icons.title signature.placeholder Valdomiro Neto
29/06/2014
07:00

Jogadores da Argélia comemoram classificação estendendo a bandeira do país (FOTO: Kirill Kudiryavtsev/AFP)

A imagem do atacante Karim Benzema calado durante a execução do hino nacional francês, a Marselhesa. tem sido das mais comentadas nesta Copa do Mundo. Filho de argelinos, ele se recusa a entoar o fraseado que prega, entre outras coisas: “Que um sangue impuro banhe nosso solo”. Considera o trecho uma bandeira da extrema-direita local, liderada por Jean-Marie Le Pen, que coloca-se contra os imigrantes, maioria deles com origem na Argélia. Zidane comportava-se da mesma maneira, ele também descendente de gente do país africano, colônia da França por mais de um século.

Essa preconceito de fração da população francesa explica em boa parte o porquê de a Argélia ser, na atual Copa do Mundo, uma seleção recheada de franceses. Nada menos que 16 dos 23 convocados pelo técnico bósnio Vahid Halihodzic nasceram na antiga metrópole colonial. Alguns deles, como o meia Brahimi e o habilidoso atacante Feghouli, dois dos reponsáveis pelo fato de a equipe estar pela primeira vez nas oitavas de um Mundial, chegaram a jogar por seleções de base da França antes de decidir defender a camisa alviverde.

Na comemoração da inédita classificação, Feghouli, nascido em Paris e que já defendeu a seleção sub-18 da França, ergueu a bandeira argelina e deu o tom político que cerca a questão:

– Essa classificação é para todos os argelinos do mundo, todos os árabes e todos os muçulmanos.

Se conseguir ampliar ainda mais seu feito, eliminar a Alemanha e passar às quartas de final, a Argélia pode ter pela frente a França, fazendo assim um confronto com forte componente histórico.

CONFIRA A ORIGEM DE CADA ATLETA DA ARGÉLIA

Goleiros
Zemmamouche - Mila (ARGÉLIA)
Mbolhi - Paris (FRANÇA) 
Si Mohamed - Roanne (FRANÇA)

Defensores
Medjani - Lyon (FRANÇA)
Mandi - Châlons-en-Champagne (FRANÇA)
Madjid Bougherra - Longvic (FRANÇA)
Ghoulam - Saint-Priest-en-Jarez (FRANÇA) 
Halliche - Argel (ARGÉLIA)
Belkalem - Djemâa Saharidj (ARGÉLIA)
Cadamuro - Toulouse (FRANÇA)
Mesbah - Zighoud Youcef (ARGÉLIA)
Mostefa - Mazouna (ARGÉLIA)

Meias
Feghouli - Levallois-Perret (FRANÇA) 
Taider - Castres (FRANÇA) 
Lacen - Versailles (FRANÇA)
Djabou - Sétif (ARGÉLIA)
Nabil Bentaleb - Lille (FRANÇA)
Brahimi - Paris (FRANÇA) 
Yebda - Saint-Maurice (FRANÇA)
Mahrez - Sarcelles (FRANÇA)

Atacantes
Slimani - Argel (ARGÉLIA)
Soudani - Chlef (ARGÉLIA)
Nabil Ghilas -  Marseille (FRANÇA)


AS RELAÇÕES ENTRE FRANÇA E ARGÉLIA

A independência
A dominação francesa no que hoje é a Argélia durou de 1830 até março de 1962, quando foi enfim declarada a independência argelina.

Batalhas
Em 1954 começaram os conflitos em território argelino. Eles duraram sete anos anos até que, após os chamados Acordos de Évien, ocorreu o cessar fogo. Cerca de 260 mil pessoas morreram nas batalha das tropas francesas contra as guerrilhas argelinas.

O processo

Após acordos entre o governo francês, liderado por Charles de Gaulle, e a Frente de Libertação Nacional (FLN) foi feito um plebiscito. O resultado foi a aprovação com sobras da autoderminação argelina.

Tempos atuais
O combate aos imigrantes, em especial de origem argelina, tem sido uma plataforma da extrema-direita francesa Por isso, filhos de argelinos, como Zidane e agora Benzema, não cantam o hino da França.


UM NOBEL ARGELINO FRANCÊS

Nobel de literatura em 1957, Albert Camus, autor de clássicos como O estrangeiro e A peste, nasceu em Mondovi, na costa argelina, durante a colonização francesa no país. Era filho de franceses, fazendo parte dos pieds-noir (pé-negro), denominação para franceses ou seus descendentes na região. Foi goleiro universitário e, tuberculoso, teve que largar a prática do esporte que muito amava.


COM A PALAVRA:

Eles são barulhentos

Valdomiro Neto
Editor do LANCE!Net

A Argélia será a única seleção a jogar duas vezes no Beira-Rio, em Porto Alegre, neste Mundial. A torcida do país africano esteve longe de ser a mais numerosa – holandeses e, em especial, os argentinos dominaram. Mas os magrebinos fizeram proporcionalmente um barulho até maior que ambos. E ainda levaram a cidade de Gramado, na serra gaúcha, a bater seu recorde de hospedagens na história.