icons.title signature.placeholder Bruno Braz
10/12/2013
16:43

As organizadas do Vasco que estiveram presentes na pancadaria generalizada que ocorreu na Arena Joinville, no último domingo, possuem uma relação estreita com a atual diretoria do clube. Tais torcidas têm facilidades e descontos de 50% nos ingressos das partidas da equipe e, muitas das vezes, viajam no mesmo voo e se hospedam nos mesmos hoteis do time. No recente protesto em São Januário, onde chegaram a entrar no vestiário, tiveram o acesso facilitado pelos próprios funcionários e fizeram ameaças de morte a alguns jogadores.

Veja abaixo alguns episódios e situações apurados pelo LANCE!Net que ocorreram nos últimos anos entre a diretoria do Vasco e as organizadas:

INVASÃO AO VESTIÁRIO

O caso mais emblemático do livre acesso das organizadas em São Januário foi o episódio da invasão ao treino, dia 18 de outubro de 2013, para protesto contra a situação do time.

Entre o grupo de 15 torcedores, estava presente Jonathan Santos, que é um dos detidos em Joinville. Na ocasião, após arruaça na arquibancada, as organizadas se dirigiram para o portão que dá acesso ao departamento de futebol e o encontrou, "inexplicavelmente", aberto.

Pessoas que possuem responsabilidade sobre este portão conversaram entre si na tentativa de achar um responsável. Acusações de ambos os lados aconteceram, suspeitos surgiram com força e o presidente Roberto Dinamite foi comunicado, mas nenhuma atitude foi tomada.

AMEAÇA AOS JOGADORES NO VESTIÁRIO

Já dentro do vestiário, o elenco foi ameaçado por um grupo de 15 torcedores. O lateral-direito Fagner ouviu que seria morto caso se transferisse para o Flamengo, boato de transferência que aconteceu antes mesmo dele retornar ao Vasco.

O atacante André, um dos mais perseguidos, ficou escondido boa parte do tempo na sala de fisioterapia, porém, após muita insistência para uma conversa, o jogador pediu para que apenas dois membros das organizadas fossem selecionados para um "bate-papo". Frente a frente, o jogador tentou argumentar que suas saídas noturnas eram em seus momentos de folga, mas ouviu como resposta que "não tinha mais conversa", e que se o encontrassem na rua iriam "sair pegando".

Organizadas entram no departamento de futebol do Vasco (Foto: Cleber Mendes)

No momento de maior tensão, com o elenco acuado, um dos torcedores chegou a ameaçar uma agressão, mas foi contido pelo lateral-direito Nei, lutador de jiu-jitsu e muay thai, que com uma técnica de chave de braço, imobilizou o cidadão.

Nei, no episódio, ganhou respeito dos torcedores, uma vez que tomou frente nas negociações e acalmou os ânimos.

- Nei, eu não gostava de você, mas agora tu ganhou o nosso respeito - disse, na ocasião, um dos membros das organizadas.

Na hora de ir embora, os torcedores proferiram algumas ameaças e um, mais jovem e exaltado, proporcionou uma reação pitoresca:

- Vão se f...! Fagner, toma cuidado! E Guiñazú...(parou para pensar). Ah...você é feio para c...! - disse, se referindo ao volante argentino.

AGRESSÃO

A relação das organizadas do Vasco com a diretoria do clube teve um arranhão às vésperas do jogo contra o Santos, onde mais de 60 mil pessoas estiveram presentes. Aproveitando-se da liberdade e do livre acesso em São Januário, as torcidas foram cobrar uma cota maior para a partida. O tesoureiro Aníbal Curto não cedeu ao pedido e acabou sofrendo uma tentativa de agressão. Na ocasião, o dirigente despistou o episódio ao LANCE!Net:

- Esquece esse assunto. Foi só uma desavença. Essa pessoa estava um pouco alterada, mas ele não conseguiu me pegar porque eu pulei fora e os seguranças chegaram.

Um dos membros da diretoria do Vasco chegou a cogitar o rompimento da relação, mas teve sua opinião negada pelos demais com o seguinte argumento:

- Você está louco? Eles são nossos!

ABRAÇADOS PARA O VÍDEO

Mesmo após este episódio, tais torcedores não se distanciaram da diretoria e do elenco cruz-maltino. Na reta final do Campeonato Brasileiro, quando a equipe ainda tentava se safar, um vídeo feito pela "Vasco TV", que é de propriedade do clube, foi gravado com o intuito de convocar a torcida para o jogo contra o Cruzeiro, dia 23 de novembro, no Maracanã. Nele, são vistos abraçados o diretor-executivo Ricardo Gomes e o preparador de goleiros, Carlos Germano, junto com Jonathan Santos, um dos detidos em Joinville, Bruno Fet, presidente da "Força Jovem", e Robinho, seu vice. Esses dois últimos, também são vistos na briga na cidade catarinense. Na filmagem ainda pode ser visto um torcedor da "Ira Jovem" e outro da "Rasta".

INGRESSOS

Há cerca de um mês da barbárie em Joinville, o vice de patrimônio do Vasco, Manuel Barbosa, em contato com o LANCE!Net, havia explicado que um desconto de meia-entrada, ou seja, 50%, era dado às organizadas do clube. Nesta terça-feira, o dirigente voltou a afirmar esta situação.

Para a partida contra o Atlético-PR, antes do aumento da carga de ingressos para a torcida do Vasco, 2.400 bilhetes foram reservados pelo Furacão para os cruz-maltinos. Destes, segundo o LANCE!Net apurou, 400 foram separados pela diretoria do Gigante da Colina às organizadas, no qual, 200 seriam destinados para a "Força Jovem", 100 para a "Ira Jovem" e mais 100 para as demais. Não há a confirmação, no entanto, se as entradas foram separadas gratuitamente ou com descontos.

Depois desta apuração, a Polícia Militar de Santa Catarina pediu para a diretoria do Atlético-PR aumentar a carga dos vascaínos para 3.700 ingressos, temendo que os cruz-maltinos comprassem entradas do lado dos paranaenses.

VIAGENS

Na Copa Sul-Americana de 2011 e na Copa Libertadores de 2012, as organizadas tiveram momentos de mordomia. Na maioria das viagens internacionais, os membros das diretorias viajavam no mesmo voo do time e, muitas das vezes, ficaram hospedados nos hoteis cinco estrelas do elenco cruz-maltino.

Na viagem para Lima, no Peru, onde o Vasco enfrentaria o Universitário, a reportagem do LANCE!Net chegou a ouvir um destes membros, pasmém, reclamando do conforto:

- A gente não gosta desta frescura, não. Gostamos de passar perrengue mesmo.