icons.title signature.placeholder Caio Carrieri e Valdomiro Neto
29/06/2014
06:00

Van Gaal desce de ônibus holandês (FOTO: Ari Versiani)

Van Hitler! Essa foi a manchete do jornal esportivo romeno Pro Sport, em outubro de 2012, em referência ao técnico Louis Van Gaal, na véspera do confronto contra a Holanda pelas Eliminatórias da Copa. O forte título gerou represália da Federação Holandesa de Futebol, que negou credencial aos autores da matéria na partida de volta. A situação mostra quão controversa é a figura do treinador da seleção laranja.

– O problema é que o Van Gaal é o Hitler do futebol. Ele sabe trabalhar, é inteligente, mas o comportamento é como se estivesse no exército – desabafa Márcio Santos, ex-zagueiro que foi um dos brasileiros, como Rivaldo e o zagueiro Lúcio, a sofrer nas mãos do técnico.

O italiano Luca Toni, ao ser dispensado do Bayern na época em que o técnico chegou na equipe, foi duro na sua avalição a respeito do holandês. 

- Van Gaal não gosta de brasileiros, argentinos ou até mesmo de italianos. Prefere trabalhar com holandeses, alemães - jogadores que têm a mesma mentalidade - delcarou, em entrevista ao jornal Bild, da Alemanha. 

Jornal romeno compara Van Gaal a Hitler (FOTO: Reprodução)

O Mundial tem ilustrado bem o que alguns entendem como postura arrogante do técnico. Nas entrevistas sempre sobram ironias com jornalistas, em especial conterrâneos de Van Gaal. Nas respostas é comum que tente desqualifcar o perguntador. Após jogo contra a Austrália, em Porto Alegre, assim respondeu sobre a associação entre a vitória e o esquema.

– Essa é a sua conclusão. Você aparentemente sabe mais do que eu. Não resolvi essa equação, mas você aparentemente resolveu.

A forma de escalar a equipe, na sua oscilação entre o 5-3-2 e o 4-3-3, este último mais clássico do que chama de "escola holandesa de futebol", é frequente fonte de atritos entre o técnico de 63 anos e a mídia do seu país natal. Em todas as entrevistas o tema se faz presente e sempre há um comentário entre o irritadiço e o sarcástico. 

- Eu já expliquei algumas vezes essas mudanças de esquema, mas as pessoas na Holanda parece que não querem entender - declarou na mesma coletiva. 

Para outros, o estilo está mais para rabugento que arrogante. A queixa à Fifa por sentir-se atrapalhado por uma câmera na lateral do campo seria um exemplo dessa faceta. Ele também chegou a resmungar sobre o horário do jogo do Brasil na última rodada da primeira fase, o que supostamente favoreceria a seleção da casa. Declaração que gerou revide de Felipão, que classificou de "burro ou mal intencionado quem diz isso". 

E os títulos por clubes, além da boa campanha da Holanda no Mundial, mostrariam que seus métodos são bem aceitos por parte dos atletas. Acumula taças por Ajax, Bayern e Barcelona, entre eles Liga dos Campeões, Mundial de Clubes, Campeonatos Alemão e Espanhol. 

Curiosamente, seus jogadoressão dos que têm mais liberdade neste Mundial. Recebem visita de familiares na concentração, no Rio de Janeiro. O técnico explica que isso tem uma intenção estratégica:

– O efeito nos jogadores da presença de mulheres e filhos ao vivo é maior que por telefone – declara, mostrando o seu viés liberal.


ENTREVISTA: EX-ZAGUEIRO MÁRCIO SANTOS FALA DE VAN GAAL

O que faz atualmente?

Eu encerrei a minha carreira em 2004 e administro um shopping Center aqui em Balneário (Camboriu). No ano passado fui convidado para ser vice-presidente do Blumenau, subimos para a segunda divisão e vou definir em alguns dias se continuo ou não no cargo.

Como foi o período de convivência com o Van Gaal?

Ele teve problemas...

Com jogadores brasileiros, né?

Começou comigo pelo jeito. Logo depois da Copa (de 1994), eu fui vendido para a Fiorentina. Nos últimos cinco jogos do Campeonato Italiano, eu estava sendo acompanhado pelo Ajax, mas não sabia. O Van Gaal pediu para um auxiliar dele me acompanhar. No último jogo do campeonato, em casa, contra o Milan, eu viajei no mesmo dia para a Inglaterra para disputar uma copa com a Seleção. E ele também mandou um assessor dele me acompanhar. Nós fomos campeões, e na mesma noite depois da final aceitei ir para o Ajax. Mas o que atrapalha é o seguinte: o Van Gaal é o Hitler do futebol. Ele sabe trabalhar, é inteligente, mas o comportamento dele com o grupo é como se estivesse no Exército. Ele era bem ditador, o time era vencedor, mas o ambiente fica muito pesado com o trabalho dele. Era bem difícil. Ninguém merece trabalhar com ele por três anos, como eu trabalhei.No futebol, o treinador não pode aparecer mais que o jogador, que está exposto na hora do jogo dentro das quatro linhas. E o Van Gaal tem esse detalhe de ser muito centralizador, egocêntrico, ele não suporta aparecer mais do que ele. Então, quando um jogador começa a se destacar e é assediado pela imprensa, ele fica incomodado. Se o jogador dá mais entrevista do que ele, está errado. Aí que ele começa a pegar no pé de jogador e ter as desavenças.Por exemplo: eu fui o primeiro jogador brasileiro da história a jogar no Ajax, que sempre teve a cultura de revelar ao invés de contratar. Cheguei lá sendo campeão do mundo e experiente. Eles me contrataram porque o Rijkaard tinha encerrado a carreira, e tinha visto o meu perfil como perfeito para ficar ocupar essa vaga. O Rijkaard estava jogando como líbero no fim da carreira, pensaram que eu poderia fazer isso também e me contrataram.Se você for analisar a trajetória do Van Gaal, ele saiu do Ajax e foi para o Barcelona. Na época, o Rivaldo era o melhor jogador do mundo, era o destaque no planeta, fazia gols maravilhosos e era o centro das atenções. O que o Van Gaal fez: já se sentiu incomodado com isso e começou a colocar o Rivaldo aberto pela ponta esquerda, mais aberto, para não aparecer tanto. Mandou o Stoichkov embora. Ou seja, sacaneou logo no começo os grandes jogadores do time. É comprovado que ele não suporta que um jogador apareça mais do que ele.


Qual foi o primeiro problema que você teve com ele?

O auxiliar dele estava me acompanhando nos jogos sem eu saber, né? Eu sempre joguei de quarto-zagueiro: na Fiorentina, na Copa do Mundo. E o Ajax sempre jogou com um líbero, atrás dos zagueiros, que são praticamente laterais. Você tem que cobrir do meio até a linha de fundo praticamente. E eu não tinha essa característica de velocidade. Então no primeiro dia começou a minha rusga com ele. Fui conversar com ele para saber como ele gostaria que eu jogasse. E ele queria me colocar quase como lateral. Falei: "Não, pô, não tenho condição, agilidade e preparo físico de ir e voltar. O meu estilo é outro, sou quarto-zagueiro. O senhor sempre me viu jogar na Fiorentina e na Copa do Mundo eu sempre joguei como quarto-zagueiro. Não vou me sentir bem”. Ele já respondeu com autoritarismo: “Você vai jogar assim! Nós contratamos você para jogar nessa posição". Eu falei que preferia não jogar e esperar uma oportunidade como líbero. Na época, o líbero e capitão era o Danny Blind (pai do Blind da seleção atual), que é atual auxiliar da comissão técnica. Então começou a minha polêmica com o Van Gaal, que falou que eu tinha de jogar onde ele queria.
Eu tinha de jogar bem onde eu me sentia bem, não atrapalharia o Ajax nem meu nome. Aí começou o campeonato, ele me colocou duas ou três vezes nessa posição, não gostei e pedi para não ser mais convocado. A partir daí ele me colocou na reserva em uma boa parte do campeonato e começou a nossa briga.No meu primeiro ano lá tinha cinco competições: Champions League, o Mundial que ganhamos do Grêmio no Japão, antigamente tinha a Supercopa européia, que era entre o campeão europeu contra o campeão da UEFA, Copa da Holanda, Campeonato da Holanda. Na Champions League ele não me colocava. O Danny Blind se machucou, aí eu joguei na primeira fase inteirinha e fui muito bem. Arrebentei. Quando o Danny Blind voltou, ele me colocou na reserva. Deixei de ir para a Seleção, porque eu não estava jogando. A Seleção jogou dentro do nosso estádio, contra a Holanda, e eu não fui convocado porque não estava jogando. No segundo ano eu estava sem vontade nenhuma de retornar, porque eu sabia o que eu iria encontrar pela frente. Em 1997, eu pedi para ser emprestado para poder voltar para a Seleção. O Atlético-MG fechou um empréstimo com eles de sete meses, fui bem na Copa do Brasil, no Campeonato Mineiro e voltei para a Seleção. Fui campeão da Copa América em 1997, na Bolívia.

Você que os problemas que ele tem a maioria foi com brasileiro ou é ego dele mesmo?
É o perfil dele, mas aconteceu mais com brasileiro. Comigo no Ajax, com o Rivaldo no Barcelona, com o Lúcio no Bayern de Munique. Então, por coincidência, sempre foi o brasileiro. O que acontece: no Ajax, os jogadores estão no clube desde pequenos. Essa era a cultura quando eu cheguei lá, depois mudou. Mas ele (Van Gaal) tratava os jogadores como se fossem meninos. Mas não dá para você tratar jogadores experientes como garotinhos. Eu tinha experiência, jogado na Itália, mas para ele eu tinha que baixar a cabeça e acatar as ordens que ele dava, que só tinha que falar “amém” para tudo aquilo que ele falava. Na opinião, jogador famoso não pode ter opinião. Você tem que ouvir os jogadores, mas ele nunca aceitou um “A” de ninguém.
Ele é um ótimo treinador, vê o jogo muito bem. Ele não é de falar muito. Fica durante o jogo com um caderninho na mão, só anotando, aí no intervalo ele sabe consertar. Impressionante, ele tem esse poder. Que ele é muito bom treinador, eu não posso negar. Já vi ele reverter grandes jogos, até na Champions League. Infelizmente o problema dele é o caráter. Ele deve ter problema até com o dentista dele, porque para mostrar os dentes é bem difícil. Está sempre sério. As únicas vezes que vi ele sorrindo foram nas festas do final do ano, porque ele bebia. Você não reconhece quando ele está bêbado, com álcool na cabeça. Fica irreconhecível, dando risada. Ao invés de tomar água, ele poderia tomar um pouco de álcool para trabalhar durante o dia.
Aquele Ajax era o melhor time do mundo, fomos campeões de tudo. Foi a fase mais vitoriosa da minha carreira.

Na Copa, ele já teve alguns problemas: reclamou do Brasil, de posicionamento de câmera no Beira-Rio...

Isso para mim não é novidade nenhuma, porque ele reclama de tudo. Eu ficava impressionado com isso. No clube, todo mundo tinha medo dele, até o presidente. Ele se intrometia em tudo: negociação, na cozinha, diretoria, viagem ele que tinha que dar a última palavra sempre. Foi difícil trabalhar com ele, porque se achava Deus. Ele tem esse problema de querer dominar tudo e colocar tudo do jeito dele.

Ele foi o pior treinador que você teve para um ambiente de um clube?

Ele fazia umas coisas que eu não achava legal. Na Holanda existem muitas pessoas de cor, de país que foi colonizado pela Holanda. E na hora da concentração, os jogadores morenos tinham de ficar sentados numa mesa, em um grupo grande, de até seis negros. Ele que definia e também falava a hora que cada mesa iria se servir. Eu nunca vi isso em futebol, só lá. No Brasil, no jantar, você se serve na hora que você quiser e também se senta na mesa que bem entender.

Ele tinha comportamento racista?

Ele tratava todo mundo bem, mas não sei se a pessoa de cor ficar na mesa separada tem a ver com a cultura holandesa. Mas foi um choque grande para mim nas primeiras concentrações: os negros sentados separados, e os branquinhos do outro lado.

Mesmo com vários problemas, ele é um treinador vencedor. Como explica isso?

Como ele é muito rigoroso e detalhista, os jogadores têm de ser perfeitos e isso gera resultados, por incrível que pareça. Se um lateral-esquerdo fosse inverter o jogo para o direito e lançasse atrás da linha da defesa, ele ficava louco e quase pulava dentro do campo, porque achava que assim atrasava o contra-ataque. Então, ninguém queria que tivesse intervalo. Se fosse o jogo inteiro corrido, melhor. No intervalo, o vestiário tremia. Mas ele tem esse dom, os jogadores trabalham com afinco naquilo que ele pede. Então dá resultado.

Qual seria, então, o perfil de treinador ideal para você?

O grupo tem que gostar do treinador. Se não gostar, não adianta. O Van Gaal é um capítulo à parte no futebol, porque mesmo sendo desse jeito, ele consegue títulos.

Você nunca mais encontrou com ele?

Não, nunca mais.

Você acha que a Holanda vai longe na Copa?

Eu acho que vai, porque ele está no ambiente dele e habitat natural dele. Em outra cultura e outro país, ele não pode fazer nem 50% do que faz com os jogadores da Holanda. Ele é meio ditador, e os holandeses funcionam com ele. Mas nos outros países ninguém é obrigado a ter a mesma paciência que os holandeses têm com ele.

Você chegou a ter alguma briga mais ríspida com o Van Gaal?

Brigar de vias de fato não, mas já levantei da mesa e deixei ele falando sozinho. Com qualquer pessoa que ele fala, seja comigo ou um presidente, ele fala como se fosse com um garoto. É autoritário e tem que mandar. A última palavra tem que ser dele, mas não pode ser assim, tem que ter democracia.

Se você tivesse a chance de encontrá-lo de novo, o que falaria para ele?

“Que ótimo que a Copa é no Brasil, porque assim você pode ver que brasileiro é gente boa”.