icons.title signature.placeholder Bruno Cassucci
24/04/2014
18:33

O tão comentado fundo de investimentos Doyen Sports ganhou um "rosto" nesta quinta-feira. O português Nelio Lucas, CEO do grupo sediado em Malta, realizou apresentação em um fórum sobre negócios do futebol em São Paulo e concedeu entrevista coletiva - algo inédito no Brasil e no mundo.

Em seu discurso, o "chefão" do Doyen repetiu diversas vezes que o grupo liderado por ele é transparente, não adquire direitos econômicos de jogador e tem extrema importância para a manutenção de diversos clubes ao redor do planeta.

Sobre a contestada operação de compra de Leandro Damião pelo Santos, que custou R$ 42 milhões e foi financiada pelo Doyen a juros de 10% ao ano, Nelio Lucas falou que o tempo irá provar que o negócio foi bom para todos.

- Ele é um jogador insuspeito, um internacional brasileiro. Muitos clubes na Europa o queriam. Tínhamos acabado de fechar um acordo de cooperação com o Santos quando eles acharam que o Damião era o centroavante ideal para os anos seguintes. Nós éramos da mesma opinião, achávamos que, dentro daqueles valores, era uma operação pouco arriscada, e o futuro vai provar que assim é. Achamos por bem fazer essa operação, o clube assim quis e também achamos que era interessante, até porque ele vinha sendo negociado para a Europa por valores superiores - comentou Nelio, que, durante sua apresentação, declarou que nenhum clube parceiro do Doyen teve prejuízo nos negócios com o grupo.

Acompanhado de perto por Renato Duprat, que representa o fundo no Brasil, Nelio demonstrou entusiasmo em investir no futebol brasileiro e disse que novas parcerias podem ser anunciadas em breve.

- Até hoje, só realizamos operações com o Damião e Lucas Lima. Houve negociação com outros clubes, mas não foram concretizadas porque algumas não encontraram o ambiente correto, as condições que exigimos, e outras estão em curso. Vamos esperar os clubes anunciarem ela em um curto-prazo e, então, nos pronunciaremos - disse.

Em sua apresentação, Nelio também destacou a força do grupo Doyen, que atua principalmente nos ramos de energia, mineração e também tem uma rede de hotéis. Nos esportes, sobretudo o futebol, o fundo atua emprestando dinheiro aos clubes para fluxo de caixa ou para a contratação de jogadores. Diferentemente de outros investidores, o Doyen não compra direitos econômicos de atletas de futebol, prática que pode ser banida pela Fifa no futuro.

VEJA ABAIXO AS PRINCIPAIS DECLARAÇÕES DE NELIO LUCAS:

Há alguma relação do Doyen com o empresário português Jorge Mendes?
Algo que eu sempre quis deixar claro até na nossa página na internet, mas achamos por bem não chamar a atenção para ninguém específico. A Doyen não tem nada que ver com Jorge Mendes. É independente. O Jorge Mendes tem a sua empresa, faz os seus negócios e não existe ligação entre Doyen e Jorge Mendes. Única ligação é que ele é português e eu também (risos).

Faltou transparência do Santos na negociação com o Leandro Damião?
A postura do Santos é normal, os clubes sempre gostam de guardar as negociações. Tivemos experiência parecida na Europa, como com o Sporting Gijón (ESP), situação na qual se falou tudo e mais um pouco porque o clube não queria falar o que se passava. Não podemos passar na frente do clube, estamos por trás fazendo nossa atividade da forma que o clube acha que deve ser feita. Compete a eles comunicarem. É claro que, de tanto ruído, nós tivemos necessidade de explicar alguma coisa. Por que nessa operação do Damião apareceu que estávamos comprando o atleta, que o Santos seria uma barriga de aluguel... Fomos criticados por isso. Depois, quando esclarecemos que apenas financiaríamos, criticaram porque o Santos teria que pagar depois. É difícil agradar a gregos e a troianos. O importante é que queremos aproveitar essa situação para reforçar nossa palavra principal: clareza. Queremos tudo transparente, por isso temos páginas da internet, nos comunicamos, explicamos todas questões que podemos e não afetam as cláusulas de confidencialidade que temos com os clubes... Vamos explicar tudo que pudermos.

Qual a garantia que vocês receberam do Santos na operação do Leandro Damião?
Não gosto de falar exatamente do negócio, mas também, como não tem nada para esconder, vou dizer: a garantia do Damião são as cotas de TV da Globo daqui a três anos. Se tiver que se executar, caso o clube não queira vender ou o jogador não queira sair, nossa garantia é a receita televisiva.

Quem são os investidores por trás do Doyen?
Todo capital da Doyen Sports é do Doyen Group. É completamente declarado de quem é e de onde vêm os recursos. É importante, afinal, poderia haver algum dirigente de clube dentro do fundo, e isso é complicado.

O Doyen tem interesse em levar o zagueiro Manoel ao Santos?
É a primeira vez que ouço falar no Manoel. Minha responsabilidade não é filtrar a qualidade dos atletas. Se ele tiver qualidade, faremos essa operação muito mais rapidamente. Se não for, vamos ver o que nosso parceiro pensa e definimos. Nossa relação com o Santos é muito especial, principalmente entre eu e o presidente Odílio Rodrigues, de amizade. Se for interessante, e pudermos financiar, faremos sem dúvida.

Vocês têm vínculo com quais clubes no Brasil?
Tentamos chegar antes sempre, essa é a essência. Existem várias negociações com vários clubes. Nós não escondamos que queremos entrar no Brasil. Demorou para os clubes entenderem nosso modelo de investimento, que é diferente dos demais. É mais rígido, exige que os clubes estejam nos padrões econômicos mais restritos.

O futebol brasileiro é uma bagunça. Isso torna o país menos atrativo para investimentos?
O Brasil é atrativo, pois é um formador constante de bons jogadores. Há uma permanente criação de talentos, então o interesse existe sempre para qualquer investidor. Como em qualquer outro lugar, existe um "timing" de preparação e de moldagem da mentalidade das pessoas em relação a um modelo novo de negócios. Quando esse sistema exige responsabilidade do outro lado, sempre custa mais. Com os outros investidores é "vamos colocar dinheiro e rezar". No nosso caso, não, tem organização, responsabilidade e transparência. Acho que a entrada da Doyen vai melhorar o ambiente de negociação e outros investidores vão entrar no mercado. Competitividade é sempre bem-vinda, a lei do sucesso está em permitir que a concorrência também ganhe.

Como é o acordo do Doyen com o Neymar?
Nosso acordo com o Neymar é válido desde 2013. Tomamos conta da imagem dele na Ásia em parceria com a NR Sports. Temos trabalho estratégico com ele. Buscamos oportunidades e tomamos decisão com a empresa dele. Já fechamos vários negócios, que são públicos, e outras negociações estão em andamento. Ele é uma figura internacional, com imagem extraordinária, estamos orgulhosos de trabalhar com ele.