icons.title signature.placeholder Eduardo Mendes
14/11/2014
07:02

A quarta-feira foi marcada por treino em dois períodos. Após folga de três dias, o elenco do líder do campeonato turco se reapresentou no moderno centro de treinamentos do Fenerbahçe, distante da área central da parte asiática de Istambul. A reportagem aguardava Diego, único brasileiro do atual grupo, no saguão do prédio em que fica a concentração da equipe.

Um pequeno fanático torcedor padrão do clube turco também esperava pelo jogador. Com a camisa azul e o número 10 de Diego, esbanjou alegria quando o ex-santista apareceu.

Principal contratação do Fenerbahçe para a temporada, Diego ainda procura se ambientar na busca pelo sucesso que remonta a chegada em território europeu, quando foi protagonista em Portugal e na Alemanha.

A retomada se dá justamente no ano em que ele completa dez temporadas de Europa. O então Menino da Vila ganhou experiência, aprendeu novos idiomas, imergiu-se na cultura local e, definitivamente, não pensa em um retorno imediato ao Brasil.

A despeito do sonho de disputar uma Copa, Diego atesta que acertou em refugar o desejo de voltar quando não vingou na Juventus (ITA) e acredita que o ciclo dele na continente que abriga as principais ligas do mundo ainda está longe do fim.

Como está sendo a adaptação no Fenerbahçe?

Tem sido boa. Talvez é o lugar mais diferente e que requer mais adaptação entre os países por onde passei. Aqui realmente a filosofia é um pouco diferente, mas tem sido muito bom devido à estrutura do clube e aos meus companheiros que estão ajudando. É uma experiência especial, tanto dentro quanto fora de campo. Somos líderes, a equipe tem melhorado e estou muito feliz. Espero seguir aqui por um bom tempo.

Faz dez anos que está na Europa e nesse período teve algumas oscilações, como na Juventus (ITA). Por que não deu certo?

Inevitavelmente, nestes anos todos na Europa tive momentos melhores, piores e aprendi muito, principalmente com os mais difíceis. Na Juventus, o resultado coletivo não apareceu. E eu como principal contratação, fui o mais cobrado e tive a maior responsabilidade. Joguei todos os jogos como titular, não estava mal, mas quando o resultado não aparece depois do investimento que fizeram... Não fomos campeões e a expectativa era de ser campeão inclusive da Champions. O italiano é fanático e muito exigente. Naquela altura era a Juventus do Diego. Tive a minha responsabilidade por isso, mas encaro como momento de aprendizado.

Muitos brasileiros costumam voltar quando não vingam. Pensou em retornar?

Eu insisti. Respeito a decisão de cada jogador. Mas quando eu saí do Brasil, saí bem decidido, com a ideia bem clara de que gostaria de jogar na Europa. O Brasil acaba sendo para nós brasileiros, principalmente para o jogador que já obteve sucesso, um refúgio. Quando quer voltar, a maioria dos jogadores acaba tendo opções de retornar. E, muitas vezes, insistir em permanecer na Europa é o caminho mais difícil. Porque aqui realmente a cobrança é muito grande e a paciência não é tão grande como se você estivesse no Brasil. Eles querem resultado imediato. Isso muitas vezes é complicado. Você tem de se adaptar à nova cultura e filosofia. E eu insisti mesmo por uma decisão de que queria triunfar, queria ter sucesso na Europa, em países e em clubes diferentes. Não me arrependo de uma nenhuma decisão. Como disse, é uma experiência espetacular que até agora tem sido e espero que continue.

(Jovem fanático torcedor do Fenerbahçe tieta Diego no centro de treinamentos do clube/Foto: Eduardo Mendes)

Descarta voltar para o Brasil?

Eu me imagino um dia, quem sabe, retornando ao futebol brasileiro. Não consigo garantir que um dia vou voltar e jogar. Mas eu sou muito grato ao futebol no país e admiro tudo o que acontece. Mas neste momento me sinto bem aqui. Não é uma decisão só profissional, mas também pessoal. Não é uma questão só de dinheiro, mas uma questão de sonhos e até agora tenho conseguido realizar meus sonhos. Estou feliz jogando, dentro e fora de campo. Tenho um contrato de três anos com o Fenerbahçe. Minha ideia é cumprir este contrato. Mas é claro, vamos ver o que irá acontecer.

O que a Europa proporcionou a você fora de campo?

Sou extremamente grato a cada lugar pelo qual passei. Eu e minha esposa somos abertos a novas experiências e procuramos sempre tirar tudo de bom de cada cultura. O país onde mais aprendi até agora foi na Alemanha. É um país em que não moraria em definitivo porque o inverno é um pouco forte para mim, mas realmente aprendi muito com a cultura como ser mais disciplinado, a pensar e se programar para o futuro, a respeitar as diferenças e a pensar no próximo. Tudo o que se exige para uma boa vida social os alemães fazem de uma forma bonita e é bonito de se admirar e aprender.

Você se sente realizado profissionalmente?

Tenho um grande sonho que é disputar uma Copa do Mundo. Nunca escondi de ninguém. Cheguei próximo com Parreira e depois com Dunga. Mas não chego a perder o sono. Sei que não depende só de mim. Tem muitas opções para a Seleção e a decisão é do treinador. Por mais que você esteja fazendo uma temporada espetacular, às vezes, o técnico opta por outro jogador. Tenho 29 anos e depois de tudo o que vivi no futebol acredito que posso jogar na Seleção.

As suas últimas convocações foram com Dunga e, agora, ele voltou. Fica uma expectativa?

Sim. Claro que no momento posso também render mais e para chamar .mais a atenção e ter uma nova chance. Apesar de ver que Dunga, em alguns momentos, tem levado em consideração a confiança em alguns jogadores, independentemente do momento profissional que vive, porque ele sabe que pode contar com aquele jogador porque quando está na Seleção Brasileira ele corresponde.


OUTROS TEMAS ABORDADOS

A MAIOR RIVALIDADE NA TURQUIA

Diego cresceu no Santos acostumado a disputar os clássicos paulistas. Posteriormente, conheceu rivalidades em Portugal, Itália, Espanha e na Alemanha. A disputa na Turquia, porém, é diferente e a chance de disputar um Fenerbahçe contra Galatasaray é única.

- Algo que me lembra aqui é, talvez, Porto e Benfica. Eu era do Porto e, se usasse alguma camisa vermelha o pessoal já lembrava. Não podia entrar com camisa vermelha no centro de treinamentos. Tive as rivalidade de Santos e Corinthians, Juventus e Inter de Milão, Atlético de Madrid e Real, mas aqui é mais do que em todos esses outros lugares - disse.

A rivalidade entre as torcidas é tamanha que chega a assustar Diego:

- São bem fanáticos e acho que até em excesso em algumas partes. No futebol tem de existir, acima de tudo, a cumplicidade, o respeito. Às vezes, fico um pouco surpreso aqui. É até uma novidade para mim que é não poder entrar torcida de um clube no estádio de outro clube. 

 A CRISE NO BRASIL

A crise financeira que assola boa parte dos clubes brasileiros é de conhecimento de Diego. Mesmo distante ele acompanha e faz uma crítica ao modelo de administração.
– O grande erro de alguns dirigentes do Brasil é querer obter retorno apenas no seu mandato. No futebol, para ter mudança, precisa de tempo e este tempo vai exigir a colaboração de pessoas diferentes – ponderou.

O ASTRO DO FENERBAHÇE

Diego foi a principal contratação do Fenerbahçe para esta temporada. Na loja do clube que fica no estádio, é o destaque na divulgação das camisas. Dono da camisa 10, o meia não se intimida com a responsabilidade:

– Tem sido espetacular. Procuro encarar essa cobrança por um lado positivo para que possa me esforçar e treinar mais. O grande objetivo é ser campeão para retribuir isso.

(Imagem de Diego é usada na divulgação do novo uniforme do Fenerbahçe na vitrine da loja do clube anexa ao estádio/ Foto: Eduardo Mendes)

OS DEZ ANOS DA CARREIRA DE DIEGO NO FUTEBOL EUROPEU

Porto (POR) - 2004/2006
Contratado com a missão de substituir Deco, conquistou três títulos pelo clube.

Werder Bremen (ALE) - 2006/2009
Despertou a atenção dos alemães, foi bem e levantou dois canecos.

Juventus (ITA) - 2009/2010
Chegou para ser o astro do grupo, começou bem. Depois oscilou com o time e perdeu espaço.

Wolfsburg (ALE) - 2010/2011
Tentou reencontrar o melhor futebol, mas teve problemas com o técnico Felix Magath.

Atlético de Madrid (ESP) - 2011/2014
Mesmo não sendo titular, contribuiu o título espanhol na temporada passada.

Fenerbahçe (TUR) - 2014
Principal contratação do clube, o meia tenta recuperar a melhor fase que já teve na Europa.