icons.title signature.placeholder Caio Carrieri, Eduardo Mendes, Maurício Oliveira e Thiago Salata
04/07/2014
08:30

Eles se reúnem quase que todos os dias na Praia do Mucuripe, em Fortaleza, para fazer o que Neymar e os brasileiros se orgulham: jogar futebol. Ali, em um campinho improvisado com duas traves de madeira, disputam uma Copa do Mundo particular que rende um "hexa" por dia. Riem e se divertem, e tentam entender porque os milionários jogadores da Seleção Brasileira choraram tanto na disputa dramática de pênaltis contra o Chile, nas oitavas de final.

– Foi muita emoção, é um momento único na vida deles. Pesa um pouco, mas acho que não atrapalha em campo não. Espero que eles estejam concentrados porque o jogo contra a Colômbia vai ser ainda mais difícil, né? – diz João Vicente Alves, de 20 anos, o "Neymar" da pelada na praia.

Alves, como Michael, Arthur, Lucas e os demais garotos que jogam bola no Mucuripe, diz ter poucos motivos para chorar. Os principais são consequências das mazelas do Brasil que o povo costuma esquecer em tempos de Copa do Mundo.

– A última vez que senti tristeza de verdade e chorei sem conseguir me controlar foi quando eu perdi um amigo-irmão, Anderson, que morreu de overdose de crack. Era da minha idade. Mas já faz tempo, a gente supera – diz.

Ao lado dele, Ronnyer Nascimento, de 17 anos, nunca teve uma perda como essa. O maior drama foi ter o coração partido por um relacionamento que nem começou.

– A Deyse não quis ficar comigo – diz, enquanto os outros caem na risada como adolescentes que são.

– Mas se eu puder mandar um recado pra ela por você... "Deyse, tô aqui a toda hora! Se me quiser..." – implorou o menino.

E mais risada da molecada, que teve o futebol interrompido para uma sessão de fotos ao pôr do sol.


Garotos jogam na Praia do Mucuripe, perto do hotel da Seleção (Foto: Ari Ferreira/LANCE!Press)

As esperanças deles não são muitas. João Alves é garçom e não há muita perspectiva de mudança. A Copa do Brasil nem sequer chegou a mudar o movimento do restaurante onde ele trabalha. Ronnyer estuda em casa – ou diz que está estudando – para fazer o vestibular, mas ainda não sabe que curso vai fazer na universidade.

O que eles têm é receita e conselhos para pôr fim ao chororô geral da Seleção. Principalmente Ronnyer, tido como o "chorão" da pelada do Mucuripe pelos companheiros.

– Aqui, quando o bicho pega, eu desabafo, xingo todo mundo e ganho na raiva. Acho que a Seleção tem que fazer isso. Eles têm que ser mais objetivos nas coisas que estão fazendo e se concentrar – diz.

Simples como numa pelada na praia. No Mucuripe, em Fortaleza, ou em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde cresceu o capitão Thiago Silva.

QUEM É ELE?
O craque da bicicleta

Nome: João Vicente Alves
Nascimento: 7/12/1993, em Fortaleza (CE)
Altura e peso: 1,73m e 74kg
Time do coração: Fortaleza
Profissão: Garçon
Sonho perdido: Ser jogador profissional. Jogou no clube Terra e Mar, de Fortaleza, mas nunca em categoria de base de clube profissional.
Status: Craque do "Justos", time de pelada dos amigos do Mucuripe.


João Alves tenta um voleio artístico na Praia do Mucuripe (Foto: Ari Ferreira/LANCE!Press)