icons.title signature.placeholder Raphael Martins
03/04/2014
16:05

Uma disputa política interna na federação, temperada por uma velha briga envolvendo a negociação de direitos de transmissão dos jogos da seleção. Esses são os pontos principais por trás da renúncia do ex-presidente da Associação Uruguaia de Futebol (AUF), Sebastián Bauzá. Uma crise que teve a participação involuntária do presidente José Mujica, e que causou uma punição da Confederação Sul-Americana (Conmebol) à entidade.

Bauzá foi obrigado a renunciar porque ficou isolado politicamente. Primeiro havia ganhado a inimizade da empresa Tenfield, detentora dos direitos de transmissão do futebol uruguaio. Ao mesmo tempo, um grupo de oito clubes do país (liderados pelo Peñarol) havia feito uma denúncia à justiça uruguaia contra a Conmebol. Alegavam falta de transparência no repasse das verbas dos direitos de TV da Copa Libertadores aos clubes.

Mais adiante o Peñarol se retirou como denunciante. Porém os clubes Miramar Misiones, El Tanque Sisley, Cerro Largo, Cerro, Rentistas, Juventud e Racing mantiveram a ação, minando a base de apoio de Bauzá. Tais clubes acusavam a AUF de discriminar as entidades menores no repasse de dinheiro. Diante deste panorama, Bauzá se manteve na presidência por conta do voto de confiança dado pelos dois principais clubes do país: Peñarol e Nacional. A aliança porém seria rompida.

O conflito com a empresa Tenfield, de propriedade do empresário Francisco Casal, teve início durante as negociações dos direitos de transmissão dos jogos da seleção uruguaia nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014. Na ocasião Sebastián Bauzá se negou a vender os direitos até 2021, como desejava Casal.

No entanto, após a classificação para o Mundial do Brasil, Bauzá abriu negociações sobre os direitos para as Eliminatórias para a Copa de 2018, na Rússia. A estratégia do presidente da federação era se precaver de uma desvalorização do seu produto. Afinal o Uruguai vem de duas classificações consecutivas para Copas do Mundo, com um quarto lugar na Copa de 2010, campeão da Copa América de 2011 e cabeça de chave da Copa-2014. Esse valor de mercado pode cair, caso o Uruguai não faça uma boa campanha no Brasil.

Todavia, o presidente não contava com os votos necessários para antecipar a venda dos direitos de transmissão da Celeste. Faltava, justamente, o apoio dos sete clubes dissidentes. As coisas pioraram quando o Nacional também retirou o seu apoio.

No último dia 26 de março, torcedores do Nacional entraram em um grande conflito com policiais no Estádio Centenário durante a derrota do clube uruguaio para o Newell's Old Boys, por 4 a 2, pela Copa Libertadores. Na sequência o presidente do Uruguai, José Mujica, impediu a presença de policiais no interior dos estádios Centenário e Parque Central, os dois principais do país. Os clubes, notadamente Peñarol e Nacional, deveriam cuidar da segurança interna das partidas.

No fim de semana seguinte, o Nacional enfrentou o Liverpool no Estádio Luis Franzini. Jogo que contou com policiamento interno. No entanto, o confronto entre Peñarol e Miramar Misiones, no Centenário, não ocorreu. A Mutual Uruguaia, entidade que representa os jogadores, alegou falta de segurança pelo fato de não haver policiais dentro do estádio. O Nacional, se sentindo prejudicado, rompeu a aliança que tinha com Sebastián Bauzá. Esta foi a gota d'água para a renúncia do dirigente.