icons.title signature.placeholder Gabriel Carneiro
10/02/2015
08:26

Os apelidos sumiram do futebol brasileiro. Hoje em dia, nomes como Zizinho, Pelé, Tostão, Garrincha ou Zico dificilmente passariam pelo crivo de dirigentes e empresários que aproveitaram a onda da profissionalização do esporte e apostaram em nomes duplos e pomposos para suas jovens promessas. Tostão, por exemplo, seria associado àquela falta de jogo (conhecida também como "paulistinha"), não ia servir, teria que ser o Eduardo Andrade. Garrincha, que trouxe o apelido do passarinho da infância, é outro que seria obrigado a mudar.

Um claro exemplo do abandono dos apelidos é o meia Danilo Neves, contratado pela Ponte Preta para 2015. O jogador de 22 anos ficou mais conhecido no Paulistão do ano passado, quando defendia o Grêmio Osasco e era chamado pelo carismático apelido de Tchê Tchê. Pois saiba que não há mais Tchê Tchê. Assim que chegou à Macaca o jogador pediu para ser chamado por seu nome e sobrenome de batismo. O motivo? Passar mais seriedade.

- Tchê Tchê é o meu apelido de infância. Um amigo meu colocou, porque ele disse que eu era parecido com um tal de Tchê Tchê da rua dele e acabou esse apelido pegando em mim também. Já estou acostumado com o apelido, mas aqui na Ponte eu acho melhor o Danilo Neves. Passa mais seriedade - justificou o ex-Tchê Tchê, agora sério.

Um clube tradicional em dar fim aos apelidos é o São Paulo. Anos depois de fazer Dinei se tornar Diego Tardelli, Madruga virar Leonardo, Marcelinho ser Lucas e Edson Ratinho ser batizado como Edson Ramos, o Tricolor segue cobrando seriedade de suas promessas da base. O volante Gustavo Hebling, destaque na Copa São Paulo de Juniores, também atenderia se fosse chamado de Pira, por causa da cidade onde nasceu, Piracicaba, no interior de São Paulo. E sabe o Wellington Cabral, lateral-direito de boa habilidade? Ele era o Foguete, que passou por várias categorias de base da Seleção Brasileira e foi contratado recentemente do Vasco.

A mudança de Foguete para Wellington Cabral, no entanto, foi gradual, já que ele passou um tempo sendo chamado de "Wellington Foguete" antes de abandonar de vez a alcunha. O São Paulo também tentou fazer igual com o lateral-direito Caramelo, ex-Mogi Mirim. O jogador, no entanto, não ficou muito tempo no clube e parou em Mateus Caramelo. Hoje, ele defende a Chapecoense.

- O atleta hoje em dia já é planejado pensando na sua venda para o exterior, então o nome que vai ter é só para aumentar a receptividade no mercado internacional. Por isso os apelidos estão cada vez mais escassos, pela abertura do mercado. Mas a verdade é que o politicamente correto deixa o futebol mais chato. A gente se preocupa com algumas perfumarias, foca na embalagem do jogador e o mais importante é deixado de lado. Se o jogador for bom ele vai ter mercado internacional se chamar Foguete ou Grafite - justifica o professor Flávio Janones, especialista em marketing esportivo, ao LANCE!Net. O profissional ainda deu outro motivo para o processo:

- Nomes pomposos dificultam a assimilação por parte da imprensa. Não tem espaço nos jornais e nos sites para escrever aqueles nomes rebuscados e compostos. Para a grande massa também há um prejuízo. Perde o charme, não tem jeito.

Dirigentes afirmam que o abandono dos apelidos só ocorre se eles forem prejudiciais à sua imagem. Então como explicar que o Yago Pikachu, em referência ao Pokémon, tenha vingado e siga no alvo de grandes clubes do Brasil enquanto veste a camisa do Paysandu? Ou então que Flávio Caça-Rato, que realmente caçava ratos na infância, não tenha se tornado ídolo do Santa Cruz como Flávio Augusto ou Flávio Recife, uma frustrada tentativa de mudança?

Só seria difícil imaginar um ataque formado por Flávio Caça-Rato e Rafael Ratão. Mas o Santos tentou resolver esse problema... O mesmo clube que por muito tempo rejeitou o apelido de Gabigol e tentou cravar Gabriel Barbosa, quis chamar Ratão de Rafael Silva. Não pegou.