icons.title signature.placeholder Eduardo Moura
04/11/2013
09:21

Um atleta de futebol tem relação estreita com o campo. É a sua casa, é o seu chão, é o que ele sabe fazer. Um treinador tem, também, um relacionamento quase umbilical com o seu local de trabalho. É lá que ele pertence. Um ex-jogador que é técnico, então, multiplica seu sentimento de satisfação na relva verde. Foi onde o comandante do Internacional, Clemer, recebeu a reportagem do LANCE!Net para uma conversa exclusiva. O ex-goleiro e ídolo do clube falou sobre sua intenção de se manter na profissão para o ano de 2014, mesmo que isso implique em deixar o Inter. Desfraldou conceitos e se vê como um dos nomes da nova geração de treinadores que se firma na atual temporada, sem o nome, mas com resultados e trabalho de campo.

É no gramado, percorrendo os espaços entre os jogadores, orientando, gesticulando, cobrando, que Clemer se sente bem e é onde quer continuar. A diretoria ainda não deu o parecer sobre quem assume em 2014. O próprio técnico afirma que é preciso esperar a temporada acabar. Mas uma coisa é certa: 2014 será o ano para a carreira do campeão pelo Colorado deslanchar.

Clemer se destaca desde os tempos das categorias de base – assumiu o sub-17 em 2011 e este ano, em setembro, foi para o sub-20 antes de ser promovido para o profissional. Foi lá que aprendeu e se aprofundou na teoria e pode a colocar em prática. Descontraído, cordato – algo que é possível observar nos técnicos da nova geração – Clemer sonha com um novo contrato no próximo ano para poder “mudar muita coisa” no Beira-Rio inaugurado.

O momento em campo não é dos melhores. Desde que assumiu Clemer assumiu, após a demissão de Dunga, o Inter tem duas vitórias - Fluminense e Náutico -, três empates - Santos, Atlético-PR e o Gre-Nal - e duas derrotas, para Atlético-PR e Flamengo.

Confira a entrevista exclusiva com o treinador colorado

Sempre dizias que estava preparado para assumir o time principal quando estavas na base. Como tu te vê hoje, teve algo inesperado que tu enfrentou?

Não, não. Tudo aquilo que eu tinha planejado dentro da minha carreira, que poderia ou não acontecer, vem acontecendo no dia a dia. Não tem nenhuma surpresa para mim. Toda a situação que está acontecendo aqui comigo eu já vi dentro do futebol eu jogando, não teve mistério nenhum. Graças a Deus estou sabendo administrar muito bem isso, não foi surpresa nenhuma para mim.

Clemer gosta de times intensos e que juventude é determinante para isso (Foto: Ricardo Rimoli/LANCE!Press)


O ano foi marcado por uma nova geração de treinador, como Claudinei, Jayme, Enderson. Se considera um nome forte dessa nova geração?

Com certeza, mas com uma diferença, eles tiveram um tempo maior de trabalho e treinabilidade. De conhecimento de grupo. Estou a pouco tempo aqui, mas com certeza me incluo no meio desses treinadores que estão surgindo. Era uma oportunidade que estava esperando, e surgiu, independente de como, mas surgiu. Fiquei muito feliz quando a diretoria me deu a oportunidade, estou concretizando todo o pensamento que eu tinha de trabalho, de dia a dia, de comando no vestiário. Isso não é só uma opinião minha, as pessoas comentam. Me sinto feliz por isso, por estar aí tendo a oportunidade e mostrar meu trabalho no cenário nacional.

Ter esse caminho na base, como você e o Claudinei, por exemplo, passa a ser preponderante para o treinador?

Não só a teoria como o trabalho de campo da base. Na base você consegue fazer os treinamentos, consegue mexer, fazer vários tipos de situação de time. A cobrança é menor, quando você erre, mas faz com que você crie várias situações para que quando chegar no profissional, tenha uma estrutura melhor para fazer o que você pensa na equipe profissional. Isso foi muito importante para mim, junto com os professores também, em que aprendemos a teoria e esquemas. Faz com que possa ter um conhecimento bem amplo do que possa acontecer no momento do futebol.

Mudou muito a rotina do Clemer da base para o Clemer do profissional? É mais estressante?

Só a distância, né cara, ia para Alvorada (local do CT da base), longe para caramba (risos). Agora estou perto de casa. Claro que temos uma responsabilidade maior no profissional, a cobrança é maior, os jogadores são profissionais, de nome. Tem que administrar bem, às vezes soltar a corda, às vezes puxar. O mais importante é o respeito que tem que passar para eles, que tem que saber que ali tem um comandante, independente de quem seja. Que a última palavra é minha. Isso faz com que você tenha uma credibilidade dentro dos treinamentos, dentro do vestiário e no dia a dia, com todo o respeito que tem que haver entre as duas partes.

Seu projeto de 2014 é ser treinador, seja aqui no Inter ou em outro clube?

Depende muito de como acabar o ano. Eu me vejo pronto para treinar qualquer euqipe hoje, com toda a minha experiência e com o que eu aprendi nesses três anos da base e hoje aqui no profissional. Com esses jogadores, porque o grupo é de jogadores experientes com jovens, e estou tentando fazer essa mescla, já é uma experiência nova para mim também. Em relação a 2014, temos que aguardar. Não sei se vou continuar aqui, ir emboa, se volto para o sub-23. Não adianta colocar a carroça na frente dos bois e ser precipitado. Espero fazer o meu melhor nesses últimos jogos. Tive pouco tempo aqui dentro, acho que estou fazendo um bom trabalho, peguei jogos muito difíceis. Peguei uma decisão que já fomos em desvantagem, pegamos o Gre-Nal que não merecíamos ter empatado, o jogo com o São Paulo também foi erros pontuais, o jogo com o Fluminense também. Santos na Vila. Dentro de um todo, se for fazer um estudo do geral do que tenho feito, acho que estou bem. Tenho minha autocrítica. Dentro daquilo que foi planejado, as coisas vão acontecer se Deus quiser.

Clemer tem desejo de ficar (Foto: Ricardo Rimoli)


Se o Inter optar por um técnico de mais estofo, você acha que sendo auxiliar poderia ter o mesmo ganho pessoal?

Com certeza, eu trabalharia aqui dentro no profissional. Mas geralmente auxiliar tem que ser de confiança do treinador. Geralmente já tem sua comissão. É difícil chegar alguém aqui e querer como auxiliar alguém do clube. Eu tiro por mim: se for treinador, o auxiliar vai comigo porque é o cara que eu converso de time, tenho a liberdade de falar os prós e contras. Vai do treinador e da comissão. Acho difícil chegar um treinador aqui e me deixar como auxiliar.

Citaste o time sub-23. Não teria problema em voltar se fosse a decisão da diretoria?

Não é o fato de não ter problema. Se não conseguir um clube logo no começo, não teria problema em ficar no time B do Internacional. É o time profissional. Mas meu pensamento não é esse, se aparecer um clube, vou sair. Hoje, tenho que ver outros ares e ver aquilo que eu quero, dentro do futebol. Quero ser treinador, sou treinador. Claro que temos que aguardar um pouquinho para ver o que vai acontecer para frente.

Muitos treinadores tem rótulos de motivadores, ou de táticos. Você considera que está mais para um lado ou tem um equilíbrio?

Tem que ter as duas coisas. É fundamental. Mas o mais importante é o trabalho de campo. Ali você vai movimentar o jogador, dizer o que você que ele faça em campo, no jogo. Tem jogadores que assimilam você falando, mostrando no vídeo, pegando ele em campo. É um conjunto de situações que você tem que fazer no ano. Se tiver um ano todo para trabalhar e não conseguir mostrar isso... Isso é nítido, vai para o campo, é do dia a dia. Não tem como enganar sobre isso. Se chegar no campo e começar a dar treinozinho, o repórter que está ali vai ver “Pô ele não está trabalhando”. É de conhecimento de todos hoje. Por isso o treinador tem que chegar dentro de campo e mostrar o serviço, porque ele vai ser cobrado.

Vimos um treino que cobrava intensidade. Você já falou que se inspira no Tite e no Abel. Mas tem algum conceito no geral que tu se inspira?

Pesquiso muito, vejo os trabalhos que são feitos lá fora. Claro que tem uma diferença grande do trabalho da Europa e do Sul-Americano. A gente procura agregar as duas coisas, trazer para o campo, para o jogador se adaptar. Gosto de trabalho de transição, de posse de bola, de intensidade. Futebol hoje está intenso, time que não tem intensidade não consegue os objetivos. A preparação física evoluiu muito. Condicionamento evoluiu. E quando está bem fisicamente, se tem qualidade, a parte técnica faz diferença. É nesse tipo de situação que gosto de trabalhar em campo.

A idade do jogador é determinante para essa intensidade que você citou?

É determinante sim. Alguns conseguem chegar aos 40 com intensidade. Vou citar um que gosto muito, o Zé Roberto. Tem seus 40 anos, mas tem muita intensidade em campo. É do costume dele, mas é claro que ajuda muito.Jogador com 24 ou 25 anos, consegue ter essa intensidade um pouco maior de que o pessoal que já tem uma idade mais avançada.

Você sempre disse que, como treinador, quer ser cobrado como treinador e não como ídolo. Achas que tem algum ganho em ser ídolo colorado?

Claro que tem, o torcedor sabe quando um ídolo que jogou muito tempo aqui e ganhou títulos dentro fala com sinceridade. Não é aquele que joga só conversa fora. Quando um ídolo chama o torcedor, é porque está precisando o apoio, que o time jogue com a torcida. Porque já vivenciou isso no estádio. Dentro das situações que aconteceram nos anos que ele jogou, eu particularmente aqui no Inter. Na época que conseguimos as conquistas, uma coisa que ficou muito marcada foi o sincronismo entre torcida e time. Quando acontecia, dificilmente a gente perdia jogo. Chamamos um pouco, mas tem que partir primeiro do time. Falo para eles que podemos não jogar bem, mas que o torcedor não quer ver moleza no time. Jogador que é preguiçoso e não quer nada. Pode não estar em um dia técnico dos melhores, mas tem que correr, marcar, mostrar garra. É o que o torcedor vibra. Tem dias que as coisas não vão acontecer, mas o torcedor tem que ver que o time fez de tudo para vencer.

O Abel deu uma série de declarações em veículos de comunicação falando sobre o Inter e a chance de acerto. Como você avaliou isso?

Em relação ao Abel, ele é meu amigo. Difícil eu comentar alguma coisa da declaração que ele deu. Faz parte da cultura do futebol. Não aconteceu só aqui, já aconteceu em várias outras situações. Prefiro até não comentar. Até como o Inter tinha procurado, faz parte. Quando o Dunga saiu, que me botaram, vim para um jogo, depois três jogos e agora até o final do ano. Tem reconhecimento do trabalho que eu estou fazendo aqui dentro. Mas o Abel está no mercado, é um grande treinador, se tiver de vim não sou eu que vou falar nada, é coisa da direção e do Abel. Eu, claro, quero ficar. Se eu tiver um pouco mais de tempo de trabalho acredito que as coisas vão mudar muito aqui.

Clemer conta com apoio da torcida e vê vantagens nisso (Foto: Guilherme Araújo/TXT Assessoria)


Como você vê essa cultura do futebol brasileiro de troca de treinadores e onde está o problema?

Acho que é confiabilidade. Se traz um treinador, tem que saber o que o treinador possa fazer dentro do seu grupo. Por isso o Tite ficou três anos lá. O que ele ganhou? É a confiança no trabalho. Claro que vai ter uma hora... é o nosso futebol. O torcedor quer ver resultado. Às vezes o cara trabalha para caramba e o resultado não vem. Aí vem a possibilidade de mudança. Claro, com consciência, sabendo que qualquer resultado que não vier você mudar, vira bagunça. Aí não tem a confiança no trabalho que está sendo feito. Quando se tem, é outra coisa. “O treinador é esse? Vamos deixar então”. Dar credibilidade para ele trabalhar. Aí tem que acompanhar para ver o trabalho. Se não é o que você pretende, tem que trocar, não tem jeito.

Ou seja, tem que saber avaliar, saber o que está contratando. Não adianta contratar um técnico com conceitos mais defensivos e querer o time para frente...

Tem que saber quem está contratando, o que quer. O que o torcedor e a diretoria quer. Tem que ser bem analisado para que o técnico possa chegar aqui e que faça o trabalho dele.

*Atualizado 15h06