icons.title signature.placeholder Marcello Vieira
14/07/2014
08:11

A derrota da Seleção Brasileira por 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo assustou muita gente. Há quem tenha tratado o revés como fruto do acaso. Todavia, existem pessoas com percepção diferente. É o caso de Fernando Simone, gerente geral das divisões de base do Fluminense. Responsável por comandar um dos principais centros formadores de atletas do país, o profissional tricolor acredita que o futebol brasileiro está doente e precisa encontrar uma cura urgentemente. A eliminação no Mundial foi apenas mais um duro golpe, consequência de um passado, não tão recente, preocupante.

No dia a dia do Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras, em Xerém, o dirigente luta como pode para atenuar o quadro. Assim como a grande maioria dos clubes do futebol brasileiro, o Fluminense sofre com uma crise financeira e tem possibilidades de investimento limitadas. Mesmo assim, nos últimos anos, os jovens atletas do clube se acostumaram a uma nova realidade de disputas internacionais. Vencedor de um Mundial Sub-17 jogado no Qatar contra equipes como Real Madrid, Boca Juniors e Juventus, os garotos já participaram de torneios nos Estados Unidos, em várias partes da Europa e outros lugares na busca para amadurecer e ganhar competitividade numa realidade na qual apenas o talento já não basta para vencer.

- Desde que começamos a fazer essas viagens para disputar torneios internacionais, ficou claro o desnível que tínhamos em termos táticos, técnicos, físicos, organizacionais, em quase tudo. O que salva é o talento. Ainda somos inigualáveis neste aspecto, mas ele sozinho não basta. Aqui no Fluminense tentamos diminuir a diferença, incorporamos tecnologias para a base, fizemos obras em Xerém, mas nosso esforço e o de outros clubes, sendo isolados, não vão ser suficientes - disse o profissional, citando os possíveis primeiros passos para esta transformação que passa, inevitavelmente, por uma mudança de filosofia:

- É preciso que alguém, seja a CBF, uma liga de clubes, alguma organização apareça para definir regras e rever conceitos. Mas tem que haver uma mudança na mentalidade coletiva de fato. O futebol hoje é científico. Não adianta culpar só CBF, clubes, treinadores. Todos têm seus erros. Os clubes foram muito mal administrados ao longo dos anos. Até mesmo a imprensa que às vezes não dá tempo para novos profissionais e acaba defendendo mais do mesmo tem certa responsabilidade. É preciso ter a percepção de que do jeito que está não pode continuar. O egoísmo tem que ceder espaço a um senso mais coletivo. A cultura do imediatismo tem que ser atacada em prol de uma reorganização.

Padronização contra o imediatismo

Uma das demandas do futebol brasileiro citadas por Simone é relacionada à falta de cuidado com a formação do atleta. Cada vez mais cedo os jovens estão sendo exigidos – e recebendo – como profissionais. A realidade muda dependendo da região do Brasil e dificuldades específicas são criadas. No Rio de Janeiro, por exemplo, em razão de uma imposição do Ministério Público, as categorias de base dos times só podem ter atletas com idade a partir dos 14 anos, situação que prejudica a formação.


Fernando Simone (à esquerda) e funcionários da base tricolor reúnem-se com poloneses como intercâmbio

– As pessoas têm dificuldade de entender que nem todo mundo é Neymar. Ele é diferente. Aos 17 anos já estava pronto, arrebentando no Santos. Nós recebemos o jogador com 14 anos. Em certos casos, em dois anos, ele está indo para o profissional. Será mesmo que as pessoas acham que ele chegará pronto com apenas dois anos de formação? Quase ninguém chega. Hoje é tudo muito mais imediato e isso atrapalha muito. Outra coisa é que é um erro um menino de 17 anos ganhar R$ 30, R$ 50 mil. Isso tem que mudar porque não se sustenta. Com medo de perder uma possível estrela, os clubes se submetem a esta ansiedade e acaba sendo inviável. É preciso criar uma regra que faça os clubes cumprirem com suas obrigações e que, ao mesmo tempo, ajude a segurar as promessas sem estes gastos exorbitantes - disse.

Bate-Bola - Fernando Simone - gerente geral da base

Qual o grande problema do futebol brasileiro?

O maior problema é que atacam os sintomas, mas não o verdadeiro problema. Antes os jogadores eram escravos dos clubes por causa da questão do passe. Aboliram o passe e acabaram fortalecendo os empresários, aí fizeram a lei do clube formador, mas isso também não basta. É preciso mudar o sistema, a estrutura e, para isso, todos precisarão estar unidos. Não temos nem competições nacionais oficiais Sub-15 e Sub-17 organizadas pela CBF. Sub-20 só a Copa do Brasil. Começando o trabalho agora, talvez daqui a dez anos comecemos a ver os resultados. Custa tempo e dinheiro para voltar a ser o país do futebol. Existe vontade para isso?

Existe preconceito contra o profissional formado por parte de uma cultura de boleiros?

É importante falar que não tenho nada contra o ex-jogador. Na minha opinião, os melhores profissionais para trabalhar no futebol seriam os ex-jogadores. O problema é que eles normalmente já querem começar treinando profissionais de Flamengo, Vasco, Fluminense, não querem começar por baixo. Isso atrapalha muito a renovação. Precisamos de gente nova como o Marquinhos Santos, bela aposta do Coritiba. É preciso investir em capacitação. Enquanto não entendermos que estamos ficando para trás, não vamos a lugar nenhum.


Fernando (o segundo da esquerda para a direita) junto com a atual comissão técnica da Seleção