icons.title signature.placeholder Bruno Cassucci e Russel Dias
29/11/2014
08:05

Enderson Moreira tinha tudo para estar preocupado, impaciente, nervoso. Eliminado na semifinal da Copa do Brasil, sem ambições no Brasileiro e enfrentando um jejum de vitórias que dura nove jogos, ele sabe que seu futuro no Santos é incerto por conta da eleição presidencial que acontece daqui a uma semana. Mesmo assim, mantém postura serena e discurso calmo. Em entrevista recente, disse estar “muito tranquilo”.

A postura tem a ver com a personalidade do treinador, mas não só isso. Ele estudou para enfrentar esses momentos. Em 1995, quando se formou em Educação Física na Universidade Federal de Minas Gerais, Enderson aprofundou-se no tema, realizou uma pesquisa e fez uma monografia de conclusão de curso intitulada “Análise dos Fatores Estressantes em Técnicos de Futebol de Campo das Categorias Amadoras de Belo Horizonte”. A reportagem do LANCE!Net foi até a UFMG, leu o trabalho e questionou o comandante santista sobre o assunto. Hoje, ele vê que teoria e prática são bem diferentes.

– Antes eu não tinha ideia do que era isso realmente. Hoje, quase 20 anos depois, a pressão em cima do treinador aumentou de maneira absurda. Futebol é um esporte que não se tem tanto controle sobre as variáveis. Por mais que o técnico seja competente, o resultado pode escapar. E isso torna o treinador mais vulnerável e sensível a essas pressões. Eu tenho muita participação no dia a dia do clube e do trabalho, me responsabilizo por jogos e pelo que a gente faz. O que eu vivo hoje é uma coisa maior do que achava que poderia ser – diz.

Há 19 anos, Enderson concluiu que um dos fatores que mais estressava os treinadores era a realização de críticas públicas a eles por dirigentes de clubes. Indiretamente, ele sofre isso agora. Os atuais cartolas do Peixe não se manifestam sobre o seu trabalho, mas todos os candidatos à presidência alvinegra, sim. Um deles, Orlando Rollo, já avisou que, se eleito, irá demití-lo. Os demais também mostram insatisfação nos bastidores e não garantem a permanência dele para o próximo ano.

Nada, no entanto, que abale a moral do comandante santista.

– Vou esperar as eleições. Tenho muita vontade de colocar meu projeto em prática aqui no clube.

Neste domingo, na Vila Belmiro, a partida contra o Botafogo não vale praticamente nada em termos de classificação, mas pode dar ao menos uma semana mais tranquila a Enderson e seus comandados em caso de vitória. É melhor evitar (mais) estresse.

Tênis, squash e filmes para ‘esvaziar’ a cabeça

Enderson é uma pessoa recatada, avessa a festas e de rotina tranquila. A fim de se desligar do trabalho e relaxar, ele pratica outros esportes além do futebol – embora bate uma bolinha de vez em quando. Seus prediletos são tênis e squash.

Além disso, quando está em casa, o treinador gosta de ver na TV programas jornalísticos e filmes.

Questionado se gostava de beber nas horas vagas, Enderson afirmou:

– A questão alcoólica, com uma cerveja, um vinho, é válida, mas também é importante a atividade física, praticar esportes alternativos, como jogar squash, tênis, e isso pode amenizar um pouco o estresse. Gosto de desviar o foco do futebol.

‘Eu era um fenômeno’, brinca

A reportagem do L!Net perguntou a Enderson se ele ainda pensava como quando escreveu sua monografia há quase 20 anos, e ele então pediu para ler o seu trabalho para se recordar. Depois de ver o texto, o técnico sorriu e brincou.

– Eu já era um fenômeno!

Depois, ele retomou a seriedade e comentou sobre o que escrevera:

– Essas condutas que relatei, como saber minimizar o nervosismo dos atletas, são importantes. Às vezes o que mais usamos com jogador é a conversa, a palavra amiga, o que faz com que ele consiga se desenvolver. Busco entender o atleta e tranquilidade para ele.