seja vaiado se voltar a jogar pelo clube?
Estávamos esperando a situação jurídica ser resolvida. Ele está no elenco e agora é uma questão técnica. É lógico que tem outras opções na frente, pelo tempo que ele ficou parado. Se entrar em campo e a torcida reclamar, é um problema nosso e dele também. É uma situação que foi criada desta maneira.

A culpa foi dele?
Não vou entrar neste mérito. É um jogador integrado ao elenco, não vou achar culpados agora. Ele sabe que foi integrado porque teve um processo judicial e perdeu. Estamos agindo com a maior hombridade possível. Agora é treinar, ou então esperar  aparecer um negócio.

Contratar o Victorino, que não joga desde setembro de 2012 e ainda não estreou, foi um erro?
Não, porque foram feitas todas as pesquisas sobre o Victorino e ele se lesionou de novo. Não vejo problema nisto. Quantos jogadores foram contratados e um mês depois se lesionaram? O Wesley, por exemplo.

Falando em Wesley, as conversas para renovar já começaram?
Já começaram, mas a gente não tem muita pressa. Ele tem contrato conosco até fevereiro do ano que vem, então podemos ir com calma, colocando as prioridades na frente.

Há o desejo de vendê-lo?
Qualquer jogador do Palmeiras é negociável a qualquer tempo. Desde que venha proposta em valor condizente, de modo que todos possam ficar confortáveis na negociação.

Em julho, o Palmeiras receberá de volta o lateral-direito Weldinho. Ele estava encostado no Corinthians e assinou por cinco anos. Por quê?
Porque é jovem, a gente apostava que não estava sendo aproveitado e poderia ter um futuro aqui, jogar, se aprimorar. São apostas que todo mundo faz. A gente não sabe o que vai acontecer. Lá na frente ele pode virar o melhor lateral-direito do Brasil e ponto. Ninguém vai reclamar.

É difícil trabalhar sem a receita de um patrocinador master?
É dificultoso, mas não é difícil. Estamos buscando alternativas. Aumentamos a base do sócio-torcedor, o número de produtos licenciados, os contratos vigentes. Temos uma série de outras coisas que estão compensando. Lógico que não a nível de patrocínio master, mas estamos compensando. Só que a falta do master fica visível, até como argumento de crítica. Mas queria perguntar o contrário: que patrocinador entrou no futebol brasileiro desde o ano passado? Só a Caixa, ou entrou algum novo? A dificuldade está aí. Vocês assistem televisão, e qualquer publicidade hoje tem alusão a quê? Copa do Mundo. Onde eles estão gastando? Na ativação da Copa do Mundo. Justificativas válidas não serão aceitas, mas é o que aconteceu no mercado.

Com o patrocinador, o time estaria melhor do que está hoje?
O time hoje está bom, sem problemas. Não prejudica.

A expectativa é de fechar com um parceiro só depois da Copa? A Caixa estava perto, mas recuou...
Não sei, não gosto de falar em hipóteses. Não paramos de trabalhar, trabalhamos todos os dias em função disso, estamos visitando empresas, conversando, ligando... Já visitamos mais de 250 empresas. Tivemos, sim, um projeto entregue à Caixa. Ela respondeu ao mercado, não ao Palmeiras, que ficaria só com os times grandes que tem hoje, e buscaria equipes menores de outras regiões.

O assunto te incomoda?
Incomoda, porque vários times grandes ficaram sem patrocínio por um ano, e só no Palmeiras fica essa cobrança. Pessoalmente me incomoda. Tem um time grande que está sem patrocínio master há mais de um ano também (Santos). O Flamengo ficou quanto tempo? E o Corinthians? Por que só no Palmeiras tem que ficar essa cobrança? Parece que a gente não está fazendo nada, mas estamos trabalhando em outras frentes para compensar.

Os empréstimos pedidos em nome do presidente já superam os R$ 80 milhões. Como serão pagos?
É assunto interno. Eu não tenho autorização para falar sobre isso.


Gilson Kleina é defendido por Brunoro (FOTO: Reginaldo Castro)

No processo de renovação do Kleina, você foi um dos maiores defensores. Acha que ele cumprirá o contrato até o fim do ano?
Sou pela continuidade de todo treinador. Fui treinador de vôlei por 20 anos e treinei um único time por 14 anos. Sei da importância da continudade, sempre brigo por ela, mas o futebol em alguns cenários é um pouco diferente. Às vezes, o “quarta e domingo” tem muita influência. O Kleina sabe minha opinião, sabe que tem o apoio da diretoria, e teve mais de uma vez. Os 6 a 2 (contra o Mirassol), a derrota para o Ituano, e o Paulo não deixou nem falar qualquer coisa... Não dá para prever. A continuidade é importante, mas às vezes a gente não consegue.

Marcelo Bielsa, que negociou com o Palmeiras, está indo para o Olympique de Marselha (FRA). Sente uma pontada de inveja?
Não, porque o Bielsa é um treinador de ponta, muito forte. Conversamos, sim, mas de uma maneira bem abrangente, sabendo que a nossa realidade estava em casa, só queria ouvir mais alguma coisa, então não me deu inveja, porque estou muito bem servido em casa.

Paulo Nobre diz que faz avaliações periódicas do trabalho do Gilson. Como foi a última?
Foi positiva, tem feito um trabalho muito bom neste ano, é só ver o retrospecto. A análise não é por um jogo, é pelo todo, então o crédito está muito maior do que o débito (risos).

O elenco será enxugado?
Vamos ter voltas de empréstimos, vai começar o período de inchar um pouco para emprestar. Desde que a gente assumiu, todos os empréstimos de jogadores jovens fazem parte de um plano de carreira. A gente empresta com acompanhamento, para saber se amanhã poderá voltar, como foi, se tem uma nova postura. Não é empréstimo por emprestar. E tem o de troca por jogador, essas coisas, que fazem parte do dia a dia. O número ideal é o técnico que passa. E ele sempre quer trabalhar com 30, 30 e poucos. Em teoria, seriam 33.

O torcedor vai conseguir matar as saudades do Palestra Itália ainda nesta temporada?
Tomara que sim, mas o Palmeiras está em uma fase de intermediação judicial, então não pode se pronunciar sobre esse assunto.

O Palmeiras cortou relações com suas organizadas. Houve diálogo com outros clubes sobre a relação com torcedores deste tipo?
É uma postura do Palmeiras com relação às suas organizadas. Sempre contra a violência, não contra a pessoa. Não nos manifestamos com outro clube, é uma postura nossa. Se outros quiserem aproveitar, fiquem à vontade, mas é postura nossa.

Você já recebeu ameaças?
Ameaças, não, mas ofensas o tempo todo. Mensagem, celular, ligação, na rua... Sou uma pessoa pública, mas não quero perder meu espaço privado. Ando na rua normalmente, porque nunca fiz nada de errado. Houve preocupação com a segurança no clube, sim. Falou-se para tomar mais cuidado, olhar por onde anda. O próprio Paulo, falamos para andar com mais segurança. Eu nunca quis, ando sem segurança. O Paulo está com um pouco mais de cuidado em algumas situações.

Qual o tamanho da cobrança por títulos no centenário?
A gente não trabalha com a obrigação de “eu tenho de ganhar um título no centenário”. Trabalhamos para montar um time competitivo. Se ganhar, é porque foi competente. Esporte não é ciência exata. Se fosse, o Real Madrid ganhava todo ano.

Você acha possível um dirigente ganhar por produtividade?
Eu ganho por produtividade.

Como funciona?
Por metas alcançadas em várias coisas, porque não estou só no futebol. Só queria esclarecer que o Palmeiras não colocou o modelo de contrato por produtividade porque eu tenho, por favor, porque senão vão achar que eu estou querendo transferir aos outros porque ganho assim.

Enquanto outros clubes não adotarem, o modelo atrapalha?
Friamente, sim. É muito mais cômodo o jogador ganhar um salário cheio, no valor que quer, do que um pedaço bem expressivo cheio e outra parte em produtividade. Mas também pode ajudar, porque se ele aceitar esse desafio pode ganhar mais do que tinha pedido. Ele vai se preparar melhor, jogar melhor, pode ser convocado e vendido. É motivação.

É por isso que as negociações tem sido mais demoradas?
Acho que sim, é um aprendizado para todo mundo. Demora um pouquinho mais para fazer conta, entender o processo. Eles fazem várias perguntas, sempre há preocupação com lesões, mas é o risco de qualquer coisa. O futebol poderia colocar o jogador que não joga na Caixa. Um funcionário que está parado há um tempo passa a receber do Governo. O futebol não faz isso, nós não fazemos.

Há algum seguro para lesões mais graves?
Não. A gente responde francamente. Não joga, não recebe.