icons.title signature.placeholder Pedro Redig, especial para o LANCE!Net
19/11/2014
08:00

A participação de empresas em parcerias no direito sobre jogadores é a nova bola da vez nos bastidores da FIFA que parece disposta a banir esta prática, ameaçando a sobrevivência do futebol em países onde os clubes dependem de investidores.

A FIFA alega que está protegendo a integridade do esporte e fala em escravidão dos atletas que se deixam se levar por agentes ou negociadores. Reclama também que o dinheiro destes investidores não fica no esporte.

O debate sobre direito economicos entrou em pauta na reunião do comitê executivo da FIFA em setembro e a Liga Espanhola colabora com um projeto próprio para regu lamentar a atuação de terceiros no futebol.

Os que defendem a participação de investidores externos na propriedade de jogadores dizem que estão ajudando não só o profissional como o clube e perguntam o que existe de diferente no dinheiro que mega empresas dão em patrocínios direto para os clubes.

Mais do que isso, advogados como o espanhol Juan de Dios Crespo Pérez alertam que banir o investimento externo pode esbarrar na lei de livre movimentação de capital da Uniao Européia e ser considerado ilegal, pelo menos no continente.

Juan, que está assessorando a proposta espanhola, deu uma palestra na Universidade de Birbek em Londres. E numa conversa com o LANCE!, sugeriu um compromisso com a FIFA para controlar as atividades das empresas e dos jogadores - mas sem proibir.

O depoimento explosivo do advogado Pérez começa com a citação de um filme de Woody Allen: “Tudo que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)” – valendo neste caso para o futebol.

IMAGEM DISTORCIDA

É comum agora dizer que direitos economicos sobre terceiros é que nem escravidão, você pega um jogador jovem e leva ele embora como se fosse para uma prisão. Prefiro falar em investimento em vez de propriedade porque a gente está investindo no clube e no jogador. A FIFA e a UEFA insistem que a posse exerna de diretos de jogadores é a pior coisa do mundo. No no ano passado, eram apostas ilegais a antes racismo. Não são eles que devem ditar o que é certo ou errado. Esta idéia de escravidão e de que o dinheiro está indo embora do futebol não é apenas cínica – ela mostra falta de conhecimento e pouca vontade de chegar a um acordo

Se a FIAT investe na Juventus, isso nao é participação de terceiros? Nao é o mesmo que faz o Barcelona que tem o Qatar por trás deles? E o Bayern de Munique com a adidas.

INVESTIR E SOBREVIVER

Na América do Sul, a gente fala em direitos economicos, não propriedade. Vamos pegar o caso do Neymar que teve um preço de 100 milhões de euros, mais ou menos o que o Barcelona pagou. Mas quem é o dono destes 100 milhões? Parte pertence ao pai de Neymar. É escravidão então porque o pai do Neymar é dono do seu próprio filho? Ainda existe uma empresa que é propriedade do Neymar, mais o clube. No final, tem uns cinco, seis ‘donos’ dos direitos economicos do Neymar.

Estamos falando em escravidão aqui? Não, de maneira nenhuma. O que a FIFA quer proibir são os investidores que vem de fora do futebol. Não é o Neymar, seu pai ou uma companhia deles, um clube. A FIFA tem medo de que o dinheiro externo aplicado no futebol acabe indo embora de novo sem beneficiar o esporte.

Neymar deveria ter vindo para a Europa há dois ou três anos. Porque ele não veio? Porque estava sendo bem pago pelo Santos. O contrato dele foi renovado duas vezes. “

CLASSE MÉDIA FALIDA

A maioria dos clubes na América do Sul e na Europa tem um problema no momento. Eles não tem dinheiro nenhum. “

Clubes como Porto, Monaco, Olympique de Marseille ou o meu Valencia nunca mais vão conseguir chegar de novo a uma final da Liga dos Campeões? Eles são a classe média contra os suspeitos de sempre - cinco ou seis nomes ano após ano. Só alemães, ingleses e espanhóis – nem italianos mais. “

Se você quer participar de verdade de uma competição, a única arma que o Porto tem está no mercado de compra e venda de jogadores.

Brasil e Argentina são os dois países que mais exportam jogadores – e juntos, mais do que o resto do mundo todo. A diferença de 10, 15 anos atrás é que agora existe investimento suficiente para o atleta fique mais tempo no clube e no país.”

FAIRPLAY E ÉTICA

Para as Federações internacionais, um das controvérsias é a influência negativa da participação de gente fora do esporte. Você imagina, sete jogadores de cada lado numa final da Liga dos Campeões, todos pertencendo a mesma empresa? Você acha eles vão aceitar perder por causa disso, que vão jogar melhor ou pior por conta dos donos? Não faz sentido.

Existe ainda o aspecto ético de que dinheiro não é bom para o futebol. Com certeza, nao é ruim quando você recebe dinheiro para transmitir a Liga dos Campeões. A Heineken, a adidas patrocinando. Dinheiro é bom quando vem de fora do futebol mas um clube então, não é futebol? Acho que existe um pouco de sarcasmo aqui – esta visão de que o dinheiro não é etico. Dá para explicar porque?”

COMPROMISSO ESPANHOL

As regras básicas que a Espanha pensa em implantar já na temporada que vem estabelecem que um máximo de quatro joadores por clube podem ter direitos ligados a investidores. Deve haver um registro dos atletas e das empresas que precisam aceitar exigências para operar com a Liga Espanhola. Além disso, limite de 50 por cento entre um clube e uma empresa na participação no jogador.

É preciso saber quem está por trás destas empresas. Não vai ser fácil descobrir os donos de uma uma companhia nas ilhas Cayaman ou em Jersey. Quando a gente sabe que o Messi tinha empresas em paraísos fiscais para driblar o pagamento de impostos, a gente vê que nem tudo é claro e transparente, mesmo nos melhores clubes.

A FIFA diz que a cessão de direitos economicos é contra o futebol. Como alegar que o fairplay é afetado se existe o controle do número de jogadores para cada empresa e o limite de 50% de propriedade? Eu não vejo problema nenhum.O registro e o controle evitariam estas chamadas influências negativas no futebol.”

GRANDE LOBO EUROPEU

A FIFA está com medo de um lobo grande: a União e a Comissão Européia e a Corte Européia de Justiça. Os advogados que trabalham com empresas e clubes com um mínimo de conhecimento da lei européia, sabem que seria difícil proibir totalmente o investimento de empresas em jogadores.

Estamos falando de dois pilares da Uniao Européia: liberdade de movimento para os jogadores e liberdade financeira. A FIFA está numa posição que é como um rocha: não sai do lugar. Eles ainda não tem as regras, mas já tem a decisão.

Mas se a proposta for levada à Comissao Européia, vai ser questionada porque ameaça o movimento de capital. Não estou falando de transação da América do Sul para a Europa, estamos falando de Benfica, Valencia, Shakhtar Donetsk, Porto.

Talvez estejam colocando as coisas na ordem inversa. Decidindo pelo banimento antes de saber se tem base legal. Eu quero ver armas baseadas na lei – não esta conversa de escravidão, fairplay. No final, é melhor controlar do que proibir.