icons.title signature.placeholder Marcelo Braga
11/12/2013
08:25

Pioneira na aceitação de jogadores negros no futebol, a Ponte Preta busca nesta quarta-feira, às 21h50, contra o Lanús, na Argentina,  com transmissão em tempo real pelo LANCE!Net, o primeiro título de sua história de 113 anos. Conquista que, caso aconteça, terá Fellipe Bastos, atleta de origem negra, como um dos protagonistas.

Autor do gol de empate do clube de Campinas no 1 a 1 do Pacaembu, há uma semana, no jogo de ida, o volante se vestiu com a fantasia do mascote da Ponte, o Gorila, antes da viagem para Buenos Aires (ARG), e bateu de frente com o racismo que, até hoje, teima em aparecer pelo mundo.

– Isso no futebol tem que acabar, temos muitos exemplos bons a serem seguidos e esse é um ruim. Falar de raça? Ninguém escolhe ser preto, branco, amarelo, azul ou verde e cada um tem sua crença também. Tem que respeitar – disse ele, dias após a morte de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, que ficou conhecido pelo combate ao apartheid no país.

Revelado pelo Botafogo e negociado com o Benfica (POR) aos 17 anos, não se firmou e foi jogar na Suíça, na equipe do Servette, onde diz não ter sofrido com o racismo. Embora admita que o presenciou.

– Comigo nunca aconteceu, mas no time tinha o Genséric Kusunga, um zagueiro. E durante um jogo ficaram imitando macaco para ele, que era um negão forte. Ele saiu chorando e isso comoveu todos os atletas que estavam jogando, nos deixou tristes. Mas o clube que aconteceu não tomou punição, a torcida também não e ficou por isso mesmo – diz o jogador, hoje com 23 anos.

Casado desde os 18 e pai de uma filha, Giovanna, o volante exala maturidade. Por isso, diz que não se importará com o que vier das arquibancadas do La Fortaleza:

– Vou ignorar tudo, estarei muito concentrado no título, no jogo, na vitória. Eles vão tentar nos desestabilizar de qualquer maneira. Se cairmos será bom para eles.

Mas Fellipe Bastos não se incomoda. Afinal, é um especialista em superar barreiras. De preferência, humanas, de frente para o gol. Fã do estilo de Juninho Pernambucano, com quem atuou no Vasco, do argentino Aimar e do português Carlos Martins, diz que faz repetições diárias com até 30 cobranças.

– Preciso de duas ou três chances para acertar uma. No Pacaembu, a primeira foi na barreira, na segunda fiz e a outra ficou no travessão. Acho que vão pedir para não fazerem faltas perto da área. Mas não tem jeito, elas saem – disse.

Para a sorte de negros, brancos e alvinegros, torcedores da Macaca.

VEJA UM BATE-BOLA EXCLUSIVO COM FELLIPE BASTOS

L!Net: Além do gol na ida, você fez outro contra o Pasto. Sua participação não será esquecida pela torcida...
Nem por mim! Essa participação está sendo efetiva, como a de todo o grupo. Estamos entrando para a história, mas a história não acabou ainda, sabemos que temos mais um capítulo a escrever. O título vai ficar marcado na história dos jogadores, da torcida e desse clube.

L!Net: Quando chegou a proposta da Ponte, encarou como um desafio?
Sim, achei que era uma boa, até para dar resposta a quem não acreditava em mim. Eu já estava desgastado no Vasco com algumas coisas, então seria bom viver novos ares, jogar com mais regularidade. Hoje estou muito feliz aqui, agradecido pela oportunidade na Ponte.

L!Net: O contrato acaba agora. Se for campeão, vai querer continuar?
Se formos campeões, vou querer. É uma coisa que já é pensada, mas temos de esperar a final. Falei para eles (diretoria), tenho contrato com o Vasco, eles têm os direitos, vamos aguardar para não tomar uma decisão agora e ninguém ficar frustrado. Se a gente classificar para a Libertadores, vamos brigar para eu ficar.

L!Net: Houve muita provocação dos argentinos nesse primeiro jogo?
Teve com o Fernando Bob, deram cotovelada, chegando dois nele. Até falei com o Santiago Silva. Disse: "Não precisa disso". Achavam que, brigando, teríamos medo de jogar lá, mas apartamos. O Somoza deu cotovelada sem bola no Baraka. Isso vai ocorrer, argentino com brasileiro sai faísca, mas temos de estar concentrados no que temos de fazer. Ninguém é mais macho dando porrada no outro.

L!Net: E a invasão da torcida?
Eles são fieis. Me impressionei com a maneira como torcem, são apaixonados. Serão o 12º jogador.

CASOS DE RACISMO: BRASIL X ARGENTINA

Desábato x Grafite
O caso mais famoso envolvendo um argentino e um brasileiro negro ocorreu em 2005, quando o zagueiro Desábato acabou detido em São Paulo, durante a Libertadores. Após chamar o então atacante do São Paulo de "negrinho" e "macaco", ele recebeu voz de prisão ainda no gramado do Morumbi e acabou sendo levado para a cadeia, de onde saiu apenas após pagar fiança.

Caso de polícia
Na semifinal da Libertadores de 2009, o atacante Maxi López também foi parar na delegacia. Em jogo que o Grêmio perdeu para o Cruzeiro por 3 a 1 no Mineirão, ele foi acusado pelo zagueiro Elicarlos de ter sido chamado de "macaco". Na confusão, até o técnico gremista Paulo Autuori recebeu voz de prisão. Um inquérito foi aberto, mas ele negou a versão.

MIGUEL FOI O PRIMEIRO NEGRO

Desde 2003 atrás do objetivo de receber um documento da Fifa em reconhecimento ao pioneirismo da Ponte Preta na inclusão de atletas negros no futebol, o historiador e pesquisador do clube, José Moraes dos Santos Neto, procura documentos que provem que Miguel do Carmo, um dos fundadores do clube, tenha atuado no ano de 1900. Mas faltam registros mais concretos, diante da ausência de uma fotografia da época em que ele apareça com a camisa.

Pontepretano, o músico Jorge Araújo é  autor da canção "Tributo a Miguel do Carmo", em que exalta a abolição da escravatura.

– Ainda não conseguimos uma resposta da Fifa, mas queremos essa láurea – afirma.