icons.title signature.placeholder Marcello Vieira e Vitor Pimenta
16/11/2013
06:03

O deputado-federal, ex-jogador e ex-treinador do Fluminense, Deley, é o candidato da oposição à presidência do Tricolor na eleição que ocorre no dia 23 de novembro. Postulante ao cargo mais importante do clube que adentrou pela primeira vez quando tinha 14 anos de idade para nunca mais sair, Deley recebeu a reportagem do LANCE!Net num escritório localizado no Centro do Rio de Janeiro para uma conversa de pouco mais de uma hora, quando aproveitou para contar por que deseja comandar o Flu no próximo triênio, revelar propostas, rebater críticas e, como todo bom oposicionista, criticar bastante o trabalho feito pela situação. Deley, inclusive, utilizou uma frase de Nelson Rodrigues, autor preferido, para sintetizar aquilo que pensa a respeito do concorrente, Peter Siemsen, que tenta a reeleição.

- A granfina de narinas de cadáver entrou pela primeira vez no Maracanã e a primeira pergunta que ela fez foi: quem é a bola? A partir dali ela começou a entender tudo de futebol. Acho que essa frase de Nelson Rodrigues serve para explicar o que anda acontecendo no Fluminense. As pessoas estão desiludidas com as promessas não cumpridas. Prometeram um novo Fluminense, mas eu não vejo nada de novo. Esqueceram o clube e a parte social. É mais do mesmo. O Fluminense não foi criado nos últimos três anos. É uma instituição que nasceu vencedora há 111 anos. Parece que se esquecem disso - criticou.

Bem-sucedido politicamente, Deley garante não querer utilizar o Fluminense como trampolim político, contudo diz convicto que o Flu, caso ele seja eleito, irá se beneficiar com as possibilidades de articulações que pode conseguir em Brasília, entre elas, uma ousada parceria com a Fundação Getúlio Vargas. Deley também falou sobre como pretende administrar a dívida do Tricolor e desacreditou a Timemania como solução. Para ele, CT é prioridade e Conca uma certeza. Xerém deverá ser uma fábrica de cidadãos.

Não menos importante, à revelia de ter mudado a história de arrecadação do Fluminense em jogos, Deley contestou o contrato firmado com o Maracanã, mostrou preocupação com a espanholização do futebol brasileiro e, na condição de democrata, admite que irá analisar o projeto sócio-futebol e até pode revê-lo, mas num primeiro momento, aprecia a possibilidade de a torcida influenciar cada vez mais no futuro do Flu com direito ao voto.

A título de curiosidade, o time do Fluminense de todos os tempos para Deley atuaria no 4-3-3. A escalação é: Castilho, Carlos Alberto Torres, Thiago Silva, Ricardo Gomes e Altair; Didi, Gerson e Rivelino, Telê Santana, Paulo César Caju e Fred.

Deley se autodefine como uma pessoa que procura, por onde passa, fazer as amizades e se apaixonar por gente. Confira abaixo a íntegra da entrevista do candidato ao mandato de três anos como presidente do Tricolor.

O que o motiva para se candidatar à presidência do Fluminense?

As muitas promessas que não foram cumpridas e toda a experiência que adiquiri de gestão como secretário de esportes em Volta Redonda me faz acreditar que estou apto para a função. Criei vários exemplos que servem para o país como a revitalização do parque aquático da cidade, o trabalho com a terceira idade, deficientes e o Estádio da Cidadania, que deveria servir como modelo perto de tudo que vimos para essa Copa do Mundo. Além disso, naturalmente, tenho essa vontade, paixão, esse amor pelo Fluminense, onde cheguei com 14 anos. É hora de dar essa contribuição. vejo as pessoas um pouco desiludidas, como disse, principalmente pelas promessas que foram feitas e que não foram cumpridas. Também me motivo por tudo aquilo que posso construir com outros grandes e ilustres tricolores.

Você pode especificar essas promessas não cumpridas pela atual gestão do clube?

Eu participei do pleito passado em que se dizia que um novo Fluminense surgiria e fizeram promessas principalmente para os Esportes Olímpicos. Se você for lá hoje, bate um sentimento desolador em relação a essas pessoas. Fora isso, também tem a questão do Centro de Treinamento e várias outras coisas. Eu fico muito assustado quando vejo a atual gestão se vangloriar porque o salário está em dia. Isso é mais do mesmo, uma obrigação. Acho que o Fluminense pode muito mais e tenho projetos para isso. Algumas coisas que essa administração coloca na própria conta não é bem verdade. Por exemplo, a reforma do vestiario, a questão do museu, a Ambev está fazendo isso em todos os clubes. Aí você fala...a mas e o sócio torcedor? Também é um projeto da Ambev que procura fazer o mesmo com todos os clubes. Eu acho que essa gestão falou do novo, mas não inovou em nada. Em termos de futebol o que vimos nesse ano foi falta de planejamento e de comando. Há falhas, claro que houve avanços, eu jamais vou demonizar quem quer que seja e a gente tem procurado manter uma elegancia dentro dessa campanha. Acho que teve algumas coisas que tem que valorizar, mas o Fluminense pode muito mais.

Alguns dos seus apoiadores de campanha, como o ex-presidente Roberto Horcades, Alcides Antunes, Tote Menezes, até mesmo o próprio Julio Bueno, são um pouco estigmatizados na política do Fluminense.  Você não teme que a sua candidatura possa ser atrapalhada por isso?

Eu tenho um respeito muito grande pelos ex-presidentes. Há ex-presidentes na minha chapa, como no outro lado também. Se essas pessoas estão nos apoiando, eu fico feliz. Em momento algum eu falei que A, B ou C vai estar participando da direção, da administração de fato, eu disse sim, Doutor Pedro Trengouse, da Fundação Getúlio Vargas. As pessoas devem até procurar saber mais sobre esse rapaz. Julio Bueno sim, Secretário de Desenvolvimento do Espírito Santo, Secretário de Desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro, o estado do Rio de Janeiro nunca cresceu tanto em sua história. Essas pessoas vão estar ao meu lado. Aquelas pessoas que tiverem algumas coisas mais graves, com certeza não estarão. É preciso olhar para um lado e para o outro e analisar realmente quem é que está ao lado de quem. Não vou passar procuração para quem quer que seja no Fluminense. Trarei pessoas competentes que estarão compenetradas naquilo que a gente deseja. Então eu acho que fica muito pobre esse discurso de apoiadores. Quando você fala dessas pessoas, elas também tiveram erros e acertos, mas pelo menos que eu saiba, nenhuma delas, ninguém, desviou recurso de onde quer que seja. Temos que tomar muito cuidado para entrar nessa discussão e talvez seja melhor que não entremos. Não para mim, mas acho que para o outro lado.

Uma eleição passa naturalmente por diversos processos de composições para a formação da chapa. Recentemente, o grupo político Ideal Tricolor optou por apoiar Peter Siemsen. Em contrapartida, você trouxe a Democracia Tricolor, mas com uma proposta ousada. Foram 80 cadeiras no Conselho Deliberativo do clube mais a vice-presidência. Com tanto poder para um grupo específico, não teme que seja prejudicada a governabilidade?

Acima de tudo, estou feliz que a Democracia tenha vindo. Lamento que o Ideal, que num primeiro momento trouxe tantas críticas a esta Situação, tenha adotado uma posição que é, na minha opinião, até contraditória, mas respeito, faz parte do processo. Tenho tranquilidade total porque, como eu disse, a minha administração vai ser feita à luz do dia. Não posso ficar delegando. Vou realmente assumir a presidência de fato, não de direito. Hoje há uma delegação de responsabilidade que o presidente tem feito. Vou trabalhar de forma transparente e não tenho dúvida que o Conselho estará ao meu lado. A crítica, quando feita, será construtiva. Não tenho medo da crítica, não tenho medo do diferente, da pluralidade, a vida democrática é feita dessa forma. Eu preciso de todos para reconstruir e levar o Fluminense para o caminho que ele tem que trilhar. O Fluminense pode muito mais. A história do clube foi esquecida pela atual gestão.

Você falou que irá exercer a presidência do Fluminense de uma forma plena. Como fazer isso sendo morador de Volta Redonda e com um mandato como deputado federal que o obriga estar em Brasília?

Quando se tem uma equipe competente, a boa administração é possível. O presidente da Vale do Rio Doce não fica lá na cadeira 24 horas. Ele viaja o tempo todo em busca de negócios. Em Brasília, há muitas situações de interesse do Fluminense. Houve até, num primeiro momento, uma crítica de que estava me aproveitando do Fluminense para a questão eleitoral. Digo que é justamente contrário. Vou usar toda a experiência e relacionamento que criei ao longo dos anos em benefício do Fluminense. Já consegui ajudar lá atrás, me ofereci para atuar na administração, ajudar no equacionamento da dívida e menosprezaram isso. Posso dizer o seguinte. É ao contrário. Nós vamos ter muito tempo, há presidentes que passam 10, 15 dias sem comparecer ao clube. Passam uma procuração à outras pessoas e não exercem a presidência em toda sua plenitude. Estou muito tranquilo de que, com uma equipe competente, vou saber administrar esse tempo. O Deley vai estar mais no clube do que o Peter Siemsen está hoje em dia.

Suas críticas ao Peter Siemsen são fortes. Qual sua opinião sobre ele?

É um tricolor que temos que respeitar, mas faltou um pouco mais de maturidade para que pudesse aproveitar as janelas de oportunidade. Acho que ele falha no momento em que não busca o diálogo com esses atores. Não adianta achar que não tem que conversar. O Fluminense é protagonista da história do futebol brasileiro. Então faltou esse diálogo, infelizmente é uma coisa aprendi na minha vida e na política, é que não se deve prometer aquilo que não consegue entregar, então falta um pouco mais de entendimento do próprio futebol. Cometeu-se um erro quando ele quis acumular a vice-presidência de futebol. Eu conheço vestiário, sei como funciona todo aquele dia-a-dia. Mas não tenha dúvidas de que, após a eleição, caso obtenha sucesso, que vou procurá-lo. Quero sempre a ajuda. Tenho uma frase que hoje está na sala da presidência e poucas pessoas sabem. Isso foi fruto de inúmeras discussões que tive com meu eterno amigo Manoel Schwartz. Ela é: "O Fluminense somos todos nós". Então isso tem que ficar gravado. A gente está num processo político interno dentro de tudo. Como diria Tancredo, briguem as ideias, não briguem os homens. O nosso interesse maior tem que ser, acima de tudo, o bem do nosso grande Tricolor.

O mais interessante é que a frase o "Fluminense somos todos nós" foi lema da campanha do Novo Fluminense em 2010...

Infelizmente o Peter usou esse slogan, mas não praticou. Essa foi uma falha dele.

Quem são os tricolores ilustres que ajudarão na sua gestão caso eleito? Já conversou com eles? Até que ponto será o papel de cada um e como se dará essa organização?

Dentro de um processo eleitoral, é preciso fazer algumas articulações. Já dei alguns nomes espetaculares. Doutor Pedro Trengouse, Julio Bueno, posso dizer o Nelson Guilles, que foi financeiro da BR, o Ministro das Cidades, Marcio Fortes. Estarei ao lado de pessoas desse padrão, há vários tricolores que já demonstraram vontade em contribuir e não tenha dúvida de que essa é a grande virtude do presidente e de quem administra. Tirar das pessoas todo o seu potencial e isso demonstrei em alguns momentos da minha vida que a gente consegui fazer.

Muito se critica no Fluminense a forma com que foi implementada a votação do projeto sócio-futebol, com a votação não sendo feita no Conselho Deliberativo, mas por meio de Assembleia Geral. De toda forma, é um plano que mudou a história política do Fluminense, já que nunca houve tantos associados. O que acha deste projeto? Pensa em modificá-lo? É favorável ao sócio-futebol com direito ao voto?

Primeiramente eu tenho que ganhar a eleição para sentar e abrir essa discussão. Quando digo que há três pilares dentro da nossa campanha, uma delas é a participação. Quero dividir essa questão com todos no clube para que possa aperfeiçoá-la. No primeiro momento eu posso dizer que a minha história sempre foi a de um democrata. Então eu acho que quanto mais você democratiza os processos, melhor, mas tudo tem que ser feito com muita responsabilidade. Como você está me perguntando, me parece que foi uma questão tratada de uma forma atropelada. Nós precisamos sentar, rediscutir, pensar, o que eu quero é o bem para o Fluminense. Se for bom para o Fluminense pode não ter dúvidas de que vamos acatar todas as boas coisas que essa administração fez. Não há demonização de ninguém. No primeiro momento eu não tenho problema que o sócio-futebol tenha direito ao voto. Ele é a figura que externa em relação ao carro chefe do clube que é o futebol. O clube social e os esportes olímpicos terão uma vida independente do futebol. O Fluminense tem que buscar através da sua história, tradição, valorizar também esses outros setores.

Você falou em clube social e esportes olímpicos independentes do futebol. Isso tem relação com o projeto em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, correto? Tem como explicar como funcionará essa ideia?

O doutor Pedro Trengouse vai nos ajudar a montar esse plano. É a grande saída para os esportes olímpicos dos clubes brasileiros e vai ser fiscalizada pelo Ministério Público. Já fizemos um estudo profundo com a Fundação Getúlio Vargas e estamos confiantes. Ali haverá independência para buscar recursos públicos. Vamos usar a questão política em benefício do Fluminense, não o contrário. A ideia é termos um CNPJ desvinculado do futebol, principalmente enquanto não se resolve essa questão da dívida. A partir dali você começa a criar maneiras de conseguir recursos para fazer o esporte olímpico sobreviver com as próprias pernas. Eu, por questões éticas, não fazer isso, mas posso pedir aos deputados emendas individuais, posso captar através da lei de incentivo ao esporte, pela lei Rouanet. Posso fazer obras dentro do clube através da própria Fundação. Os Estados Unidos tem como base dos esportes olímpicos as escolas e universidades. O Brasil tem várias escolas sem uma única quadra. Então esse modelo não nos serve. Os clubes estão ociosos, quase quebrando. É uma saída para os clubes. É um outro caminho para ele sobreviver e aí sim trabalhar essa questão de esporte olímpico, das escolinhas, não é a grande saída para o Fluminense, mas também para o Ministério do Esporte e para o Brasil Olímpico. A nossa proposta com a Fundação Getúlio Vargas é gerenciar e fazer o que todos os clubes brasileiros deveriam fazer.

Mudando o foco da conversa um pouco, você tem sido um crítico feroz do contrato fechado nesta temporada com o Consócio Maracanã S.A mesmo com ele tendo modificado a história de arrecadação do Fluminense em jogos. O clube não perde mais dinheiro em partidas e em muitas vezes, capta até receitas importantes. Você mantém essa posição crítica?

Acho que é um contrato ruim. O Fluminense poderia tirar muito mais desse contrato. É onde falo que há uma falha de comunicação. Flamengo, Botafogo e Vasco são nossos adversários dentro do campo, mas quando tem interesse comum nós temos que sentar à mesa. Isso não foi feito. Sabemos perfeitamente o peso de cada um, mas você poderia ter conquistado um Centro de Treinamento por exemplo, poderia ter conseguido uma reforma das Laranjeiras e fazer uma arena para pequenos jogos. Não interessa nem ao próprio consórcio que haja jogos com 10, 15 mil pessoas. Então quer dizer, isso tudo não foi discutido, é muito pequeno quando se diz que não haverá mais prejuízo. Digo mais. Tive contatos com pessoas desse consórcio que têm expertise nesse segmento do futebol e que têm interesse que o produto melhore. Acho que foi muito mal aproveitada a oportunidade e acima de tudo, faltou transparência. Acho que se esse contrato fosse tão bom assim,ele deveria ter passado pelo Conselho, divulgado. Não ter prejuízo no Maracanã é pouco, poderia se conseguir muito mais.

Você citou Centro de Treinamento. O Fluminense tem um terreno cedido pela prefeitura para a construição do CT. É prioridade?

Eu até posso dizer o seguinte. Mantive alguns contatos em relação a essa questão e vários outros, mas acho que neste momento seria irresponsável abrí-los. Eu acho que é prioridade. O futebol do Rio de Janeiro, de modo geral, ficou muito para trás. Se você olhar para São Paulo, o Corinthians ganhou um estádio, o Palmeiras está construindo talvez a arena mais moderna do país, o Morumbi está sendo renovado, o Santos já teve uma oferta do Pacaembu e aqui ficou muito atrasado. Precisamos de um choque de gestão, trazer novas ideias. Os clubes do Rio precisam se falar mais, eu não consigo pensar, em hipótese alguma, quando se vai conversar sobre gestão do Maracanã, que os clubes não tenham sentado e aí o presidente atual do Flu faz um contrato de 35 anos onde o Conselho não teve acesso e não faz ideia do que está acontecendo. O Novo Fluminense que pensamos e é compromisso de campanha, vai ter uma auditoria independente por ano. Nós vamos clarear esse ambiente. Isso que queremos, com toda a experiência que adquirimos com esses três mandatos em Brasília nós entendemos que a função do presidente do clube é política e o que aprendi é que a política é a arte de construir. O Fluminense se isolou, não sabe dialogar com ninguém. Há problemas com o patrocinador, não adianta me dizer que não há porque eles existem. Não adianta falar com a Federação. Na hora de discutir a política do clube o Fluminense tem que ser protagonista nas discussões. O Peter falha neste aspecto. Não adianta soltar foguetes na janela do procurador que não vai resolver a dívida do clube desta forma. Nós, como parlamentares, temos trabalhado muito e queremos resolver não só o problema do Fluminense, mas do futebol brasileiro de uma forma geral.

Uma declaração sua repercutiu mal no momento do lançamento da candidatura para a imprensa. Você disse que o Fluminense tinha que estender o tapete vermelho para a Unimed. Isto não significa entregar ainda mais o futebol nas mãos da patrocinadora? Tem certeza que a relação entre Peter e Celso é ruim?

Me parece que a relação é ruim sim. A política, repito, é a arte de construir, de harmonizar. Você tem o melhor patrocínio do Brasil e ele tem que ser tratado com muito carinho. Já tive a oportunidade de externar isso ao nosso patrocinador. A nossa relação só vai ajudar ao Fluminense. O Fluminense é bom para a Unimed e a Unimed é boa para o Fluminense. Não vou me meter na questão eleitoral da empresa, mas são números, a Unimed cresceu dez, quinze vezes, a partir desse relacionamento. Isso é a prova de que é uma relação boa e espero que dure muito mais. Eu acho, obviamente, que se amanhã, um dia, a Unimed achar que não interessa mais, eu vou lamentar, mas é óbvio que tenho que buscar uma alternativa. Apenas não creio que isso ocorra. Quando falo em estender tapete vermelho é tratar com carinho, não pode menosprezar o maior patrocínio do Brasil e toda essa experiência de futebol que temos só vai agregar dentro da discussão. Não tenho problema nenhum em sentar com o Celso e discutir futebol, já até discutimos, inclusive durante este ano. Várias vezes nos encontramos em Volta Redonda e eu conseguia mostrar coisas que ele concordava plenamente. Não vejo problema em relação a isso. Eu aprendi ao longo da minha vida a construir, harmonizar, então eu acredito muito nisso que trago dentro de mim. Acho que todos nós, acima de tudo, temos que nos respeitar.

O Fluminense acertou o retorno de Conca. A operação não corre riscos caso você seja eleito?

Não tem risco. O clube até pouco tempo estava devendo salários de funcionários. Então quem está realmente contratando o Conca é a patrocinadora. Há pessoas já querendo apadrinhar essa contratação. Eu quero o Conca, quero todos os jogadores bons, eu joguei futebol e sou muito exigente. Gosto de ver gente que sabe tratar bem a bola. Todo cara que tratar bem a bola nós vamos ter interesse. O futebol é uma área que eu posso agregar muito mais do que aqueles que estão lá.

Teme assumir o comando do Fluminense na segunda divisão?

Espero que isso não aconteça. Não é questão de medo, mas espero que não aconteça.

Um dos trabalhos mais elogiados da atual gestão é o que vem sendo realizado nas divisões de base em Xerém. Como você pretende cuidar dessa questão?

Houve algumas melhorias mesmo, mas quando olhamos alguns clubes, vou dar o exemplo do São Paulo e do Atlético Mineiro. O São Paulo conseguiu captar R$ 25 milhões e transformou o CT de Cotia num hotel cinco estrelas. Xerém ainda precisa melhorar muito. Tem espaço ali para fazer uma Vila Olímpica. E claro, entra toda a experiência que nós temos dentro do campo. Inclusive o futebol brasileiro hoje comete um erro muito grande. Nós queremos transformar atleta em jogador de futebol, eu quero fazer o contrário. Quero fazer do jogador de futebol um atleta e um cidadão. Isso nós vamos modificar lá dentro. Realmente conceituar melhor o que tem sido feito dentro de Xerém, em que se pese já revelamos alguns jogadores, mas ultimamente não. Os garotos que estão jogando em sua maioria agora no Fluminense vieram de outros clubes. Nós queremos mudar isso.

Você se preocupa com a grande diferença de Flamengo e Corinthians para os demais em relação as cotas de tv? Teme a espanholização?

Eu acho que tem que ser um preocupação de todos. Me parece que no modelo inglês por exemplo, você tem uma divisão igualitária para todos os clubes e tem um pequeno pedaço que é a meritocracia. Sou a favor de que todos os atores vão para a Brasília, lutamos para essa discussão, o presidente da câmara abriu a aceitou ouvir a posição dos clubes. Eu acho que o futebol brasileiro precisa de uma grande transformação. Precisamos discutir o futebol brasileiro dentro do campo e fora do campo, até porque a sua qualidade técnica hoje é discutível.

Depois dos problemas com a Procuradoria da Fazenda do Rio de Janeiro, o Fluminense enfim conseguiu retornar à Timemania e pode fechar o ano com superávit. A loteria pode ser a solução para a dívida do clube?

A verdade é que voltando à Timemania o Flu consegue liberar os recursos das vendas. Então ele vai conseguir esse tal superávit, mas há um problema muito sério porque talvez o Peter não tenha estudado a matéria, não aparece para as grandes discussões. A Timemania já mostrou que não deu certo, inclusive neste ponto de discussão das dívidas, eu tenho sido um crítico muito grande da Caixa Econômica e ela vai ter que vir para dentro da discussão porque quando se montou a Timemania a expectativa da Caixa era de que se arrecadasse R$ 500 milhões. Ela fez os clubes confessarem a dívida e no final, o que vimos, já aconteceu, o Fluminense começou a pagar e daqui a pouco não conseguiu mais. Não só o Fluminense como os outros clubes. A maioria dos clubes brasileiros estão quebrados, essa é a grande verdade e nós, justamente por isso, montamos uma comissão especial. Eu seria até o presidente escolhido pelos meus pares, só não pude ser pela condição de suplente, então regimentalmente não pude assumir esse cargo, mas de qualquer maneira a Timemania não vai resolver o problema dos clubes e a Caixa Econômica é a grande responsável. O governo tem que realmente olhar o segmento do futebol de uma outra maneira. Olha quanto o futebol gera de emprego à cadeia produtiva do futebol. É o jornalista, o cara que vende o cachorro quente, enfim, o cara que vende a sua bebida, você tem em torno do futebol brasileiro uma cadeia produtiva fantástica e que é mal aproveitada. Para se ter uma ideia, na Inglaterra o futebol representa 40% do PIB, o nosso representa 0,2%. Então há alguma coisa errada. O governo desonerou algumas folhas de pagamento da ordem de R$ 45 bilhões só em 2012, de vários segmentos, então o futebol é um segmento econômico importante e podia ser cuidado com mais atenção. Precisamos parar de demonizar o futebol. Sei de mazelas que foram construídas ao longo dos anos, mas temos que buscar o marco zero, envolver a imprensa, todos os atores que compõem esse universo para que a gente discuta à luz do dia e possa criar oportunidades. Precisamos rediscutir o futebol brasileiro dentro e fora de campo.

Como atacar essa dívida do Fluminense?

Não é a dívida do Fluminense, mas dos clubes brasileiros. São 783 clubes. Funcionam o ano inteiro apenas 100. Você deixa de gerar 30 mil empregos, deixa de colocar na economia R$ 600 milhões, então quer dizer, é um segmento fantástico. O Fluminense durante muitos anos foi o grande embaixador do Brasil e tenho certeza de que o congresso e aí te digo com toda a humildade do mundo que nós temos procurado pautar aquela casa para discutir a dívida do futebol brasileiro. Nós vivemos uma crise fora do campo, administrativa, uma crise técnica dentro do campo que também temos que discutir e é assim que vou tentar.

O que tem achado dessas novas Arenas? Sente saudades do velho Maracanã?

Estamos fazendo grandes arenas para quem? Para fazer o que? Show? O esporte tem que ser tratado da mesma forma que a cultura. Tenho até um projeto sobre o assunto, mas voltando ao tema, a população que realmente fez a alegria e tornou do futebol o esporte mais popular realmente não vai estar frequentando o estádio. Todo mundo que se diz saudosista pode passar a imagem de ser um cara ultrapassado, como dizia o Nelson Rodrigues. Não é isso. O Maracanã teve momentos espetaculares e agora vivemos um novo momento. Esses dias estava vendo um programa na televisão e o Jô Soares disse que não gostou do Maracanã. Eu também quero ter esse direito de não gostar. Aliás o mundo está ficando de uma chatice. Ou é sim ou é não. Eu tenho saudade sim. Se você me perguntasse e eu acho que é o que me disseram, que arquitetura e engenharia pode tudo, eu procuraria atender as exigências da Fifa, mas não o teria descaracterizado como fizeram. Inclusive eu acho que todo esse poder que a Fifa e outras entidades carregam também precisa se rediscutido. Jogadores, treinadores, estes sim, são os atores principais da história. Não eles.

Caso eleito presidente você não teme acabar arriscando o prestígio conquistado como jogador perante à torcida, situação que ocorre atualmente com o presidente do Vasco, Roberto Dinamite?

Não me preocupo com isso. Para falar a verdade, existe muito preconceito com o boleiro. Falam muito do cara que jogou bola como se ele fosse um incompetente, mas quem construiu as dívidas enormes do futebol brasileiro não foram os dirigentes jogadores de futebol, mas dentistas, advogados, administradores. Tem que parar com essa coisa de demonizar os boleiros.

Já sabe quais jogadores gostaria de contratar assim que assumir o Fluminense?

Isso é uma questão que depende das oportunidades de mercado. Eu sou extremamente exigente. Tem que saber tratar a bola com carinho. Para mim, até o goleiro tem que saber jogar com os pés. Acredito que faremos uma ótima gestão e teremos um time bastante competitivo. Sou ambicioso e o meu maior sonho é ver o Fluminense ganhando o título mundial. Quero um clube mais justo, organizado e transparente. Como eu disse, uma gestão para todos os associados.