icons.title signature.placeholder Guilherme Borini
27/06/2014
12:04

A eliminação na primeira fase estava longe das expectativas de Portugal para a Copa do Mundo no Brasil. Afinal, quem tem o melhor jogador do mundo no elenco sempre pode sonhar mais alto. Mas nem tudo saiu conforme o planejado: Cristiano Ronaldo esteve em condições físicas duvidáveis, não brilhou durante o Mundial, também não contou com muita colaboração da equipe e a seleção portuguesa decepcionou.

O grupo da primeira fase era forte, com a favorita Alemanha, os Estados Unidos em boa fase, além da sempre surpreendente e competitiva Gana. No entanto, Portugal era apontado como o favorito a ficar pelo menos com a segunda vaga, atrás dos alemães. Mas CR7 e companhia tropeçaram nos próprios erros e terminaram na terceira colocação, perdendo a classificação no saldo de gols para os americanos.

O retrospecto recente dava esperança aos portugueses: semifinalista da Euro 2012 e 13 jogos de invencibilidade antes do Mundial - quase dois anos sem derrotas. Até mesmo a sofrida vitória sobre a Suécia, na repescagem das Eliminatórias, deu mais motivação à seleção lusa. Na ocasião, Cristiano Ronaldo marcou três gols no heroico 3 a 2, em Estocolmo, casa do adversário, e garantiu a seleção na quinta Copa do Mundo seguida desde 1998.

Os números também jogavam a favor. A equipe chegou ao Mundial com o posto de 4º lugar no ranking da Fifa e 5º da Uefa. É também o ano do centenário da Federação Portuguesa de Futebol, que esperava pelo menos igualar as duas melhores campanhas da história lusa em Copas: semifinalista em 1966 e 2006.

Euforia na chegada

A chegada ao Brasil contou com uma das mais calorosas recepções entre todas as seleções. No dia 11 de junho, às vésperas do início do Mundial, a equipe desembarcou no aeroporto de Campinas sob a presença de aproximadamente 200 pessoas. Também na chegada ao hotel, o mesmo número de fãs esperava por Cristiano Ronaldo e companhia. Uma mobilização digna de Seleção Brasileira ou outras grandes seleções.

O vínculo e o carinho dos torcedores foram reforçados no dia seguinte. No primeiro treino aberto da equipe em solo brasileiro, dez mil pessoas compareceram ao estádio Moisés Lucarelli e levaram apoio aos comandados de Paulo Bento, sobretudo a ele: Cristiano Ronaldo.

O carinho foi recíproco. Os jogadores, que entraram com uma faixa de agradecimento à cidade com os dizeres “Obrigado, Campinas”, acenaram para a torcida, jogaram camisas e, na medida do possível, tiraram fotos e deram autógrafos. Foi a única forma do público ter contato com os atletas, que ficaram confinados em um resort de luxo de Campinas e só deixaram o local para treinos, viagens e jogos. Foram poucos os privilegiados que conseguiram autorização para entrar no hotel ou no CT para tietar os atletas.

A preparação de fato foi realizada no Centro de Treinamentos da Ponte Preta, que foi inteiro reformado para receber os portugueses. No local, a imprensa pôde assistir apenas os primeiros 15 minutos de cada treino e o restante do tempo foi realizado sem a presença dos cerca de 200 jornalistas e fotógrafos que acompanharam o dia a dia da seleção de Portugal em Campinas.

Do lado de fora, torcedores tentavam de tudo para encontrar alguma brecha para assistir parte dos treinos. Houve “espiões” se arriscando em cima de telhado e até em árvores e antenas na tentativa de ver os trabalhos comandados pelo técnico Paulo Bento. 

Jogadores agradecem apoio da torcida em Campinas: Euforia no treino aberto (Foto: Guilherme Borini)

Goleada, lesões e reclamação da arbitragem

Todo o clima de euforia foi embora logo no primeiro jogo - um duro golpe que tirou Portugal do rumo. No futuro, o placar elástico tiraria as chances de classificação no saldo de gols. Sem piedade, a Alemanha goleou por 4 a 0, sob o forte calor das 13h em Salvador, e já ligou o sinal de alerta na equipe portuguesa. Algo estava errado.

A partir de então, iniciou-se a busca aos culpados. Jogadores e comissão técnica contestaram muito a arbitragem do sérvio Milorad Mazic por conta do pênalti que originou o primeiro gol da Alemanha, logo no início do jogo. Também pela expulsão do zagueiro Pepe, que se desentendeu com o atacante Müller e recebeu cartão vermelho, ainda no primeiro tempo.

O outro fato muito lamentado foram as lesões. No primeiro jogo, a equipe perdeu o goleiro Rui Patrício, o lateral Fábio Coentrão, que inclusive foi cortado da Copa e voltou à Europa, além do atacante Hugo Almeida. No segundo jogo, contra os Estados Unidos, a equipe ainda perderia André Almeida e Hélder Postiga, também lesionados. 

Expulsão do zagueiro Pepe, contra a Alemanha, foi um dos fatos mais lamentados pelos portugueses (Foto: AFP)

Atritos com a imprensa

Bastou a primeira derrota para a imprensa portuguesa entrar em rota de colisão com a Federação. As principais críticas foram a escolha da preparação em Campinas, por conta das diferenças climáticas das sedes dos jogos da primeira fase: Salvador, Manaus e Brasília - sobretudo os dois primeiros, e também o curto tempo no Brasil - a equipe foi a penúltima a chegar, a apenas cinco dias antes da estreia.

Um dos argumentos foi que a seleção portuguesa deveria ter escolhido uma cidade com temperaturas mais altas para habituar-se ao clima das cidades dos jogos na primeira fase. Como fez a Alemanha, por exemplo, que optou por um resort em Santa Cruz Cabrália, no litoral da Bahia. De acordo com alguns jornalistas, a Federação teve a capital baiana como uma das opções para realizar a preparação, mas preferiu Campinas. A cidade do interior paulista tem um clima fresco nesta época, com temperaturas por volta dos 20 ºC. Muito diferente do calor intenso de Salvador e Manaus.

O outro questionamento foi a preparação física dos atletas. No total, foram cinco jogadores lesionados durante a Copa, fora outras dores musculares que afastaram alguns jogadores de treinamentos antes e durante o Mundial.

As críticas foram rebatidas pelo vice-presidente da Federação, Humberto Coelho, e por Henrique Jones, médico da seleção. Ambos convocaram entrevista coletiva após o último treino da equipe em Campinas, no dia 24, antes mesmo do final da participação da equipe na Copa.

Médico da seleção e vice-presidente da Federação Portuguesa dão explicações sobre o mau desempenho na Copa (Foto: Gulherme Borini) 

Condições físicas de Cristiano Ronaldo

Afinal, Cristiano Ronaldo estava ou não em condições de jogo? Após a desgastante temporada com o Real Madrid, o jogador sofria com dores musculares na coxa esquerda e também com uma tendinite no joelho esquerdo. O astro português chegou a ser poupado de treinamentos e amistosos antes da Copa, mas, segundo o departamento médico da seleção, sempre esteve apto a jogar desde que chegou ao Brasil.

Durante os treinos em Campinas, CR7 utilizou diversas vezes uma proteção no joelho e, após alguns trabalhos, chegou até a deixar o gramado com uma bolsa de gelo, gerando mais dúvidas.

O fato é que Cristiano Ronaldo não conseguiu repetir o desempenho da temporada. E que ano teve no Real Madrid e também na seleção. Foram 55 gols em 52 jogos, sendo artilheiro do Campeonato Espanhol e da Liga dos Campeões. Se tornou também o maior goleador da história da seleção portuguesa, ultrapassando Pauleta.

Mas em Copas do Mundo ainda está devendo. Neste Mundial, até conseguiu um alento com o gol marcado contra Gana, no último jogo, mas muito aquém de outros craques como Messi, Neymar e Thomas Müller, que anotaram quatro gols na primeira fase. Este foi apenas o terceiro gol de CR7 em Copas - havia marcado um em 2006 e outro em 2010. 

Cristiano Ronaldo utilizou uma proteção no joelho durante a Copa do Mundo (Foto: Guilherme Borini)

À espera de um milagre

O segundo jogo da primeira fase era a “final” para Portugal. Durante a semana, os jogadores tratavam o jogo contra os Estados Unidos como uma decisão. Na partida, a equipe até se mostrou com mais vontade, saiu na frente do placar, com um gol de Nani, mas sofreu a virada. O resultado já eliminaria os portugueses na segunda rodada, mas, na primeira boa jogada de fato de Cristiano Ronaldo na Copa, o astro cruzou para Varela empatar, no último minuto de jogo.

A equipe precisava vencer, sobretudo pela desvantagem que tinha no saldo de gols após a goleada sofrida na primeira rodada. O empate por 2 a 2 deixou Portugal com apenas 5% de chances de classificação, de acordo com matemáticos. A esperança era uma goleada sobre Gana e uma derrota dos Estados Unidos para a Alemanha. Desiludidos, os jogadores admitiram que esperavam por um “milagre”. 

Gol de Varela, no último minuto contra os Estados Unidos: Esperança portuguesa (Foto: Fabrice Coffrini/AFP) 

Polêmica final e volta para casa

Ainda havia tempo para mais uma polêmica antes do fim da primeira fase. Antes do jogo contra Gana, surgiram boatos na imprensa portuguesa de um possível pedido de demissão do técnico Paulo Bento. A notícia foi que o treinador deixaria o cargo à disposição em caso de eliminação, algo que já estava próximo.

Na entrevista coletiva antes do duelo contra os africanos, em Brasília, Paulo Bento se exaltou com jornalistas, negou o boato e garantiu permanência até o final do contrato, que vai até 2016.

Em campo, apesar da vitória, mais uma atuação aquém do esperado. A equipe venceu por 2 a 1 e até contou com uma “ajuda” da Alemanha, que bateu os Estados Unidos por 1 a 0. Mas a goleada da primeira rodada trouxe muitos prejuízos. EUA e Portugal terminaram empatados com quatro pontos, na segunda colocação, mas os americanos levaram vantagem no saldo de gols - zero contra -3 - e ficaram com a vaga nas oitavas de final.

Para Portugal, restou retornar à Campinas após o jogo para passar a última noite no confortável resort do interior paulista. A delegação embarca na tarde desta sexta-feira em um vôo fraldo rumo à Lisboa, de onde vai assistir o restante da Copa do Mundo. 

Cristiano Ronaldo marcou no último jogo, mas não conseguiu evitar eliminação na primeira fase (Foto: Francisco Leong/AFP)