icons.title signature.placeholder Jonas Moura
13/03/2014
08:04

Um cenário que chama a atenção no palco dos Jogos Olímpicos de 2016. As exigências da Federação de Vôlei do Estado do Rio de Janeiro (FEVERJ) para as categorias de base estão criando limitações ao acesso de jovens às competições. O ponto mais grave é a cobrança de uma taxa de R$ 3 mil reais para que atletas de 12 a 17 anos (categorias mirim, infantil e infanto-juvenil) troquem de clube pela primeira vez.

De acordo com o artigo 24 do regulamento da entidade, a transferência de um jogador nessa faixa etária está sujeita à cobrança de quatro vezes o valor da mensalidade de associações afiliadas. O valor – R$ 750,00 – não consta no site oficial da Federação. Deste total, 75% é destinado ao clube de origem, e 25% vai para a FEVERJ.

Além de elevada e fora da realidade de muitas agremiações, a cifra supera em quase dez vezes o valor da transferência de jogadores de futebol adultos dentro do estado. Para que um profissional mude de equipe, a Federação Carioca de Futebol (Ferj) cobra R$ 350,00.

Nem mesmo uma transferência interestadual de adultos no esporte mais popular do Brasil atinge níveis tão altos. Neste caso, está previso o pagamento de R$ 1 mil.

Tabela da Ferj mostra diferença de valores em relação ao vôlei (Foto: Reprodução)


Ex-jogador da Seleção Brasileira de basquete, Alexey Carvalho conta que a filha Manuela está há mais um ano sem jogar por causa do problema. A jovem, hoje com 14 anos, fez sua última partida em julho de 2012 pelo Fluminense, clube que defendeu em poucas rodadas na categoria mirim (até 13 anos).

Depois disso, ela deixou o esporte por um ano. Quando voltou à atividade, tentou o registro na FEVERJ para poder jogar pelo Botafogo. Mas os pais foram avisados de que teriam que pagar a taxa de R$ 3 mil para que a filha tivesse condições de jogo. O clube alegou que não poderia arcar com a despesa.

– O regulamento só permite três transferências de um clube para outro. Minha filha não seria a estrela do time, então eu até entendo o lado do clube. Mas é uma situação que não pode continuar. Garanto que há muitos jovens abandonando o esporte – disse Alexey, casado com a ex-ginasta Luisa Parente.

Procurada pela reportagem, a FEVERJ informou que pretende se reunir com os clubes para debater novos valores.

Taxa em outros esportes é bem menor

Em outras modalidades no estado do Rio de Janeiro, a comparação de valores de taxas de transferências também impressiona.

O regulamento da Federação Carioca de Basquete, por exemplo, prevê cobrança de R$ 85,00 por atletas até a categoria juvenil que troquem de clube. A entidade que gerencia o futsal no mesmo estado cobra R$ 30,00 por transferências em todas as categorias.

A Federação de Vôlei do Rio alega que a cobrança de R$ 3 mil foi uma decisão tomada por iniciativa dos próprios clubes. Uma assembleia realizada no dia 13 de novembro de 2006 contou com a presença de Tijuca Tênis Clube, Niterói, Botafogo e Fluminense, que foram favoráveis à medida.

Em nota oficial em seu site, assinada pelo presidente Carlos Souto, a FEVERJ destaca que, após a primeira transferência de um jovem da base, o valor é reduzido a 10% da cobrança inicial.

FEVERJ divulgou nota oficial para explicar cobrança de taxa (Foto: Reprodução)


Ação corre na Justiça contra FEVERJ

Alexey moveu ação na Justiça contra a FEVERJ no ano passado para tentar fazer com que sua filha, Manuela, possa voltar a disputar partidas oficiais por um novo clube. O processo corre em primeira instância.

Para o ex-jogador de basquete, o direito à prática esportiva de crianças e adolescentes é prejudicado pelo regulamento da entidade que administra o vôlei no Rio. Por isso, ele também tem batalhado no Ministério Público para que a imposição seja desfeita.

Na opinião do desembargador Siro Darlan, ex-juíz da vara da infância e da juventude, o Ministério Público tem a obrigação de tomar providências para mudar o quadro do vôlei de base no estado do Rio de Janeiro.

– Um adolescente é proibido de trabalhar até os 16 anos. A Federação, além de cobrar uma taxa abusiva pela troca de clube, cria um vínculo empregatício com os jovens e os submete a um regime adulto. É uma situação que envergonharia até a máfia – disse, ao L!.

Com a palavra:

Siro Darlan, ex-juíz da 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro

Não se pode criar obstáculos ao direito ao esporte

O direito ao esporte está previsto no artigo 227 da Constituição Federal. São inegáveis os valores positivos desta prática. O Brasil está na crista da onda, com a Copa e a Olimpíada. Não pode criar um obstáculo ao direito ao esporte como uma taxa de 3 mil reais, cobrada pela Federação de Vôlei do Rio para um jovem trocar de clube.

A finalidade do esporte é integrar. Esse tipo de interesse econômico é parecido com o que esta motivando a diretoria do Flamengo no futebol, com preços exorbitantes nos ingressos. Estão afastando o direito ao lazer da massa empobrecida que ajudou a fazer a história do clube.

Estamos falando de direitos coletivos, não de um interesse particular de uma família. O Ministério Público tem obrigação de ir atras de defendê-los. E o governo deve criar políticas públicas, como criar quadras de esporte. Foi assim que a violência foi combatida no estado de Nova York, com a construção de quadras para o basquete de rua e outras modalidades para que a população envolvida na criminalidade tivesse opções de lazer.