icons.title signature.placeholder Russel Dias
20/02/2015
12:02

Aos 33 anos de idade, o meia Elano, do Santos, tem diversos fatos para lembrar com orgulho na sua carreira, como a Copa Libertadores de 2011, pelo Peixe. Mas é justo na Seleção Brasileira, onde ele sempre sonhou em chegar, que ele guarda a sua maior decepção na carreira: a Copa do Mundo de 2010.

No começo, tudo foi alegria. A titularidade, a trajetória até se firmar ao lado de Kaká e a confiança do treinador Dunga. Tudo caminhava bem para Elano fazer um bom Mundial, até que uma entrada dura do marfinense Tioté o tirou da competição e deu ao ex-camisa 7 as piores noites de sua vida e adeus a um sonho.

- Foram as piores noites da minha vida. A concentração tinha quartos individuais. De noite, quando deitei e apaguei a luz, começou um filme na cabeça. Eu tinha feito dois gols, já estava na história. Eu queria mais. Se eu fizesse dois jogos, poderia ganhar um prêmio de revelação na Copa. Eu tinha outros objetivos de alcançar um clube maior na Europa, eu me sentia capaz - disse o jogador, ao LANCE!Net.

Mesmo após Elano deixar a partida contra a Costa do Marfim, último adversário da Seleção Brasileira na primeira fase da competição, o Brasil venceu o jogo por 3 a 1 e se classificou para a segunda fase, caindo nas quartas-de-final para a Holanda.

Hoje caminhando para o fim da carreira, que pretende encerrar na Vila Belmiro, onde começou, Elano olha para trás com dor, mas sabe que teve grande importância para a Seleção. Agora, ele observa como torcedor e tem diversas observações a fazer.

CONFIRA O BATE-BOLA COM ELANO:

(Foto: Ivan Storti/LANCE!Press)

LANCE!Net Em 2010 você estava no auge da carreira. Se não tivesse sido a lesão, acha que a Seleção Brasileira teria ido mais longe na Copa do Mundo?
Elano: Eu vinha me preparando há um ano para a Copa. Fui para o Galatasaray para me preparar para a Copa. Fazia três jogos por mês e tinha preparação na minha casa. Tinha campo, academia, minha esposa me ajudava a treinar. Fiz a preparação em um ano. No fim da temporada, eu estava descansado fisicamente, mentalmente e alimentado. No meu entendimento, eu tinha uma leitura dos jogadores: Robinho, Kaká, Luis Fabiano, Maicon, Gilberto, Felipe Melo. Eu tinha uma leitura com eles. Eles sabiam minha movimentação. Eu sabia que o Kaká precisava de espaço e velocidade. O lateral vinha comigo até o fundo, ele recebia e saía no contra-ataque. Quando o Robinho vinha pra dentro, ele ia driblar e eu ia receber. Fiz gol contra Argentina, Itália. Dentro das minhas características, jogando com caras de alto nível eu agregaria muito. Houve uma perda. As peças estavam encaixadas. A perda maior foi pessoal.

O que você aprendeu no futebol fora do Brasil?
Muitas coisas que chegaram no Brasil agora eu fazia em 2007. No Manchester City (ING) eu brincava com o Robinho: "Nós somos pentacampeões, lá no Brasil não fazem nada disso.". Aí hoje estamos fazendo tudo igual. Os aparelhos de body, academia, na Inglaterra tinha há seis anos atrás, antes do City ser comprado. Tínhamos mais atletas e eles tinham a parte externa melhor, agora conseguem igualar. A organização é melhor que a nossa. Por isso o futebol está se igualando. No momento, em que estamos com dificuldades no futebol, eles estão crescendo. Eles podem não ter tanta qualidade, mas há dez anos atrás já estavam se preparando. Estamos ficando para trás. Não conseguem ver? O sub-20 está passando dificuldade.

Acredita que esses fatores fazem parte do 7 a 1?
Algumas coisas vêm de antes. É difícil falar financeiramente do Brasil. Você joga quarta e domingo e passa um dia em casa. Não há vida privada se o seu time perde. Eu já perdi pro Manchester United, ia no restaurante com torcidas dos dois times e nada acontecia. São entendimentos e culturas diferentes. Hoje, um clássico aqui, tem no máximo 30 mil pessoas. É fruto da desvalorização. O torcedor está de saco cheio das sacanagens do futebol. É ruim para o futebol. É o que move o Brasil, é alegria do brasileiro. O Bom Senso briga por isso também. Não dá para continuar assim. Rouba aqui. Rouba ali. Tem clubes fechando as portas. Olha para o Guarani! Dá vontade de chorar. Eu, Renato, Djalminha, Evair, Luizão. Neto, João Paulo, muitos outros, saímos de lá. O que pode ter acontecido? Será que aquelas pessoas daquela gestão que culminou nisso estão na mesma situação do Guarani?

O que acha que deve acontecer para mudar essas coisas?
Os jogadores têm que ser atuantes nas federações. A união entre clube e federação é zero. Jogamos 22 horas. Por exemplo, o Santos jogou em Rio Preto, treinamos dois dias e jogamos um clássico. O cara que está envolvido no jogo dormiu 4h30. Joga-se no sábado de carnaval. O desenvolvimento não é o mesmo. Naturalmente, até dezembro, o cara vai se machucar. O mais novo e o mais velho vão se machucar, não tem como.

Qual vai ser o estopim disso tudo?
Muitos jogadores não têm coragem. Eu tenho coragem, saí do Flamengo porque não era isso que eu queria, mas saí de forma amigável. Mas tem caras mais novos que não podem fazer isso. Muitos não tem coragem. Eu tiro o chapéu para o Bom Senso porque brigam diariamente. Se tem convocação da Seleção tem que parar o país. Imagina um garoto que só tem uma chance na Seleção. Vai recusar? Por que não para o campeonato?

Você entende que isso passa pela CBF?
A CBF coordena. No Campeonato Brasileiro principalmente, vendem jogos, tem grandes viagens... Os atletas que pagam isso com lesão e cansaço. Vi Santos x São Paulo em Cuiabá, 16 horas, no ano passado e o Robinho estava pálido. Porque venderam o jogo. E o rendimento? Não tem como melhorar.

Quando acha que isso vai mudar?
Só vai mudar quando for sério para o futebol. Tem que englobar o que vai ser melhor para o campeonato. Todos os clubes têm dificuldades. Como vai ter elenco grande se não tem como pagar e não tem patrocínio? Nem todos podem pagar 20 atletas. Gira em torno de muita coisa. Tem que pensar no geral, olhar para clubes e atletas.

E está longe de isso acontecer?
Muito. Já mudou bastante. Brigamos pelo fair play financeiro e alguma coisa vai mudar. Nem que eu não esteja no futebol, se mudar e eu estiver vendo vai ser uma alegria. Tem que ser justo. As pessoas que coordenam têm que procurar pelo bem do futebol.